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Mato Grosso do Sul, 22 de abril de 2024
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A história que “A Sociedade da Neve” não contou; Quem salvou os sobreviventes?

Sergio Catalán deixou suas atividades para ajudá-los. Ele viajou 120 quilômetros a cavalo para relatar que havia encontrado dois sobreviventes de um acidente de avião
Filme que retrata o acidente aéreo conhecido como "a tragédia dos Andes"
Filme que retrata o acidente aéreo conhecido como "a tragédia dos Andes"

O condutor de mulas chileno Sergio Catalán foi a primeira pessoa a encontrar com sobreviventes da “tragédia dos Andes”, o acidente aéreo de 1972 retratado no filme “A Sociedade da Neve”.

Ele lembra que achou que Roberto Canessa e Fernando “Nando” Parrado, dois dos sobreviventes da queda da aeronave, que escalaram a cordilheira dos Andes durante 10 dias em busca ajuda, eram pessoas que estavam “apenas passeando”

Eles faziam parte dos 16 sobreviventes do acidente ocorrido em 13 de outubro de 1972, quando o voo 571 da Força Aérea do Uruguai, com destino a Santiago, no Chile, caiu na Cordilheira dos Andes com 45 pessoas a bordo, incluindo 19 membros da Christian Bross, um time escolar de rugby do Uruguai.

No total, 29 passageiros morreram, alguns imediatamente e outros com o passar dos dias. As 16 pessoas vivas passaram mais de dois meses nas montanhas nevadas dos Andes e conseguiram sobreviver organizando uma “sociedade” e até a uma dieta baseada em carne humana.

Mas houve mais um fator fundamental para a sobrevivência de todos: o chileno Sergio Catalán.

O personagem de Catalán aparece brevemente no filme da Netflix “A Sociedade de Neve”, que é baseado na tragédia.

Ele é a primeira pessoa que Canessa e Parrado encontram no riacho após 72 dias, e um vínculo foi forjado entre ele e os sobreviventes que durou décadas. Esta é a história dele.

Sergio Catalán, o tropeiro que salvou 16 vidas

Quando Canessa e Parrado se separaram do grupo em busca de ajuda, os sobreviventes já estavam presos na Cordilheira dos Andes há quase dois meses.

Eles decidiram se separar dos outros porque era a sua única chance de sobrevivência, já que tinham ouvido por um rádio que as autoridades tinham suspendido os esforços de busca.

Após 10 dias subindo a serra, eles chegaram ao pico de uma montanha e passaram por ela. Chegando lá, passaram de uma paisagem nevada a uma cheia de vida, segundo contou Canessa, em 2020, ao programa uruguaio Informal Breakfasts.

“Vinhamos da serra, da geleira, onde não há vida. E você vai voltando: primeiro você vê água, depois você vê grama, depois um lagarto, depois você vê vacas… mas falta o homem”, relatou Canessa, que tinha 19 anos na época do acidente e hoje é cardiologista.

“Você [se pergunta:] realmente alcançou a civilização? Estávamos sentindo falta do homem”, acrescentou.

Sergio Catalán, falecido em fevereiro de 2020, trabalhava no momento em que viu os dois sobreviventes da “tragédia dos Andes”. O chileno era condutor de mulas e estava com o gado quando avistou os uruguaios.

“Primeiro, quando os vi, estava reunindo o gado, mas pensei que eram pessoas que estavam apenas passeando. Mais tarde, quando os vi correndo mais perto, quase a ponto de gritarem comigo, eles fizeram [sinais] com as mãos, mas não entendi o que diziam”, explicou Catalán em uma entrevista de 1972 à Televisión de Chile, incluída no documentário El arriero, no canal do YouTube Contacto.

Canessa e Parrado não conseguiram se aproximar de Catalán por causa de um obstáculo natural: um riacho que não permitiu passarem para o lado onde ele estava.

Na realidade, não era um riacho largo, mas a corrente rápida impedia a passagem. Além disso, o barulho da corrente era forte, fazendo com que as palavras dos uruguaios não fossem ouvidas.

“Eles não tinham nada com que se comunicar. Nada. Não tinham papel, não tinham lápis”, destacou Catalán à Contacto, em uma entrevista em 2011 que foi incluída no documentário de 2013.

Catalán foi a um amigo buscar um papel e um lápis, e entregou as duas coisas a Canessa e Parrado para que escrevessem um bilhete e assim descobrissem o que estava acontecendo.

E a história que ele leu naquela nota é a incrível odisseia que todos conhecemos hoje como a “tragédia dos Andes”.

A nota da “tragédia dos Andes”

Esta nota foi escrita por Parrado. Algumas das palavras que escreveu foram as seguintes:

“Venho de um avião que caiu nas montanhas, sou uruguaio, estamos caminhando há 10 dias, tenho um amigo ferido lá em cima [Canessa, que não desceu para a margem do riacho por um ferimento e por estar muito fraco”.

Assim, Sergio Catalán deixou suas atividades para ajudá-los. Ele viajou 120 quilômetros a cavalo para relatar que havia encontrado dois sobreviventes de um acidente de avião.

Catalán, que estava no lado chileno da cordilheira, viajou “o dia todo e uma noite” com o bilhete para levá-lo às autoridades, disse a Contacto. Foram necessárias 10 horas a cavalo para entregar o bilhete aos Carabineros da cidade de Puente Negro.

A princípio, as autoridades acreditaram que ele estava bêbado, mas o bilhete de “Nando” Parrado era uma prova conclusiva de que ele falava a verdade, por isso foram em busca dos dois uruguaios.

Catalán viu Canessa e Parrado pela primeira vez em 21 de dezembro de 1972. O condutor de mulas dedicou o dia inteiro a avisar as autoridades.

Em 22 de dezembro, helicópteros chegaram ao local do acidente onde estavam os 14 sobreviventes restantes. Os esforços de resgate, diz Contacto, demoraram dois dias devido às más condições meteorológicas.

Vínculo inquebrável

Canessa afirmou ao Informal Breakfasts que, apesar de anos terem passado após o resgate, o bom relacionamento foi mantido com Catalán, a ponto de compartilhar vários encontros e forjar um vínculo inquebrável que durou décadas.

Por sua vez, Carlos Páez, outro dos sobreviventes do acidente e cujo pai organizou expedições para encontrá-los, disse que Sergio Catalán foi como um pai para todo o grupo.

“É um momento difícil, porque um capítulo da nossa história está se encerrando e para nós ele foi como um pai. Tivemos um vínculo ao longo destes 47 anos, permanente e no tempo”, comentou Paez  após a morte de Catalán, aos 91 anos.

Sergio Catalán, “um grande homem com uma grande família. Devemos-lhe a nossa vida”, adicionou.

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