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Mato Grosso do Sul, 22 de abril de 2024
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Saiba os números da gigante e bilionária indústria da alimentação saudável

Estima-se que melhores escolhas alimentares resultariam a longo prazo na prevenção de 19-24% do total de mortes entre adultos. Desse modo, melhorar a alimentação tem impacto direto na qualidade de vida, no tratamento e prevenção de doenças e na longevidade

O que é uma alimentação saudável? As respostas para essa pergunta, que parece simples à primeira vista, são dadas sob diferentes perspectivas e pontos de vista, que são recheados de fatos verdadeiros, mas também de muitos mitos.

Quem nunca ouviu pelo menos uma vez na vida alguém dizendo que os carboidratos são os grandes vilões das dietas? E o glúten, então? Sem falar na lactose…Com muita divulgação errônea e promessas milagrosas para perder peso rapidamente na internet, é preciso ter cuidado para não cair em armadilhas.

Porém, para quem busca aliar saúde, longevidade e estética (por que não?) a novos hábitos alimentares, a notícia é boa: não é necessário cortar totalmente determinados alimentos do dia a dia para ter uma alimentação saudável. E mais: começar a fazer boas escolhas no mercado pode ser muito mais fácil – e barato do que muitos imaginam.

A importância e o aumento das mudanças de hábitos

Segundo pesquisa realizada em 2021 pela Abiad (Associação Brasileira de Indústria de Alimentos para Fins Especiais) 61% dos entrevistados gerais afirmaram que buscaram melhorar sua alimentação nos anos anteriores. O índice da faixa de 41 a 50 anos chegou a 67%.

Juliana Peres, cardiologista do Instituto SPORT e Hospital do Coração SP, explica que os nossos hábitos são responsáveis por 80% das causas de doenças crônicas que mais acometem a população, como hipertensão, diabetes, infarto e AVC, e que a alimentação é um dos pilares mais importantes relacionados ao estilo de vida.

“Vivemos atualmente uma epidemia de obesidade no Brasil, doença que está intimamente relacionada ao nosso hábito alimentar e que é fator de risco para todas as doenças crônicas. São mais 18 milhões de pessoas obesas no país e mais de 70 milhões de pessoas acima do peso”, aponta.

“Estima-se que melhores escolhas alimentares resultariam a longo prazo na prevenção de 19-24% do total de mortes entre adultos. Desse modo, melhorar a alimentação tem impacto direto na qualidade de vida, no tratamento e prevenção de doenças e na longevidade. É primordial que a gente busque alternativas a nível individual e populacional para mudar o nosso cenário nutricional atual”, completa.

A nutricionista esportiva Deborah Lestingi relata um aumento no movimento em seu consultório nos últimos anos, especialmente por parte de pessoas que buscam melhorar sua qualidade de vida por meio da alimentação. Para ela, é importante destacar que a nutrição não deve ser encarada apenas como uma profissão voltada para emagrecimento, mas sim como fundamental em todas as fases da vida.

“Se você acha que ‘ser saudável’ custa caro, você está enganado quanto a este conceito. Explore o setor de hortifruti dos mercados, com um valor relativamente baixo em uma feira de rua, você compra comida para praticamente uma semana, cheia de nutrientes e saciedade. Hoje em dia, um pacote de batata frita custa quase R$ 15 e não alimenta uma pessoa por duas horas”, ressalta Lestingi, que explica que uma boa alimentação está baseada em equilíbrio, moderação e variedade, com consumo de diferentes tipos de alimento de diversos grupos seguindo a máxima de “comer de tudo um pouco”.

Os alimentos naturais

A  pesquisa “Euromonitor Voice of the Consumer: Health and Nutrition Survey”, realizada com informações coletadas em fevereiro de 2023, apontou que 36,2% dos consumidores digitais globais apresentam preferência por alimentos 100% naturais.

Neste levantamento, o Brasil se destaca com uma porcentagem ligeiramente inferior, mas ainda significativa, de 31,2%. Esse fator é ainda mais importante para a geração Z (idade entre 14 e 29 anos), com 33,3% priorizando a alimentação natural no país.

O tamanho do mercado de frutas no Brasil, por exemplo, saltou de R$130,7 bilhões em 2022 para R$144,5 bilhões em 2023. A projeção da Eurominitor é que em 2028 chegue em R$208,2 bilhões.

Já o levantamento sobre o mercado de vegetais frescos, que inclui couve-flor, brócolis, milho, tomate, cebola, entre outros, apontou um tamanho de R$60,7 bilhões em 2022, que cresceu para R$67,3 bilhões em 2023, com projeção de chegar a R$96,8 bilhões em 2028.

Quando o assunto são os nuts (amêndoas, amendoins, pistaches, nozes, avelãs, castanhas, castanhas de caju, entre outras), o mercado brasileiro saltou de R$15,9 bilhões em 2022 para R$17,3 bilhões em 2023 (registrando um crescimento de R$ 9,3%). A projeção é que em 2028 esse número chegue em R$ 26,1 bilhões.

A quantidade de produtos à disposição e a movimentação do mercado

O nutricionista Marco Jafet, do Instituto INSPORT, reforça a importância da alimentação natural como base de uma dieta saudável, extraindo o máximo possível de macro e micro nutrientes destes tipos de alimento e evitando os processados e ultra processados. Para ele, é preciso investir no consumo de carboidratos, proteínas, gorduras, leguminosas, tubérculos de forma equilibrada a necessidades individuais.

Entretanto, ele enfatiza também que há excelentes opções industrializadas disponíveis hoje no mercado para aqueles que buscam praticidade e qualidade.

“Precisamos ressaltar que não é porque um alimento é industrializado que significa que é ruim. Existem inúmeras opções disponíveis e, se você souber avaliar bem, encontrará produtos de alta qualidade. O consumidor só precisa ficar atento para não ser enganado. É importante, principalmente, ler o rótulo e não se ater apenas à quantidade de gordura, carboidratos e proteínas, mas sim aos ingredientes que compõem o produto. Quanto menos ingredientes, mais saudável ele será. Atualmente, há uma grande oferta, mas também muitas dúvidas sobre o que é bom ou não. É necessário criar cada vez mais uma onda de conscientização para que as pessoas entendam o que estão consumindo”, ressalta.

Em 2021, a Eutomonitor International estimou a movimentação de R$ 100 bilhões do mercado de alimentação saudável no Brasil. À época a empresa usava uma metodologia que não dividia estes alimentos em categorias específicas. Com o aumento do mercado e do interesse pelo assunto, ela passou a acompanhar cada vertical de forma específica – e os números atuais impressionam tanto em valores quanto em consumo.

“Já faz aproximadamente 10 anos que vemos uma propensão maior da população a se interessar pelo tema alimentação saudável. A pandemia foi um divisor de águas e trouxe à tona a saúde como grande centro de pauta, tendo como uma das consequências uma atenção maior do consumidor sobre do que estava sendo consumido. Então, grandes empresas começaram a melhorar seus portfólios e oferecer produtos cada vez mais com essas características”, explica Rodrigo Mattos, Research Consultant na Euromonitor International.

No que se diz respeito a bebidas com alto níveis de proteínas, o mercado no Brasil atualmente é estimado em R$2,1 bilhões e tem projeção para crescer até R$3,1 bilhões em três anos. Cerca de 28% dos consumidores brasileiros consideram a proteína como ponto importante ao comprarem alimentos e bebidas.

Outros itens que tiveram um aumento expressivo no mercado de saudáveis foram os sucos 100% fruta. Em 2022, o mercado no Brasil era estimado em R$4,5 bilhões. Em 2023, subiu para R$5,3 bilhões e a projeção para 2028 é que ele chegue em R$9 bilhões, com a venda de 717,3 milhões de litros.

As águas de coco e de outras plantas também ganham destaque no mercado. Em 2023, foram vendidos 240,8 milhões de litros no país.

Já os chips de vegetais, legumes e pães representaram em 2023 o número de R$179,4 milhões, com expectativa para chegar em R$470,3 milhões em 2028. Os salgadinhos de arroz, por sua vez, que incluem chips feitos principalmente de farinha de arroz, chegam a R$ 13,3 milhões atualmente, com projeção para R$21,5 milhões daqui a quatro anos.

Nova regra de rotulagem da Anvisa

Quem costuma ir ao mercado com uma certa frequência com certeza já foi impactado por uma novidade nos rótulos de alguns produtos disponíveis nas prateleiras. As mensagens são bem claras: “Alto em sódio”; “Alto em gordura saturada” e “Açúcar adicionado”. Isso faz parte da nova regra de rotulagem nutricional frontal estipulada pela ANVISA.

Considerada a maior inovação das novas regras, ela é um símbolo informativo que deve constar no painel da frente da embalagem. A ideia é esclarecer o consumidor, de forma clara e simples, sobre o alto conteúdo de nutrientes que têm relevância para a saúde.

Para tal, foi desenvolvido um design de lupa para identificar o alto teor de três nutrientes: açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio. O símbolo deverá ser aplicado na face frontal da embalagem, na parte superior, por ser uma área facilmente capturada pelo olhar.

É obrigatória a veiculação do símbolo de lupa com indicação de um ou mais nutrientes, conforme o caso, quando os alimentos apresentarem determinadas quantidades a mais por peso. A tabela pode ser encontrada neste link, junto com mais normas estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

“Analiso que esta regra chegou de duas maneiras aos consumidores: primeiro como um grande susto e impacto, por agora ter uma mensagem bem clara do que aquele produto traz, e segundo como um grande pontapé para mudanças. Já conseguimos observar um aumento expressivo no portfólio e consumo de refrigerantes zero açúcar, por exemplo. As trocas estão acontecendo gradualmente. Foi um casamento muito bom, porque alerta e ativa a consciência”, analisa Mattos.

Ainda de acordo com levantamento feito pela Euromonitor, o mercado de refrigerantes zero ou com açúcar reduzido cresceu 19,6% de 2022 para 2023, chegando a R$2 bilhões. A expectativa é que até 2028 ele dobre de tamanho.

Apesar de considerar como ponto positivo o aumento da consciência do consumidor em relação à diminuição do açúcar, a nutricionista Deborah Lestingi alerta que isso não significa que estas bebidas são saudáveis.

“Apesar de não conter calorias, é um produto de baixa qualidade nutricional, portanto, o consumo deve ser moderado”, alerta.

A pesquisa “Euromonitor Voice of the Consumer: Health and Nutrition Survey” também apontou que a redução ou ausência de açúcar adicionado é um fator relevante para os consumidores, com 34,1% globalmente buscando alimentos por essa característica. O Brasil se destaca com uma porcentagem mais alta, atingindo 38,9%. Além disso, os homens da geração Z no país mostram uma preocupação ainda significativa com a presença de açúcar adicionado, com uma porcentagem notável de 50%, muito acima da média global.

Da mesma forma, quando se trata de redução ou ausência de gordura adicionada, a média global dos atentos a este tema é de 25,3%, enquanto o Brasil registra uma porcentagem mais elevada de 32,7%. Esse dado evidencia uma preferência mais acentuada por produtos com baixo teor de gordura entre os consumidores brasileiros em comparação com a média global. Essa questão é ainda mais importante para mulheres com mais de 60 anos, com uma porcentagem notável de 58,8% de brasileiras nessa faixa etária procurando alimentos com gordura reduzida.

Já em relação à redução ou ausência de sal adicionado, 25,9% dos consumidores em todo o mundo consideram essa característica importante. Mais uma vez, o Brasil se destaca com uma porcentagem de 27,4% dos consumidores buscando produtos com baixo teor de sal. Da mesma forma, as brasileiras com mais de 60 anos são a faixa etária que mais prioriza por produtos com pouco ou nenhum sal adicionado, com uma porcentagem de 52,9%.

As empresas que nasceram já com o propósito de levar saudabilidade ao público

Com a alimentação saudável cada vez mais em pauta, restaurantes e empresas passaram por uma adaptação à demanda, oferecendo em seus cardápios opções mais nutritivas para aqueles que a procuram. Outras, por sua vez, já nasceram com este objetivo e buscam inovar levando este conceito ao consumidor de diferentes formas.

É o caso da Liv Up, foodtech brasileira que há oito anos busca oferecer refeições nutritivas em porções ultracongeladas por meio de tecnologia customizada. Idealizada por Victor Santos, a empresa tem a base de sua produção na agricultura familiar e conta hoje com 20 produtores parceiros responsáveis por fornecer vegetais frescos e orgânicos. Um dos grandes objetivos da marca é democratizar o acesso a comida saudável.

“Sempre levei muito a sério a vida saudável e eu precisava achar uma solução para a minha rotina corrida em São Paulo. Na faculdade, eu e meu amigo tivemos a ideia de montar uma empresa que ofereceria refeições ultracongeladas 100% naturais. Essa seria uma forma super prática e evitaria desperdício de alimento, já que as porções seriam fracionadas. Vimos que desta forma  a qualidade nutricional e sensorial seriam preservadas e embarcamos nesta jornada de reposicionar a categoria de congelados, que sempre foi vista com maus olhos. Queríamos que o cliente tivesse a experiência como se estivesse comendo comida de casa”, explica.

Desde o dia zero do projeto, os sócios trouxeram um time de peso formado por nutricionistas, chefs de cozinha, equipe dedicada ao desenvolvimento de qualidade de produto e outros profissionais que juntos são 500. O investimento inicial foi um pouco menos de R$ 1 milhão e a aposta deu certo. A Liv Up tem hoje um portfólio de cerca de 150 itens, que servem de opções para refeições completas, café da manhã, lanches ou até mesmo sobremesas. Além do e-commerce, a marca iniciou sua atuação no segmento de foodservice.

“Começamos vendendo 100% no nosso site e íamos acompanhando diariamente o andamento. Depois de três meses mais ou menos começamos a ver nomes desconhecidos comprando nossos produtos e vimos que estávamos no caminho certo. Vemos a evolução diária do consumidor que quer algo prático, saudável e saboroso. O nosso público tem aumentado e expandido de perfil”. completa.

Se a Liv Up nasceu da vontade de seu fundador de manter uma boa alimentação, a BOLD Snacks abriu as portas em 2018 pela necessidade de seu criador Gabriel Ferreira, de 30 anos, adotar hábitos saudáveis. A empresa é focada em barrinhas de proteínas e cresceu exponencialmente nos últimos anos. Em 2022, o faturamento foi de R$ 80 milhões e, em 2023, fechou com R$ 200 milhões.

“Eu cresci como uma criança obesa. Na adolescência, comecei a fazer atividade física e dieta e emagreci, mas gostava muito de doce. Sempre que eu ia aos Estados Unidos comprava barras de proteína com ótimos sabores e valores nutricionais igualmente. Percebi que aqui no Brasil eu não encontrava isso e fui atrás de desenvolver uma fórmula que agregasse tudo. Nossa ideia é desmistificar a ideia que barra de proteína precisa ter um sabor ruim”, enfatiza.

“Antes, este tipo de produto era visto só por quem fazia musculação. Quando colocamos uma embalagem colorida, por exemplo, a categoria ficou muito mais convidativa para outros públicos. Hoje temos clientes que consomem nossas barras olhando para alimentação saudável como hábito de vida, não só para estética”, completa.

Com investimento de 150 mil reais, Gabriel foi a campo aprender. Foi crescendo de forma orgânica, e com a ajuda de nutricionistas, engenheiros de alimento, dentre outros profissionais foi chegando à fórmula que considerou ideal de composição e sabor. Abriu a empresa com apenas uma opção à disposição: a barra de caramelo e amendoim.

“Pedimos a produção de 5 mil unidades e vendemos muito rápido. Fui aumentando os pedidos aos poucos e desenvolvendo novos sabores – hoje são 13, além de outros snacks. A Bold assume um papel relevante por trazer a proteína real. Buscamos produtos equilibrados. Muitas vezes o consumidor por não entender procura algo que não existe. Todo mundo queria uma barra que não tivesse carboidrato e gordura, mas o que todos precisam ficar atentos é como eles se equilibram. E aqui focamos muito neste valor nutricional. Nossos produtos são zero adição de açúcar”, enfatiza.

Hoje a empresa emprega 140 pessoas e está contratando mais mão de obra. Nesse ano, ela está focada na expansão de uma nova planta industrial, com 23 mil metros quadrados, que deve passar a funcionar no primeiro semestre. O investimento na nova fábrica é de R$35 milhões. A movimentação procura dar impulso ao plano de chegar em 2027 com faturamento superior a R$500 milhões.

Os mitos e verdades reunidos

  • É verdade que o mercado de alimentação saudável movimenta bilhões de reais no Brasil;
  • É verdade que alimentação saudável é uma das bases para longevidade e bem-estar;
  • É verdade que uma alimentação saudável é composta de macro e micronutrientes de diversos grupos alimentares;
  • É mito que uma alimentação saudável precisa ser necessariamente cara e complexa;
  • É mito que os carboidratos são os grandes vilões de uma grande dieta;
  • É mito que refrigerantes e produtos zero são saudáveis só por não terem calorias. Eles são produtos com baixa qualidade nutricional, portanto, o consumo deve ser moderado;
  • É mito que glúten e lactose estão associados diretamente a saudabilidade e emagrecimento;
  • É mito que todos os produtos denominados nas prateleiras como “Fit” são sempre melhores.

A nutricionista deixa esta pergunta final como ponto de reflexão e também traz uma mensagem para quem quer mudar os hábitos, mas não sabe por onde começar: “O ponto de partida é você. Então trace metas realizáveis e de acordo com a sua realidade. Tenha consciência que terão erros e acertos. Falo que é como um equilibrista: pende para um lado, para o outro, mas volta para a linha e segue em frente”.

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