Mato Grosso do Sul, 5 de julho de 2026
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Fome em Gaza expõe impasse político e humanitário entre ONU e Israel

Relatório internacional aponta meio milhão de pessoas em situação catastrófica, enquanto Tel Aviv nega crise alimentar e acusações se tornam centro do debate global
Menina chora enquanto aguarda que panela seja preenchida com alimento em Gaza — Foto: Eyad BABA / AFP
Menina chora enquanto aguarda que panela seja preenchida com alimento em Gaza — Foto: Eyad BABA / AFP

A Organização das Nações Unidas declarou oficialmente, nesta sexta-feira, 22 de agosto, a existência de um cenário de fome na Faixa de Gaza, o primeiro registrado no Oriente Médio sob a classificação internacional de segurança alimentar. O anúncio foi feito após meses de alertas de especialistas e confirma que cerca de 500 mil pessoas estão em condições consideradas “catastróficas” pela Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC), agência vinculada à ONU com sede em Roma.

O relatório internacional aponta que a fome poderia ter sido evitada se não houvesse a obstrução sistemática de Israel à entrada de alimentos, medicamentos e combustíveis. A acusação foi feita pelo diretor do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), Tom Fletcher, em entrevista coletiva em Genebra. Segundo ele, “esta é uma fome que poderia ter sido evitada, mas alimentos continuam parados nas fronteiras devido a barreiras impostas por Israel. Esta fome atormentará a todos”.

A reação do governo israelense foi imediata. O Ministério das Relações Exteriores classificou o relatório como parcial e “baseado em mentiras do Hamas”. Para as autoridades de Tel Aviv, não há fome em Gaza, mas sim manipulação política das informações. Israel insiste que o grupo Hamas desvia a ajuda humanitária e acusa as organizações internacionais de não garantirem uma distribuição segura dos insumos.

A ONU, por sua vez, sustenta que os critérios técnicos que definem a classificação de fome foram todos atendidos. Pela metodologia da IPC, a situação extrema se caracteriza quando ao menos 20% das famílias não têm acesso a alimentos básicos, 30% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição aguda e duas em cada dez mil pessoas morrem diariamente em decorrência da falta de comida. Em Gaza, todos esses indicadores foram confirmados.

O número de pessoas afetadas pode aumentar. Até o dia 15 de agosto, a ONU contabilizou mais de meio milhão de palestinos em risco imediato de morte por fome, mas projeta que até o final de setembro esse número pode chegar a 641 mil. A crise alimentar atinge, sobretudo, a Cidade de Gaza, e deve se estender para as regiões de Deir al Balah e Khan Yunis.

A situação humanitária se agravou desde março, quando Israel bloqueou completamente a entrada de ajuda internacional. No final de maio, o governo israelense autorizou apenas carregamentos limitados, considerados insuficientes pelas organizações que atuam no território. O resultado foi a falta de alimentos, medicamentos, água potável e combustíveis, itens essenciais para hospitais e centros de abrigo.

A escalada do conflito, iniciada após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, também ampliou o quadro de sofrimento. Na ocasião, 1.219 pessoas morreram em Israel, a maioria civis, e 251 foram sequestradas pelo grupo islâmico, segundo dados oficiais israelenses. Desde então, os bombardeios e operações militares em Gaza deixaram mais de 62 mil palestinos mortos, a maior parte também civis, de acordo com o Ministério da Saúde local, números considerados plausíveis pela ONU.

Atualmente, 49 reféns permanecem em Gaza, dos quais 27 já teriam morrido, segundo o Exército de Israel. As negociações para sua libertação continuam travadas, enquanto a pressão internacional aumenta diante do colapso humanitário.

O impasse expõe não apenas a dimensão da tragédia humanitária, mas também a disputa política em torno da narrativa da crise. Para a ONU e organizações civis, a fome em Gaza é consequência direta das barreiras impostas por Israel. Para o governo israelense, trata-se de uma acusação instrumentalizada pelo Hamas e utilizada como ferramenta de pressão internacional.

Independentemente da disputa diplomática, especialistas alertam que a tragédia já é irreversível em termos de saúde pública. Crianças desnutridas, famílias inteiras sem acesso à alimentação mínima e o colapso do sistema hospitalar compõem um quadro que deve marcar a história recente da região como um dos maiores desastres humanitários do século.

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