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Mato Grosso do Sul, 1 de março de 2024
Campo Grande/MS
Fuente de datos meteorológicos: clima en Campo Grande a 30 días

Clima e desigualdade: quem já está pagando a conta?

Sarah Marques, educadora popular e cofundadora do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, em Recife (PE)
Sarah Marques, educadora popular e cofundadora do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, em Recife (PE)

“Quando chegam as chuvas, a gente olha para os prédios ao redor e quem tá lá no 15º andar nem percebe que na favela ao lado, a pessoa está se afogando com água até o teto. Eu olho os prédios que me rodeiam, não sei o quanto eles me enxergam, mas eu vejo que até o carro deles fica acima da gente”, diz Sarah Marques, educadora popular e cofundadora do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, em Recife (PE).

Este é um dos retratos reais de como a conta do aumento de eventos extremos provocado pela crise climática sai mais cara para uns do que para outros. O caso da Comunidade onde Sarah vive, no Recife, é um dos inúmeros exemplos de como as alterações no clima já estão afetando milhares de pessoas ao redor do mundo. E pelo fato de estar num contexto urbano e próximo ao mar, os impactos são potencializados tanto pela falta de planejamento em infraestrutura de saneamento, impermeabilização do solo e degradação de rios e nascentes, como também pelo aumento do nível dos oceanos.

Caranguejo Tabaiares é uma comunidade centenária e pesqueira, localizada no coração de Recife, na Ilha do Retiro. Quem mora ali vive uma realidade emoldurada pelos extremos de paisagens que misturam o centro movimentado da cidade grande com o ritmo da vida ribeirinha.

A proximidade com o rio Capibaribe é parte importante de uma relação histórica que fez da pesca fonte de renda da comunidade e que influenciou o modo de construir as casas, muitas são de palafita, facilitando assim a convivência com as mudanças da maré. Atualmente, no entanto, o local passa por algumas transformações e grandes desafios.

“Hoje em dia, a maré já não é mais a mesma. E com tantas construções ao redor, como prédios, ruas e rodovias, o solo já não consegue mais absorver a água quando a maré enche e se soma ao volume das chuvas. Isso tem feito das enchentes um grande problema para todas nós. Eu mesma moro em frente a um canal que deságua no Capibaribe e já tive minha casa tomada pela água diversas vezes”, conta Sarah.

É para este canal que vai o esgoto da comunidade, sem tratamento, indo desaguar depois no mar.

São muitas as batalhas a serem enfrentadas, uma situação que se agravou ainda mais com a pandemia do novo coronavírus.

“A maioria das chefes de família são mulheres negras trabalhando no subemprego. Muitas delas agora estão sem trabalho e sem ter como alimentar seus filhos, precisando escolher: ou eu arrumo a casa, ou aguento a água invadindo, ou dou alimento aos meus filhos. Eu mesma já tive que fazer essa escolha muitas vezes”, relata.

Sociedade civil: presente!

A atuação do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste tem sido fundamental para contribuir com a sobrevivência dos moradores da comunidade no último ano. “Quando a gente viu que ia fechar tudo e a situação das famílias ia piorar muito, a gente precisou se reinventar e ir atrás da comida para que as pessoas não morressem. Conseguimos apoio financeiro, alimento, álcool, frutas, enfim, a gente se reinventou e segue se reinventando”, diz Sarah.

reinventar-se da fala de Sarah reflete um pouco da história do Coletivo que, na verdade, surgiu para defender a permanência da comunidade no território. No início de 2019, cerca de 100 famílias foram ameaçadas de serem removidas pelo poder público.

“A prefeitura queria demolir nossas casas para passar uma avenida por cima, impermeabilizando ainda mais o solo da região. Nós não vamos deixar com que tirem e levem para longe um povo que se sustenta deste rio há gerações e que tem direito sobre o território”, diz Sarah.

Caranguejo é classificado como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), ou seja, uma área destinada prioritariamente para a regularização da posse das famílias. Segundo Sarah, há um plano urbanístico que propõe, inclusive, um local para que o esgoto seja tratado com indicação de abertura de vias para que a água possa descer corretamente até o mar.

Se por um lado o poder público se mostra completamente ausente, isentando-se da responsabilidade de fornecer infraestrutura, saneamento básico, abastecimento de água potável e auxílio em situações como a da pandemia, por outro, ele age com destreza. Age por meio de uma ação que pode ser reconhecida como higienização social, ou seja, a exclusão das populações em situação de vulnerabilidade das zonas valorizadas da cidade para dar lugar às classes mais altas e privilegiadas. E ainda mais neste caso, deixa de considerar que, além de vidas humanas, há toda uma diversidade de vida que pode ir para debaixo do asfalto, matando mangues, peixes e muitas outras espécies.

“Este processo de urbanização que o poder público quer fazer consiste, na verdade, em tirar a gente e impermeabilizar a margem do rio”, diz Sarah. “No entanto, nós não vamos desistir. E vamos continuar trabalhando para que as pessoas entendam que somos parte de todo um ecossistema, e que este rio aqui deveria ser um rio de riqueza”.

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