O dólar encerrou a sessão desta quarta-feira em queda de 0,49%, cotado a R$ 5,4728 no mercado à vista, após ter registrado na véspera forte valorização que levou a moeda norte-americana a R$ 5,50, maior patamar em duas semanas. A oscilação foi marcada por ajustes técnicos e pela repercussão da decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que reacendeu debates sobre os limites da legislação estrangeira em território nacional e seus reflexos sobre as negociações comerciais com os Estados Unidos.
No início do pregão, a divisa norte-americana chegou a alcançar R$ 5,5043, mas perdeu força no decorrer do dia, chegando à mínima de R$ 5,4627. Já o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento recuou 0,53%, sendo negociado a R$ 5,486 na B3 às 17h15. No mercado de câmbio comercial, a moeda foi negociada a R$ 5,472 tanto na compra quanto na venda, enquanto no câmbio turismo os preços oscilaram entre R$ 5,515 na compra e R$ 5,695 na venda.
A instabilidade cambial tem origem na forte aversão ao risco registrada no pregão de terça-feira, quando investidores reagiram à decisão de Dino de que cidadãos brasileiros não podem ser atingidos em território nacional por leis estrangeiras referentes a atos cometidos no Brasil. Embora não estivesse diretamente vinculada à disputa tarifária com os Estados Unidos, a medida foi interpretada como obstáculo às negociações do governo brasileiro para tentar reduzir a sobretaxa de 50% aplicada sobre determinados produtos nacionais.
O mercado avaliou ainda que a decisão pode abrir margem para impasses entre instituições financeiras brasileiras e autoridades norte-americanas, caso haja descumprimento de sanções impostas por Washington. Essa percepção elevou os temores de retaliações comerciais e de impacto sobre o fluxo de capitais.
Em meio à tensão, declarações do ministro Alexandre de Moraes, também do STF, trouxeram novos elementos ao debate. Em entrevista, Moraes afirmou que tribunais brasileiros podem punir bancos nacionais que bloquearem ou confiscarem ativos domésticos em cumprimento a ordens externas. A fala reforçou a interpretação de que o Judiciário brasileiro busca blindar suas instituições de interferências diretas de legislações estrangeiras.
Além dos fatores internos, o mercado de câmbio foi influenciado pelo cenário internacional. As moedas de países emergentes tiveram leve valorização impulsionada pela alta nos preços do petróleo, item relevante na pauta de exportações de diversas economias. Houve também expectativa em torno do discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, previsto para sexta-feira, durante o simpósio de Jackson Hole, nos Estados Unidos. O evento é considerado determinante para sinalizar a trajetória futura da política monetária norte-americana.
O índice do dólar, que mede o desempenho da moeda frente a uma cesta de seis divisas internacionais, registrou queda de 0,05%, sendo cotado a 98,272. Esse movimento contribuiu para aliviar parte da pressão sobre o real, ainda que de forma moderada.
No campo doméstico, o Banco Central interveio no câmbio pela manhã com a venda de 35 mil contratos de swap tradicional para a rolagem de vencimentos de 1º de setembro de 2025, em tentativa de garantir liquidez e reduzir a volatilidade. Mais tarde, a autarquia informou que o fluxo cambial do Brasil registrou saldo positivo de US$ 149 milhões em agosto até o dia 15, dado que também ajudou a amenizar o impacto da aversão ao risco externo.
Especialistas do mercado avaliam que, apesar da correção observada nesta quarta-feira, a tendência de curto prazo ainda é de instabilidade. Vitor Oliveira, sócio da One Investimentos, destacou que “o mercado se antecipa ao futuro e uma única decisão jurídica pode desencadear movimentos abruptos. Hoje houve algum alívio, mas ainda sem retorno ao patamar anterior”.
O cenário, portanto, mantém o real sob influência de múltiplos fatores: as disputas comerciais com os Estados Unidos, as decisões judiciais do STF com reflexos internacionais, o andamento da política monetária global e as expectativas em torno da geopolítica, especialmente a guerra na Ucrânia. Enquanto os agentes econômicos buscam reposicionar suas estratégias, a volatilidade segue como elemento central no mercado de câmbio brasileiro.
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