Mato Grosso do Sul, 28 de junho de 2026
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Lula condena genocídio em Gaza e defende coexistência de Israel e Palestina

Presidente brasileiro denuncia massacre de civis, cobra ação da ONU e reforça apoio à criação de um Estado palestino reconhecido internacionalmente
Lula durante Assembleia-Geral da ONU - Imagem -  Ricardo Stuckert
Lula durante Assembleia-Geral da ONU - Imagem - Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um dos discursos mais contundentes da diplomacia brasileira nos últimos anos ao condenar, nesta segunda-feira (22), o que classificou como genocídio em Gaza. Em pronunciamento durante a Conferência Internacional para a Solução Pacífica da Questão Palestina e a Implementação da Solução de Dois Estados, realizada em Nova York, Lula afirmou que tanto Israel quanto a Palestina têm o direito de existir, mas ressaltou que o massacre de civis palestinos não pode ser tolerado pela comunidade internacional.

Lula iniciou sua fala destacando a gravidade da crise humanitária. Segundo ele, não se trata apenas da morte de milhares de palestinos, mas da tentativa de destruir a própria possibilidade de construção de uma nação. “O que está acontecendo em Gaza não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação”, afirmou. O presidente citou a Comissão de Inquérito sobre os Territórios Palestinos Ocupados e reforçou que a palavra mais adequada para definir o cenário atual é genocídio.

Ao condenar os ataques indiscriminados de Israel, Lula também reafirmou a posição brasileira contra o terrorismo praticado pelo Hamas. Para ele, os dois lados cometem violações, mas a resposta militar israelense rompe qualquer limite aceitável do direito de defesa. “Os atos terroristas cometidos pelo Hamas são inaceitáveis. O Brasil foi enfático ao condená-los. Mas o direito de defesa não autoriza a matança indiscriminada de civis”, declarou.

A tragédia humanitária em Gaza

O presidente mencionou números alarmantes. Mais de 50 mil crianças teriam sido mortas ou mutiladas nos últimos meses. Cerca de 90% dos lares palestinos foram destruídos, deixando milhões de pessoas desabrigadas. Além da devastação física, Lula destacou que a fome vem sendo utilizada como arma de guerra, atingindo meio milhão de palestinos, número superior à população de cidades como Miami ou Tel Aviv.

“Não há justificativa para alvejar pessoas famintas em busca de ajuda. A fome não aflige apenas o corpo, ela estilhaça a alma”, afirmou em tom categórico.

Defesa da solução de dois Estados

Lula reforçou o compromisso do Brasil com a criação de um Estado palestino viável, baseado na solução de dois Estados, proposta há 78 anos pela ONU, quando o brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a sessão que aprovou o Plano de Partilha. “Naquela ocasião nasceu a perspectiva de dois Estados. Mas só um se materializou. Trabalhar para efetivar o Estado palestino é corrigir uma assimetria que compromete o diálogo e obstrui a paz”, disse.

O líder brasileiro lembrou que a Palestina já foi reconhecida pela maioria dos 193 países membros das Nações Unidas, incluindo o Brasil desde 2010. Para ele, o reconhecimento internacional é um passo fundamental para restaurar o equilíbrio no processo de negociação.

Críticas à ONU e ao Conselho de Segurança

O discurso de Lula também trouxe duras críticas ao funcionamento do sistema multilateral. Ele apontou que o conflito entre Israel e Palestina simboliza os limites do multilateralismo atual, paralisado pela “tirania do veto” no Conselho de Segurança da ONU. “Esse bloqueio impede a admissão plena de um Estado cuja criação deriva da própria Assembleia Geral e sabota a razão de ser da ONU, que nasceu para evitar atrocidades como as que estamos testemunhando”, ressaltou.

Diante da inação do Conselho, o presidente defendeu que a Assembleia Geral assuma responsabilidades mais firmes. Entre as medidas propostas, está a criação de um órgão inspirado no Comitê Especial contra o Apartheid, que desempenhou papel decisivo no fim do regime de segregação racial da África do Sul.

Compromissos do Brasil

Lula anunciou que o Brasil irá reforçar mecanismos para coibir violações ligadas à ocupação da Cisjordânia. O país pretende ampliar o controle sobre importações provenientes de assentamentos ilegais e manter suspensas exportações de material de defesa que possam ser utilizados em crimes de guerra e genocídio.

Além disso, destacou que o Brasil aderiu ao processo aberto pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, que acusa Israel de crimes contra a humanidade. “Assegurar o direito de autodeterminação da Palestina é um ato de justiça e um passo essencial para restituir a força do multilateralismo e recobrar nosso sentido coletivo de humanidade”, concluiu.

A repercussão internacional

O discurso de Lula foi acompanhado por chefes de Estado, incluindo Emmanuel Macron, presidente da França, e Mohammed bin Salman, primeiro-ministro da Arábia Saudita, que participaram do encontro em Nova York. A fala do brasileiro foi destacada pela clareza ao condenar tanto o terrorismo do Hamas quanto a violência desproporcional de Israel, apontando caminhos diplomáticos concretos para a paz.

Analistas internacionais avaliam que a posição do Brasil reafirma seu papel histórico de mediador em crises globais e fortalece sua imagem como defensor da solução pacífica dos conflitos. Ao mesmo tempo, o tom duro contra a política israelense deve ampliar o debate dentro da ONU sobre a urgência de ações concretas diante da tragédia em Gaza.

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