Campo Grande (MS) – O brutal assassinato de Vanessa Eugênio Medeiros, de 25 anos, e de sua filha Sophie Eugênia Borges, de apenas 10 meses, segue provocando comoção e revolta. O caso, que chocou a capital sul-mato-grossense no final de maio, ganhou novos desdobramentos com o pedido da acusação para que a Justiça autorize a perícia no celular e computador que pertenciam à jovem mãe. Os equipamentos estavam com o próprio autor do crime, João Augusto Borges, preso poucas horas depois de tentar registrar um falso desaparecimento das vítimas.
Na petição entregue ao juiz Aluizio Pereira dos Santos, o advogado Lucas Brandolli, assistente de acusação, argumenta que os aparelhos podem conter mensagens, fotos e outros registros importantes para reconstrução da dinâmica do crime. A solicitação partiu após revelações sobre uma conversa entre João e Wesla Kênia Lima Eugênia, irmã de Vanessa, ocorrida no mesmo dia em que os corpos foram descobertos carbonizados na mata da região do Indubrasil.
A troca de mensagens aconteceu às 9h47 do dia 27 de maio, momentos após o criminoso ter matado as duas vítimas, ateado fogo nos corpos e ido à delegacia registrar um boletim de ocorrência alegando desaparecimento. Na conversa, Wesla pediu fotos da irmã e da sobrinha para ajudar nas buscas. João respondeu que iria procurar imagens no celular de Vanessa e no computador da residência, demonstrando que ainda detinha posse dos equipamentos.
No entanto, até o momento, os aparelhos não foram localizados. Vistoria realizada na casa onde o casal morava com a filha não teve sucesso. Apesar da autorização judicial para apreensão e perícia dos dispositivos, a defesa do réu, representada pelos advogados Jonatas Giovanne de Paula dos Reis e Maryane dos Santos Cruz, informou ter ciência da decisão, mas invocou o princípio constitucional “nemo tenetur se detegere” que garante ao acusado o direito de não produzir provas contra si mesmo.
A negativa da defesa acendeu novo alerta na acusação, que agora pretende solicitar a instauração de inquérito policial para apurar possível fraude processual e apropriação indébita dos objetos pertencentes à vítima. Segundo Brandolli, a recusa em devolver os aparelhos pode representar tentativa de ocultar provas importantes, o que agravaria ainda mais a situação de João.
Crime bárbaro e meticulosamente executado
Vanessa e Sophie foram assassinadas por João durante o horário de almoço dele, por volta das 16h da segunda-feira, 27 de maio. De acordo com o depoimento prestado à Polícia Civil, o autor aplicou um golpe conhecido como “mata-leão” na companheira e, em seguida, esganou a bebê, que estava deitada na cama do casal. Os corpos foram arrastados para o banheiro e João voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido.
Mais tarde, ao retornar para casa, o homem colocou os corpos no porta-malas do carro, cuidadosamente os posicionando como se estivessem abraçados. Dirigiu até a mata do Indubrasil, onde carregou Vanessa por alguns metros e a deitou no chão. Depois, colocou o corpo da bebê sobre o peito da mãe, cobriu ambos com uma coberta e ateou fogo. As vítimas foram encontradas já durante a madrugada por um vigilante, que acionou a Polícia Militar.
A frieza do assassino se evidenciou quando, já na manhã seguinte, João foi até a 6ª Delegacia registrar o desaparecimento das vítimas. Ao mesmo tempo, mantinha contato com a família da companheira, fingindo preocupação, enquanto já sabia exatamente o que havia feito.

Acusação firme e denúncia por feminicídio
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio dos promotores Livia Carla Guadanhim Bariani e José Arturo Iunes Bobadilla Garcia, ofereceu denúncia contra João por duplo feminicídio qualificado, destruição de cadáveres e motivação torpe. A promotoria sustenta que os assassinatos foram cometidos por razões da condição do sexo feminino, com especial crueldade, dificultando qualquer chance de defesa das vítimas.
No caso de Vanessa, o crime é considerado ainda mais grave por ter ocorrido na presença da filha. A jovem foi morta no mesmo cômodo em que cuidava da criança. Já Sophie, além de ser menor de 14 anos, foi morta com extrema violência e impossibilitada de se defender. O ódio que João dizia nutrir pela filha, desde seus dois meses de vida, é apontado como um dos motivos torpes do crime.
Segundo os promotores, João não aceitava a responsabilidade paterna e manifestava rancor em relação à companheira por conta dos conflitos no relacionamento. Essas circunstâncias reforçam o pedido do MPMS para que o réu seja submetido a júri popular. A promotoria também requereu que ele indenize a família das vítimas pelos danos morais irreparáveis causados.
Justiça em curso e clamor popular
O caso segue sendo acompanhado de perto pela opinião pública, que exige celeridade e justiça diante da crueldade dos atos praticados. A tentativa da defesa de barrar a perícia nos aparelhos da vítima gerou revolta entre familiares e internautas, que consideram inaceitável que o autor do crime tente manipular o processo com artifícios jurídicos, após cometer um duplo homicídio com requintes de frieza.
Enquanto a perícia nos aparelhos eletrônicos ainda é incerta, novas diligências devem ser realizadas para localizá-los. A acusação espera que os equipamentos tragam elementos cruciais para comprovar o premeditado comportamento do réu e fortalecer o caso perante o júri.
O avanço da apuração agora depende de decisões judiciais e da atuação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil, que já identificaram inconsistências nos depoimentos e indícios de tentativa de ocultação de provas.
A dor da família de Vanessa e Sophie ainda é recente, e a busca por justiça permanece sendo o único alento possível diante de tamanha tragédia. A sociedade clama por respostas e por punição exemplar para um crime que marcou a história recente de Campo Grande.
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