Mato Grosso do Sul, 9 de junho de 2026
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Lideranças Munduruku são recebidos pela presidência da COP após protesto pacífico em Belém

Lideranças apresentam demandas urgentes sobre demarcações, hidrovias e impactos de grandes obras na bacia do Tapajós
Imagens - Redes Sociais
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Lideranças do povo Munduruku foram recebidas na manhã desta sexta-feira em Belém pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, após realizarem um protesto pacífico na entrada principal do evento. A manifestação, organizada para chamar atenção às preocupações do povo indígena diante de projetos que atingem diretamente seus territórios, levou a uma reunião extraordinária em um edifício anexo ao Tribunal de Justiça do Pará, próximo da área oficial de negociações.

A agenda emergencial contou com a participação das ministras Sônia Guajajara, responsável pela pauta dos povos indígenas, e Marina Silva, responsável pela agenda ambiental e climática. O encontro foi descrito como construtivo, marcado por relatos detalhados das lideranças Munduruku sobre ameaças e impactos que se acumulam há anos na região do Tapajós. Durante a reunião, dois documentos foram entregues às autoridades, formalizando reivindicações que o grupo considera essenciais para a manutenção de seus modos de vida.

O ato dos Munduruku teve como principal foco o pedido para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revogue o decreto que autoriza a privatização de empreendimentos públicos do setor hidroviário, incluindo estruturas planejadas para o Rio Tapajós. Para o povo indígena, a concessão dessas hidrovias pode ampliar a pressão sobre o território e comprometer áreas de preservação, afetando seriamente seu cotidiano e suas práticas culturais.

Outro ponto central do protesto é a preocupação com a Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar Mato Grosso ao Pará e considerada estratégica para o escoamento da produção agrícola. As lideranças Munduruku afirmam que o empreendimento tende a gerar impactos diretos sobre aldeias, áreas de floresta e rotas tradicionais de deslocamento. Também denunciam que projetos logísticos associados ao corredor Tapajós-Arco Norte impulsionam a expansão do agronegócio sobre regiões sensíveis da Amazônia.

As críticas se estendem à forma como as negociações internacionais tratam as florestas brasileiras, vistas por muitos povos indígenas como territórios sagrados e não como ativos econômicos. Em cartazes exibidos durante o protesto, frases como “Nossa floresta não está à venda” e “Não negociamos a Mãe Natureza” reforçavam a posição firme do grupo contra iniciativas que transformam biomas em mercadorias ambientais.

No diálogo com jornalistas, a ministra Sônia Guajajara explicou que as lideranças solicitaram esclarecimentos sobre processos de demarcação em curso, especialmente sobre as áreas de Sawre Ba’pim e Sawré Muybu, ambas localizadas em Itaituba. Ela destacou que o processo de demarcação de Sawré Muybu já se encontra na etapa de implementação dos marcos físicos e placas territoriais, enquanto o de Sawre Ba’pim ainda aguarda assinatura da portaria declaratória pelo Ministério da Justiça.

A ministra Marina Silva informou que, no caso da Ferrogrão, não há pedido de licenciamento ativo no órgão ambiental responsável. O processo, além de judicializado, já teve estudos técnicos devolvidos por falta de qualidade. A preocupação, porém, permanece como prioridade entre as lideranças da região, que cobram participação efetiva em todas as etapas relacionadas ao empreendimento.

Quanto ao decreto que trata das hidrovias, Marina Silva afirmou que encaminhará a demanda para o Ministério dos Transportes, reforçando que qualquer decisão deverá considerar impactos sociais, culturais e ambientais apontados pelos povos tradicionais. As autoridades também ressaltaram que a participação indígena na COP30 é a maior já registrada, com mais de trezentas lideranças credenciadas para acompanhar diretamente as negociações.

A liderança Alessandra Munduruku destacou que, embora o encontro com as ministras e o presidente da COP represente um avanço, o grupo mantém o pedido de diálogo direto com o presidente Lula. Para ela, decisões que afetam territórios indígenas precisam ser tomadas de forma coletiva, com consulta prévia e com participação efetiva das comunidades, conforme o princípio que orienta sua organização interna.

O episódio em Belém evidencia a preocupação crescente dos Munduruku com obras estruturantes que se aproximam de seus territórios e com políticas que, segundo eles, podem redefinir o futuro da região sem considerar a realidade local. O protesto, realizado de forma pacífica e estratégica, buscou garantir que suas vozes fossem ouvidas em um dos espaços de maior relevância global para discussões climáticas.

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