Mato Grosso do Sul, 22 de junho de 2026
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Megaoperação no Rio de Janeiro deixa mais de 60 mortos e mais de 100 presos em ofensiva histórica contra o Comando Vermelho

Força-tarefa mobiliza mais de 2.500 agentes nos complexos da Penha e do Alemão em ação considerada a maior já realizada na história do estado
Operação mira integrantes e lideranças do Comando Vermelho - Fotos: Mauro Pimentel/ AFP
Operação mira integrantes e lideranças do Comando Vermelho - Fotos: Mauro Pimentel/ AFP

A manhã desta terça-feira, 28 de outubro, marcou um dos capítulos mais intensos da segurança pública do Rio de Janeiro. Uma megaoperação conjunta das forças policiais estaduais e federais resultou em ao menos 64 mortes, entre elas as de quatro agentes de segurança, e ultrapassou a marca de 100 presos. A ação, batizada de Operação Contenção, tem como alvo direto o Comando Vermelho (CV), facção criminosa que domina parte expressiva das comunidades dos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte da capital.

Segundo o governo do estado, mais de 2.500 homens participaram da ofensiva, que se estendeu por uma área de aproximadamente nove milhões de metros quadrados — o equivalente a duas vezes o bairro de Copacabana. O governador Cláudio Castro classificou a ação como “a maior operação da história do Rio de Janeiro”, destacando que o objetivo é desarticular o núcleo estratégico da facção. “Não se trata de uma operação pontual, mas de uma resposta institucional a uma guerra que já ultrapassou todos os limites. O que enfrentamos é o narcoterrorismo”, declarou Castro em coletiva.

Estrutura da operação e cenário de confronto

A megaoperação envolveu efetivos da Polícia Militar, Polícia Civil e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro. Com apoio de blindados, aeronaves e equipamentos de inteligência, as forças de segurança cercaram áreas dominadas pela facção, realizando incursões simultâneas em diferentes comunidades.

Durante os confrontos, houve intensa troca de tiros em regiões de mata e becos do Complexo do Alemão, onde dois policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e dois da Polícia Civil foram mortos em ação. A operação também resultou na morte de pelo menos 18 criminosos identificados com armamento pesado. Até o final da tarde, 75 fuzis, dezenas de pistolas e granadas haviam sido apreendidos.

As autoridades relataram que muitos dos presos eram foragidos de outros estados, especialmente do Pará, e mantinham conexão direta com o núcleo do Comando Vermelho no Rio. Dentre os detidos está Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como “Belão do Quitungo”, apontado como chefe do tráfico na comunidade do Quitungo, na Penha. Ele é considerado um dos principais articuladores logísticos da facção na região.

Principais alvos e estrutura do Comando Vermelho

O foco central da Operação Contenção é Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, considerado pela inteligência policial como o maior líder do Comando Vermelho no Complexo da Penha. Segundo as investigações, Doca coordenava a distribuição de drogas e armas em várias comunidades da zona norte e também na zona oeste, incluindo Gardênia Azul, César Maia e Juramento.

As investigações conduzidas pelo Gaeco e pelo MPRJ identificaram uma estrutura complexa de comando, com subdivisões especializadas em transporte de armamento, lavagem de dinheiro e controle de rotas de fuga. Por estar localizado próximo a vias expressas e à Linha Amarela, o Complexo da Penha tornou-se um ponto estratégico para o escoamento de drogas e armas de grosso calibre, além de servir como base para a expansão da facção em direção a outras áreas da capital e da Baixada Fluminense.

O Ministério Público denunciou 67 pessoas por associação ao tráfico e outros três por tortura. Entre os denunciados, há criminosos com passagens anteriores por homicídio qualificado, tráfico internacional de drogas, porte ilegal de armas de uso restrito e sequestro.

Grade dos principais presos e os crimes atribuídos

NomeAlcunhaComunidade de AtuaçãoCrimes atribuídosSituação Atual
Edgar Alves de AndradeDocaPenha / Gardênia AzulLiderança do tráfico, associação criminosa, homicídio e lavagem de dinheiroForagido
Thiago do Nascimento MendesBelão do QuitungoQuitungo (Penha)Tráfico de drogas, porte ilegal de armas, associação criminosaPreso
Anderson Ribeiro da SilvaNandinhoJuramentoAssociação para o tráfico e torturaPreso
Júlio César MoreiraJulinho do DendêAlemãoHomicídio qualificado e tráfico internacional de armasMorto em confronto
Marcelo Dias CardosoCelinhoPenhaRoubo, sequestro e tráfico de drogasPreso
Bruno Henrique de SouzaBHVila CruzeiroAssociação criminosa, lavagem de dinheiroPreso
Alexandro Gomes de LimaXandãoPenha CircularPorte de armas e tráficoPreso
Rafael Almeida TorresRafinhaJuramentoExtorsão, tráfico e receptaçãoPreso
Fabiano Costa PereiraFabinho do RoloAlemãoRoubo de cargas e coordenação logísticaMorto em confronto
Carlos Henrique FariasCHPenhaAssociação criminosa e torturaPreso

Transporte paralisado e caos urbano

A ofensiva causou impactos diretos na mobilidade urbana. Após ordens internas do Comando Vermelho para obstruir vias e dificultar a entrada das forças de segurança, mais de 50 ônibus foram incendiados ou utilizados como barricadas em diferentes pontos da cidade. Segundo a empresa Rio Ônibus, ao menos 120 linhas foram interrompidas e dezenas de regiões ficaram sem transporte, entre elas Anchieta, Méier, Serra Grajaú-Jacarepaguá, Avenida Brasil, Linha Amarela e Cidade de Deus.

A empresa pública MobiRio informou que parte dos corredores do sistema BRT foi paralisada por motivos de segurança. Motoristas e passageiros ficaram isolados em terminais e estações durante as horas de maior conflito.

A dimensão da guerra urbana

A Operação Contenção evidencia o avanço do poder bélico das facções e a gravidade da crise de segurança no Rio de Janeiro. Com o uso de táticas militares e arsenal de guerra, os grupos criminosos desafiam a autoridade do Estado e consolidam uma estrutura de domínio territorial sustentada pelo tráfico e pela violência.

O governo estadual anunciou que novas fases da operação deverão ocorrer nas próximas semanas, com foco em capturar o restante da cúpula da facção. “Estamos falando de uma estrutura que opera como um exército paralelo, com base financeira, armamento pesado e rede de influência dentro e fora das comunidades. Essa operação é apenas o começo”, afirmou o governador Cláudio Castro.

As forças de segurança permanecem nas áreas ocupadas e monitoram as rotas de fuga para impedir o retorno das atividades criminosas. O clima na região ainda é de tensão, com tiroteios esporádicos e bloqueios em alguns acessos.

A megaoperação marca um ponto de inflexão na política de segurança do Rio, refletindo a escalada de confrontos urbanos e a necessidade de ações coordenadas entre os diferentes órgãos do Estado. O desafio, no entanto, continua sendo a reconstrução da presença do poder público em territórios dominados pela violência.

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