Mato Grosso do Sul, 14 de junho de 2026
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Pai de Santo é denunciado por queimar mulheres com pólvora em cerimônia espiritual em Campo Grande

Sessão no bairro Nhanhá termina em pânico após líder espiritual obrigar mulheres a ingerirem cachaça, ajoelhar por horas e queimarem as mãos com pólvora; vítimas relatam humilhações e ameaças
Técnico de enfermagem e pai de santo, homem de 40 anos, foi denunciado por duas mulheres por lesão corporal dolosa.
Técnico de enfermagem e pai de santo, homem de 40 anos, foi denunciado por duas mulheres por lesão corporal dolosa.

Uma cerimônia que deveria representar acolhimento espiritual e respeito à fé terminou em cenas de dor, medo e desespero na Vila Nhanhá, em Campo Grande. O que era para ser uma sessão religiosa acabou se revelando um ritual de tortura. Um pai de santo de 40 anos, que também atua como técnico de enfermagem, foi denunciado por duas mulheres por lesão corporal dolosa e ameaças, após submetê-las a práticas violentas e degradantes. As vítimas tiveram as mãos queimadas com pólvora acesa e afirmam que foram humilhadas, coagidas e ameaçadas durante horas, sob o pretexto de estarem participando de um trabalho espiritual.

O episódio ocorreu entre a noite de 16 e a madrugada de 17 de julho, mas só veio à tona quando as mulheres, de 44 e 21 anos, decidiram buscar ajuda na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), no início da tarde de 22 de julho. Segundo o relato prestado à polícia, a sessão teve início por volta das 20h no terreiro situado no bairro Nhanhá, onde estavam sete mulheres. Logo no começo, o pai de santo anunciou que havia incorporado uma entidade espiritual chamada “João Mulambo”.

O comportamento da suposta entidade, porém, fugiu completamente aos princípios religiosos conhecidos pelas vítimas. Conforme descreveram às autoridades, o pai de santo passou a circular com uma garrafa de cachaça, obrigando as presentes a beberem a bebida alcoólica. Segundo as mulheres, essa conduta jamais foi vista por elas em outras casas de religião de matriz africana, e foi interpretada como uma clara tentativa de coação e domínio psicológico.

Por duas horas, todas as mulheres permaneceram em pé, sob ordens da entidade incorporada. Em determinado momento, o líder espiritual exigiu que as duas vítimas ajoelhassem no chão e segurassem uma vela acesa durante todo o restante da sessão, o que lhes causou dores físicas intensas. Quando uma delas reclamou de dor de cabeça e tentou sair do ambiente, foi impedida. O pai de santo ordenou que ela se sentasse e aguardasse para ser “punida” ao fim do ritual.

O momento mais grave do ritual veio em seguida, segundo as denunciantes. O pai de santo mandou que as mulheres formassem uma fila e colocassem as mãos sobre pólvora. Logo depois, acendeu um charuto e o aproximou da substância, provocando explosões repentinas que resultaram em queimaduras nas mãos das mulheres. As vítimas relataram que gritaram de dor, mas foram ignoradas. O homem ainda tentou “higienizar” os ferimentos com uísque, atitude que só aumentou o sofrimento.

Uma das vítimas, em estado de choque, conseguiu se refugiar no banheiro, onde lavou rapidamente as mãos queimadas, buscou sua filha que a acompanhava e deixou o terreiro em prantos. Ela contou que frequentava o local há cerca de oito meses e nunca tinha presenciado algo semelhante. Após o ocorrido, consultou outros religiosos de matriz africana e foi informada de que os atos praticados não pertencem a qualquer ritual reconhecido. “Aquilo foi tortura”, afirmou à polícia.

A outra vítima também sofreu queimaduras extensas e declarou à Deam que se sentiu totalmente dominada, temendo por sua integridade física e emocional. Ambas classificaram o episódio como um ritual de violência e humilhação, disfarçado de cerimônia religiosa.

O caso foi registrado como lesão corporal dolosa e ameaça e está sob investigação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. A polícia trabalha para identificar todas as vítimas e testemunhas presentes na noite do fato. O Ministério Público e a Defensoria Pública também foram comunicados e poderão acompanhar os desdobramentos do caso.

A denúncia repercutiu entre lideranças religiosas, que repudiaram publicamente o ocorrido. Casas tradicionais de Umbanda e Candomblé emitiram notas de solidariedade às vítimas, reforçando que práticas abusivas não condizem com os fundamentos das religiões de matriz africana, que têm como pilares o respeito, a cura espiritual e a dignidade dos fiéis.

A violência cometida sob o disfarce de fé lança luz sobre a necessidade urgente de fiscalização e regulamentação de espaços religiosos, para evitar que abusos se escondam atrás da devoção. O caso também desperta o debate sobre a vulnerabilidade de mulheres em ambientes religiosos desprotegidos e a importância de canais seguros para denúncias.

As vítimas agora buscam apoio psicológico e orientação jurídica para lidar com as marcas físicas e emocionais deixadas pelo episódio. Elas pedem justiça e alertam outras mulheres para que não se calem diante de líderes autoritários que usam o manto da espiritualidade para cometer abusos.

O inquérito policial segue em andamento. A expectativa é de que o responsável seja intimado a depor nos próximos dias. Caso as acusações sejam confirmadas, ele poderá responder por lesão corporal qualificada, ameaça e até por crime de tortura, dada a gravidade dos relatos e as consequências físicas relatadas pelas vítimas.

A fé não pode ser usada como instrumento de violência. A justiça, agora, tem o dever de dar uma resposta firme e exemplar para proteger outras mulheres de práticas criminosas travestidas de rituais sagrados.

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