O setor de biodiesel no Brasil vive um momento de forte expansão e consolidação como protagonista da matriz energética nacional. Com investimentos estimados em R$ 5,9 bilhões para os próximos 12 meses, a indústria de esmagamento de soja projeta um salto expressivo em sua capacidade instalada, que poderá alcançar 82,6 milhões de toneladas ao ano. Esse movimento é liderado pelas maiores indústrias do setor e reforçado pela aprovação de políticas públicas que estimulam a substituição gradual de combustíveis fósseis por fontes renováveis.
De acordo com levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), desde o início de 2025 já foram desembolsados R$ 4,5 bilhões, ampliando a capacidade de processamento diário em 15 mil toneladas de soja. Caso os aportes previstos se confirmem, o país terá um acréscimo de 18,8 mil toneladas por dia, consolidando-se como potência mundial no processamento e exportação de derivados da oleaginosa.
A ampliação será mais intensa do que no último ciclo, quando o crescimento foi de 5,7%, atingindo 76,4 milhões de toneladas anuais. Com o novo ritmo, o Brasil passará a contar com 250,4 mil toneladas de capacidade diária de esmagamento, evidenciando um avanço de 8,1% sobre o atual cenário.
O diretor de economia e assuntos regulatórios da Abiove, Daniel Furlan Amaral, ressalta que a expansão está distribuída entre novos projetos e ampliações de plantas já existentes. Segundo ele, há forte concentração no Centro-Oeste, mas a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) ganha cada vez mais protagonismo, impulsionada não apenas pela produção agrícola, mas também pelo avanço da industrialização local.
Crescimento regional e impacto econômico
O levantamento da Abiove revela números expressivos em algumas regiões do país. No Maranhão, a capacidade de processamento de soja cresceu 33,3% em 12 meses, enquanto no Tocantins o avanço foi de 30,1% e na Bahia de 19,6%, todos bem acima da média nacional de 7,3%. Em Mato Grosso, estado líder na produção de soja, o crescimento foi de 21%.
Atualmente, o Brasil conta com 75 empresas atuando no processamento da oleaginosa, frente a 67 no ano passado. O número de plantas industriais passou de 113 para 127, enquanto as unidades paralisadas caíram de 19 para 17, mostrando dinamismo e retomada de capacidade produtiva.
Além da geração de empregos diretos e indiretos, os investimentos também movimentam cadeias logísticas, transporte, armazenagem e serviços. Estima-se que somente os novos projetos previstos até 2027 gerem milhares de vagas permanentes, além de empregos temporários durante a fase de construção.
Fatores que impulsionam a expansão
A principal força que sustenta o crescimento do setor é a demanda aquecida por óleo de soja, utilizado em larga escala na produção de biocombustíveis. Em agosto, a mistura obrigatória de biodiesel no diesel fóssil foi ampliada de 14% para 15%. A meta estabelecida pelo programa Combustível do Futuro prevê que a mistura suba para 16% em 2026.
Esse avanço, segundo estimativas da SCA Brasil, deve elevar a produção nacional de biodiesel para 10,3 bilhões de litros até agosto de 2026. O óleo de soja continuará como principal matéria-prima, consolidando a oleaginosa como pilar estratégico da transição energética brasileira.
Além do mercado interno, o farelo de soja vem ganhando espaço no comércio internacional, especialmente em países da Ásia, do Oriente Médio e do norte da África. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta crescimento de 5% nas exportações na safra 2025/26, alcançando 23,6 milhões de toneladas. No mercado interno, a demanda deve aumentar 2,6%, chegando a 20 milhões de toneladas.
Novos empreendimentos em andamento
Entre os principais investimentos anunciados estão a construção e expansão de plantas industriais em diferentes regiões:
- A Cooperativa Comigo investe R$ 1,3 bilhão em Palmeiras de Goiás (GO), dobrando a capacidade de esmagamento para 11 mil toneladas diárias até 2027.
- O Grupo Potencial aplica R$ 1,7 bilhão em Lapa (PR), na região metropolitana de Curitiba, para erguer uma esmagadora com capacidade de 3,5 mil toneladas por dia, prevista para inaugurar em 2026.
- A Olfar avança com a construção de uma planta em Porangatu (GO), com aporte de R$ 702 milhões e capacidade de 3 mil toneladas diárias, cuja conclusão está prevista para 2026.
- A Agrodanieli investe R$ 250 milhões em Tapejara (RS), com foco em processamento de 1,6 mil toneladas por dia e capacidade de armazenagem para 2 milhões de sacas.
- A Vaccaro, que já inaugurou uma esmagadora em Erechim (RS) em março, amplia suas estruturas industriais para atender à demanda crescente.
Desafios e perspectivas
Apesar do otimismo, o setor enfrenta desafios relacionados à logística de escoamento da produção, que ainda depende fortemente do transporte rodoviário, e à necessidade de modernização dos portos para atender à crescente demanda internacional. Além disso, o aumento da produção exige atenção a questões ambientais e de sustentabilidade, que estão no centro dos debates globais sobre commodities agrícolas.
A perspectiva, no entanto, é positiva. A combinação de demanda interna aquecida, exportações crescentes e políticas públicas favoráveis coloca o Brasil em posição de liderança no fornecimento de insumos para energia renovável, reforçando a importância estratégica da soja para a economia nacional.
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