Mato Grosso do Sul, 26 de junho de 2026
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Justiça eleitoral marca audiência para prefeito de Ivinhema acusado de ocultar bens em nome de réu por narcotráfico

Juliano Ferro terá de explicar uso de residência e veículos de luxo vinculados a investigado em operação da Polícia Federal; audiência está marcada para 9 de outubro e pode definir futuro político e judicial do prefeito
Prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (Reprodução, Instagram)
Prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (Reprodução, Instagram)

A Justiça Eleitoral do Mato Grosso do Sul determinou para o próximo dia 9 de outubro uma audiência de instrução que pode ser decisiva para o futuro do prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro Barros Donato, de 42 anos. Conhecido pelo apelido de “mais louco do Brasil” e com forte presença nas redes sociais, o gestor municipal é réu em processo que apura supostos crimes de falsidade ideológica e ocultação de patrimônio. O caso ganhou relevância nacional após vir à tona que Ferro utilizava uma residência e circulava em caminhonetes de luxo registradas em nome de um investigado por tráfico de drogas, alvo de operação da Polícia Federal.

O processo, que tramita sob o número 0600530-89.2024.6.12.0027, coloca em xeque não apenas a lisura do patrimônio declarado pelo prefeito à Justiça Eleitoral, mas também suas conexões políticas e sociais em um município de menos de 30 mil habitantes, onde sua figura de gestor e influencer digital se mistura à de um personagem polêmico, cercado de controvérsias.

Segundo relatórios da Polícia Federal, Juliano Ferro chegou a tentar intimidar policiais que atuavam disfarçados em Ivinhema durante a Operação Lepidosiren, deflagrada em agosto de 2024, e que resultou na prisão de Luiz Carlos Honório, de 66 anos, apontado como verdadeiro proprietário da residência e de uma caminhonete Silverado utilizadas pelo prefeito. Embora Honório tenha sido solto posteriormente mediante liminar, permanece monitorado por tornozeleira eletrônica.

A investigação identificou que parte dos bens em uso por Juliano Ferro não constava em sua declaração apresentada no registro de candidatura para a reeleição, em 2024. Além da residência avaliada em cerca de R$ 750 mil, o prefeito teria omitido a posse de duas caminhonetes de alto valor, uma Silverado importada e uma Dodge Ram, que juntas ultrapassariam a marca de R$ 1 milhão. O Ministério Público sustenta que tal omissão configura ocultação de patrimônio, indício suficiente para caracterizar crime eleitoral.

Nos depoimentos prestados à PF, Juliano alegou ter comprado os veículos de forma parcelada e “no fiado”, afirmando que ainda deve R$ 400 mil referentes a um dos automóveis. A justificativa, no entanto, não convenceu investigadores, que a interpretaram como indício de manobra para ocultação de bens ou até mesmo possível lavagem de dinheiro.

A imagem do prefeito, já marcada por declarações polêmicas, exibições de autoridade e forte presença digital, tornou-se ainda mais controversa com o avanço das investigações. Com mais de um milhão de seguidores nas redes sociais, Juliano utiliza os perfis para reforçar sua persona de “sincerão” e “destemido”, publicando desde vídeos de dancinhas e interações com apoiadores até mensagens provocativas a adversários políticos. Segundo relatórios, há indícios de que o prefeito teria utilizado servidores públicos locais para realizar consultas em cadastros sigilosos da Sejusp e do Detran-MS, numa espécie de rede de vigilância dentro da cidade.

No entendimento da Justiça Eleitoral, o caso reúne indícios suficientes para seguir em julgamento. O juiz da 27ª Zona Eleitoral de Ivinhema, Rodrigo Barbosa Sanches, rejeitou pedido de absolvição sumária feito pela defesa do prefeito, sob alegação de falta de provas. Em sua decisão, o magistrado destacou que a denúncia descreve de forma detalhada os fatos e circunstâncias que sustentam a acusação, apontando que a ausência de declaração dos bens exige análise aprofundada em audiência.

A audiência de outubro deverá contar não apenas com o depoimento de Juliano Ferro, mas também de testemunhas convocadas pela acusação e pela defesa. O resultado poderá definir se o prefeito avança para julgamento ou se haverá possibilidade de acordo ou absolvição em instâncias superiores.

Enquanto isso, a população de Ivinhema acompanha com atenção os desdobramentos. Para muitos moradores, a imagem de um prefeito que ostenta bens de luxo e se apresenta como figura midiática contrasta com a realidade de um município que ainda enfrenta carências em áreas básicas como saúde, educação e infraestrutura.

No âmbito político, o caso também ganha contornos relevantes. A manutenção do prefeito como réu em processo criminal pode impactar sua carreira e abrir espaço para discussões sobre inelegibilidade futura, além de reforçar o debate nacional sobre a relação entre poder político, redes sociais e práticas que desafiam os limites da legalidade.

O episódio expõe ainda a complexa relação entre figuras públicas e o uso de símbolos de poder, em especial quando sustentados por patrimônios incompatíveis com a renda oficial declarada. A depender do desenrolar da audiência e do processo, Juliano Ferro poderá enfrentar não apenas sanções judiciais, mas também um duro desgaste político e social, com reflexos diretos em sua imagem de gestor e influenciador digital.

O caso segue sob análise judicial, com parte das investigações correndo em segredo de Justiça, sobretudo no que diz respeito às conexões com o tráfico de drogas. Ainda assim, a expectativa é de que os próximos capítulos tragam novos elementos à tona, mantendo o prefeito no centro de um dos episódios mais polêmicos da política sul-mato-grossense recente.

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