Sobretaxa de 50% anunciada pelos Estados Unidos ameaça inviabilizar embarques de carne bovina e subprodutos, podendo gerar perdas de até US$ 1,3 bilhão apenas no segundo semestre de 2025 e US$ 3 bilhões anuais a partir de 2026
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A cadeia pecuária brasileira está prestes a enfrentar uma das mais severas barreiras comerciais dos últimos anos, caso se confirme a aplicação da tarifa de 50% anunciada pelos Estados Unidos para importações de carne bovina e seus derivados a partir de agosto de 2025. A medida, considerada protecionista, pode comprometer severamente o desempenho da balança comercial do setor.
Segundo estimativa da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), caso o novo tributo entre em vigor, o Brasil poderá deixar de exportar cerca de US$ 1,3 bilhão apenas nos últimos seis meses de 2025. Para os anos seguintes, as perdas estimadas giram em torno de US$ 3 bilhões por ano, caso o ritmo atual das exportações seja mantido.
Os cálculos foram baseados nos resultados já obtidos no primeiro semestre deste ano, quando o Brasil exportou US$ 1,287 bilhão em carne bovina e subprodutos apenas para os Estados Unidos. O volume embarcado entre janeiro e junho, que chegou a quase 150 mil toneladas de cortes congelados desossados, representa mais que o dobro registrado no mesmo período de 2024.
Para além da carne, a tarifa impacta diretamente outros itens da cadeia bovina, como o sebo, carne enlatada, preparações alimentícias, rabos, tripas e cortes salgados ou defumados. De acordo com a Abrafrigo, esses produtos formam um portfólio robusto que tem os Estados Unidos como um dos principais — e em alguns casos, o único — destino.
O presidente da Abrafrigo, Paulo Mustefaga, alertou que o impacto será generalizado, atingindo todos os segmentos exportadores. No caso do sebo bovino, por exemplo, as exportações brasileiras são quase inteiramente absorvidas pelos norte-americanos, que compraram mais de 230 mil toneladas no primeiro semestre. A nova tarifa elevaria o imposto de US$ 151 para US$ 583 por tonelada — uma alta de 286%.
No caso da carne desossada congelada, o Brasil opera dentro de uma cota de 65,8 mil toneladas. No entanto, nos seis primeiros meses de 2025, já foram embarcadas 2,5 vezes esse volume, o que revela que a maior parte das vendas já ocorre com tarifa extra-cota, hoje fixada em US$ 1,78 mil por tonelada. Com o aumento, o tributo subiria para US$ 3,75 mil, representando 76% do valor total da carga. Essa elevação tornaria a exportação economicamente inviável.
Ainda segundo Mustefaga, os reflexos se espalharão por toda a cadeia. “A carne industrializada e o sebo bovino são muito representativos. A carne enlatada tem poucos mercados alternativos e os EUA são um destino estratégico. Eles pagam mais de US$ 10 mil por tonelada, cerca de 40% a mais que outros compradores internacionais”, disse.
A entidade calcula que, com os novos encargos, a competitividade do Brasil no mercado americano cairia drasticamente. A expectativa de receitas para o segundo semestre deixaria de ser concretizada, e, com a continuidade das tarifas, o impacto de longo prazo pode afetar inclusive mercados vizinhos influenciados pelos Estados Unidos, como México e Canadá.
Outro aspecto preocupante é a reação dos importadores americanos, que já começaram a solicitar a suspensão da produção. Atualmente, quase 60 frigoríficos brasileiros são habilitados para exportar carne e derivados bovinos para os EUA.
No acumulado deste ano, os Estados Unidos representam cerca de 15% da receita brasileira com exportações de carnes desossadas congeladas, resfriadas ou enlatadas. No segmento do sebo, esse percentual ultrapassa 99%.
O tema foi levado ao governo federal em reunião recente com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A expectativa do setor é de que o governo consiga articular, junto às autoridades americanas, uma saída diplomática que evite a implementação da tarifa ou mitigue seus efeitos.
Enquanto isso, o clima entre os frigoríficos e exportadores é de apreensão e cautela. A perspectiva de perdas bilionárias reacende o debate sobre a necessidade de diversificação de mercados, acordos comerciais mais sólidos e proteção à indústria nacional frente a medidas unilaterais de grandes parceiros econômicos.
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