Mato Grosso do Sul, 3 de julho de 2026
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Lula defende multilateralismo, condena extremismo e critica gastos com armas em discurso ao corpo diplomático

Presidente destaca ameaças à democracia, mudanças climáticas, desigualdades globais e marginalização do Sul Global durante a cerimônia do Dia do Diplomata, celebrada no Palácio Itamaraty

Em um discurso marcado por firmeza e densidade política, transmitido pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu-se nesta terça-feira, dia 27 de maio, ao corpo diplomático brasileiro, por ocasião da cerimônia oficial de comemoração ao Dia do Diplomata. O evento, realizado no Palácio Itamaraty, em Brasília, celebrou também a entrega das insígnias da Ordem de Rio Branco e a formatura da Turma Eunice Paiva, do Instituto Rio Branco.

Ao longo da solenidade, que reuniu autoridades do governo federal, membros do Ministério das Relações Exteriores e diplomatas de diversos escalões, Alckmin deu voz à mensagem cuidadosamente elaborada por Lula, que apontou com clareza os principais desafios enfrentados pela diplomacia brasileira no atual cenário internacional, caracterizado por instabilidade, ascensão do extremismo, recrudescimento do unilateralismo e aprofundamento das desigualdades globais.

Diplomacia em tempos de crise: a era da negação e os riscos à democracia

Logo na abertura de sua mensagem, o presidente destacou a delicadeza do momento político internacional e alertou para os riscos que rondam a democracia e a ordem diplomática. “Caberá a vocês serem diplomatas em uma era de negação da diplomacia. Na política, a democracia está em perigo. Na diplomacia, cresce o unilateralismo”, asseverou Lula, apontando para a necessidade urgente de reforçar a atuação multilateral como único caminho possível para a superação das crises que abalam a convivência pacífica entre as nações.

O presidente foi enfático ao denunciar o avanço de políticas isolacionistas e do extremismo, fenômenos que, segundo ele, ameaçam minar as estruturas multilaterais construídas ao longo de décadas com o intuito de garantir a cooperação internacional, a resolução pacífica de conflitos e a promoção do desenvolvimento sustentável. “A única solução é o diálogo entre as partes. Só existe entendimento quando há respeito à pluralidade. Relações de Estado não podem ficar à mercê de diferenças políticas entre os governos”, frisou Lula, reiterando a importância do respeito à diversidade e à soberania dos povos.

Mudanças climáticas e desigualdades globais: uma crítica à ordem internacional vigente

A mensagem presidencial também conferiu centralidade ao debate sobre as mudanças climáticas e as persistentes desigualdades globais, problemas que, segundo Lula, devem ser enfrentados mediante o fortalecimento do multilateralismo e pela atuação conjunta das nações em defesa da justiça social e do meio ambiente. “É inconcebível que se gastem US$ 2,4 trilhões por ano com armamentos enquanto existem mais de 730 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar”, destacou o presidente, ao criticar de forma contundente as prioridades estabelecidas pela ordem internacional contemporânea.

Ao abordar o tema, Lula reafirmou o compromisso do Brasil com a construção de uma governança global mais equitativa e sensível às necessidades dos países em desenvolvimento. Para ele, o combate à fome, à pobreza e à destruição ambiental não pode ser adiado, tampouco relegado a uma posição secundária nas agendas internacionais. “Defendemos uma ordem internacional que seja justa, inclusiva e baseada na cooperação, não na imposição”, ressaltou.

Integração regional e a defesa das vozes do Sul Global

Outro ponto de destaque na fala presidencial foi a crítica à marginalização histórica do Sul Global nas instâncias decisórias internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Lula lamentou que, apesar dos avanços econômicos e sociais obtidos por muitos países do Hemisfério Sul nas últimas décadas, suas vozes ainda não sejam devidamente consideradas nos principais fóruns globais. “A prosperidade permanecerá um privilégio de poucos enquanto as vozes do Sul Global não estiverem devidamente representadas”, observou.

Em defesa de uma atuação diplomática ativa e solidária, o presidente sublinhou a necessidade de reconstrução dos mecanismos de integração regional, com ênfase na América do Sul. Para Lula, o Brasil deve liderar esforços no sentido de fortalecer organismos multilaterais, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), e buscar soluções conjuntas para os desafios que afetam a região, como a crise migratória, a insegurança alimentar e a degradação ambiental.

O papel da diplomacia brasileira: uma defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos

Lula reafirmou o papel histórico da diplomacia brasileira como defensora intransigente da democracia, dos direitos humanos e da diversidade cultural. Em sua mensagem, enfatizou que os diplomatas brasileiros devem, no exterior, continuar a representar as batalhas que o país trava internamente. “O papel de vocês, diplomatas, implica levar para a frente externa as batalhas que travamos internamente. Precisamos combater o extremismo e as desigualdades lá fora com o mesmo vigor com que lutamos aqui dentro”, afirmou, estabelecendo um elo claro entre a política externa e os valores democráticos que o governo pretende consolidar no plano doméstico.

Ao encerrar sua fala, Lula fez um apelo à valorização da pluralidade que marca a sociedade brasileira, ressaltando que essa diversidade deve também ser a marca distintiva da atuação diplomática do país no mundo. “Em um mundo que está substituindo pontes por muros, é essa a pluralidade que vocês representarão no exterior”, concluiu, numa metáfora poderosa sobre o papel civilizatório que espera dos representantes diplomáticos do Brasil.

Instituto Rio Branco: a formação dos novos guardiões da diplomacia nacional

A cerimônia foi marcada ainda pela entrega das insígnias da Ordem de Rio Branco e pela formatura da Turma Eunice Paiva, nomeada em homenagem à advogada e militante dos direitos humanos que se destacou na luta contra a ditadura militar e na defesa da democracia no Brasil.

Criado em 18 de abril de 1945, o Instituto Rio Branco desempenha papel central na formação dos diplomatas brasileiros, sendo considerado uma das instituições mais prestigiosas do país. Fundado em tributo ao Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia nacional, o Instituto já formou, ao longo de quase oito décadas, centenas de profissionais que representam o Brasil nos mais diversos organismos multilaterais, embaixadas e consulados ao redor do mundo.

Em sua mensagem, Lula destacou a importância histórica e estratégica do Instituto para a política externa brasileira. “Com a cerimônia de hoje, cerca de 700 diplomatas já se formaram em meus três mandatos. Eles correspondem a quase metade dos 1.600 membros do corpo diplomático brasileiro”, ressaltou, evidenciando o legado de sua gestão no fortalecimento do serviço exterior.

O Instituto Rio Branco oferece uma formação que alia rigor acadêmico e capacitação prática, preparando os futuros diplomatas para atuar em um cenário internacional complexo e em constante transformação. “O Instituto Rio Branco contribuiu de forma decisiva para o profissionalismo do serviço exterior brasileiro e foi fundamental para a inserção internacional do país”, pontuou Lula, reforçando o compromisso do governo com a excelência e a autonomia da diplomacia nacional.

Um chamado à responsabilidade e à ação coletiva

A solenidade desta terça-feira foi, assim, mais do que uma celebração protocolar: transformou-se em um espaço de reflexão sobre o papel da diplomacia brasileira em um mundo atravessado por múltiplas crises e tensões. A mensagem do presidente Lula, transmitida por Geraldo Alckmin, constituiu um chamado à responsabilidade e à ação coletiva, sinalizando que o Brasil pretende assumir uma posição de protagonismo na defesa de uma ordem internacional mais justa, pacífica e sustentável.

Ao mesmo tempo, reforçou-se o entendimento de que o trabalho diplomático é, antes de tudo, um exercício permanente de construção de pontes, diálogo e promoção da diversidade, valores que, segundo Lula, devem nortear a atuação dos novos e antigos diplomatas brasileiros.

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