O crédito rural, considerado uma das engrenagens centrais para o funcionamento do agronegócio brasileiro, apresentou forte retração no início do Plano Safra 2025/26. De acordo com dados do Banco Central analisados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, os desembolsos entre julho e agosto somaram R$ 93,6 bilhões, valor 23% inferior ao registrado no mesmo período da safra anterior, quando haviam sido liberados R$ 115,8 bilhões.
A queda atinge de forma mais intensa as operações de investimento, que recuaram 54% e totalizaram apenas R$ 8 bilhões. Esse encolhimento reflete principalmente o comportamento dos grandes produtores, que reduziram suas contratações em 63%, e dos médios, com retração de 61%. O número de contratos assinados também diminuiu 33%, revelando uma desaceleração estrutural nas decisões de modernização e expansão do setor.
Impactos sobre diferentes modalidades
A retração foi observada em quase todas as frentes de financiamento. As linhas de custeio, voltadas à manutenção da produção, caíram 22% e chegaram a R$ 41,6 bilhões. No crédito para comercialização, destinado a auxiliar o escoamento das safras, a redução foi de 37%, totalizando R$ 4,3 bilhões. Apenas os empréstimos para industrialização registraram alta, de 10%, atingindo R$ 6,3 bilhões.
Entre os programas mais prejudicados está o Moderfrota, tradicional mecanismo de incentivo à compra de máquinas e equipamentos agrícolas. O desembolso caiu 77%, passando de R$ 2 bilhões em 2024 para apenas R$ 469 milhões em 2025, apesar de haver previsão orçamentária de R$ 12,5 bilhões para a linha nesta temporada.
Quando consideradas apenas as linhas tradicionais do Plano Safra, sem incluir as Cédulas de Produto Rural (CPRs), o desempenho foi ainda mais fraco. Foram R$ 60,4 bilhões em contratações, queda de 28% em relação aos R$ 83,8 bilhões registrados no início da safra 2024/25.
Causas da retração e desafios do setor
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, reconheceu que o desempenho inicial do Plano Safra 2025/26 está abaixo do esperado. Em entrevista ao programa “Bom dia, ministro”, ele atribuiu a retração a fatores como a alta inadimplência entre os produtores e o crescimento expressivo do número de pedidos de recuperação judicial no campo.
Segundo Fávaro, a combinação de preços instáveis das commodities agrícolas, adversidades climáticas e dificuldades financeiras comprometeu a confiança do sistema bancário. “O banco só quer emprestar com alienação fiduciária, dificultou muito. As instituições tiveram que lançar prejuízo pela inadimplência, diminuindo a capacidade de alavancagem para tomar recursos e emprestar para produtores”, afirmou.
Para tentar contornar o quadro, o governo aposta na Medida Provisória 1.314/2025, que institui novas linhas de renegociação de dívidas rurais. O ministro destacou que a medida poderá oferecer até 10 anos para repactuação dos débitos, permitindo aos produtores maior fôlego para regularizar pendências e retomar o acesso ao crédito.
Expectativas e projeções
Apesar do cenário de retração, o Ministério da Agricultura apontou que outros R$ 22,3 bilhões em financiamentos já foram contratados entre julho e agosto, mas ainda não liberados pelas instituições financeiras. Se esses valores forem efetivamente desembolsados nos próximos meses, o montante inicial da safra poderá alcançar R$ 115,9 bilhões, patamar semelhante ao consolidado no mesmo período da temporada anterior.
Ainda assim, analistas avaliam que o desafio estrutural permanece. A queda de 35% nas contratações entre grandes produtores e de cerca de 18% entre médios e pequenos indica que a dificuldade de acesso ao crédito atinge todos os segmentos, comprometendo desde investimentos em tecnologia e mecanização até o custeio básico das propriedades.
Especialistas também alertam que a continuidade da retração pode gerar efeitos em cadeia sobre a produtividade, a competitividade internacional e até mesmo a oferta de alimentos no mercado interno. Nesse sentido, a efetividade da renegociação de dívidas e a capacidade de mobilização de recursos pelos bancos serão fatores decisivos para a recuperação do crédito rural nos próximos meses.
Perspectiva para o agronegócio
A evolução do crédito rural no ciclo 2025/26 é observada com atenção por diferentes setores da economia. O agronegócio representa parcela expressiva do PIB nacional e depende diretamente da oferta de financiamento para garantir desde a compra de insumos até investimentos em inovação tecnológica.
Embora a possibilidade de recuperação parcial exista, a tendência atual reforça a percepção de que o setor atravessa um período de maior cautela e vulnerabilidade financeira. O governo busca oferecer garantias institucionais, mas a confiança do mercado ainda depende de fatores externos, como estabilidade dos preços internacionais, redução da inadimplência e melhora no cenário macroeconômico.
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