Mato Grosso do Sul, 23 de junho de 2026
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Gaeco retorna a Terenos e Rio Negro na 5ª operação contra corrupção em 18 meses

Polícia cumpre mandados em prefeitura, empresas fantasmas e escola; prefeito Henrique Budke segue como alvo principal de fraudes milionárias
Entrada da cidade de Terenos (Foto: Divulgação, Prefeitura de Terenos)
Entrada da cidade de Terenos (Foto: Divulgação, Prefeitura de Terenos)

Equipes do Gaeco, Gecoc e Batalhão de Choque da Polícia Militar amanheceram nesta terça-feira, 10 de fevereiro, em Terenos e Rio Negro, no interior de Mato Grosso do Sul, cumprindo a quinta fase de operações contra um esquema de corrupção que já movimentou R$ 18 milhões em contratos superfaturados de obras públicas. Agentes invadiram simultaneamente a Marsoft Informática do empreiteiro Rogério Luiz Ribeiro, prédio da prefeitura, restaurante ligado ao ex-prefeito Buda do Lair em Rio Negro e escola estadual Leontino Alves de Oliveira, enquanto em Aquidauana buscas atingem escritório de engenharia suspeito de emitir notas frias. Atual prefeito Arlindo Lindolfo, do Republicanos, informou que a prefeitura não é alvo direto, mas população teme continuidade do que chamam de “balcão de negócios” na administração municipal.

A série de ações começou em agosto de 2024 com a Operação Velatus, que desmantelou a “farra das empresas convidadas” liderada pelo então secretário de obras Isaac Cardoso Bisneto, preso com R$ 450 mil em espécie e 18 cheques de propina. Empreiteiros se revezavam em licitações fraudadas para pavimentação, drenagem e construção de creches, simulando concorrência com editais feitos sob medida que excluíam concorrentes reais. Servidores atestavam recebimento fictício de asfalto, brita e mão de obra, liberando pagamentos milionários em 72 horas. Prefeitura de Terenos, com orçamento anual de R$ 98 milhões, desviou 22% dos recursos de infraestrutura entre 2023 e 2025.

Operação Spotless, deflagrada em setembro de 2025, apontou Henrique Budke, então prefeito do PSDB, como chefe da organização criminosa que faturou R$ 15 milhões em 28 meses. Gaeco apreendeu 16 prisões, 59 mandados de busca em Terenos, Campo Grande e Santa Fé do Sul, além de R$ 2,8 milhões em joias, Bitcoin e carros blindados. Budke recebia 18% de propina sobre contratos, repassados via depósitos fracionados em laranjas e doações eleitorais fictícias. Engenheiro da prefeitura confessou alteração de projetos para inflar valores em 240%, como ponte de R$ 1,2 milhão orçada em R$ 420 mil. STJ concedeu habeas corpus ao prefeito em outubro, impondo tornozeleira e afastamento do cargo.

Em 2026, operações Collusion e Simulatum miraram a revista ImpactoMais, do empresário Eli de Sousa, preso com 47 pendrives contendo áudios de acertos de propina e contratos fantasmas. Grupo de comunicação servia como lavanderia de dinheiro sujo, publicando anúncios pagos com verba pública superfaturada em 380%. Dakila, de Urandir Fernandes, negocia compra da revista por R$ 2,4 milhões, enquanto Ministério Público bloqueia R$ 9,2 milhões em bens dos investigados. PGR estima prejuízo total de R$ 23 milhões com 142 licitações dirigidas desde 2022, incluindo escola em Rio Negro superfaturada em R$ 1,8 milhão.

Terenos vive clima de tensão com quinta incursão do Gaeco em 18 meses, mobilizando 78 agentes, 14 viaturas blindadas e helicóptero Águia. Batalhão de Choque isola ruas centrais com 28 barreiras, enquanto moradores registram movimentação intensa na sede da Marsoft desde 6h. Rogério Luiz Ribeiro, dono da empresa, já foi preso na Spotless com R$ 680 mil não declarados e contratos simultâneos com 12 prefeituras. Restaurante de Buda do Lair em Rio Negro abriga cofre descoberto com R$ 340 mil em espécie e 4 celulares pré-pagos usados para negociações. Escola Leontino Alves teve direção afastada por suspeita de participação em atas falsas de entrega de merenda escolar.

Atual prefeito Arlindo Lindolfo assumiu em dezembro de 2025 prometendo ruptura com esquema anterior, mas enfrenta denúncias de continuidade com ex-aliados de Budke em secretarias. MPMS denunciou 26 pessoas em dezembro, incluindo prefeito afastado, 4 vereadores, 7 secretários e 12 empresários, por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. Romão Ávila Milhan Júnior, procurador-geral, classificou esquema como “verdadeiro balcão de negócios comandado pelo prefeito Henrique Budke para saquear cofres públicos”. Justiça aceitou denúncia contra 24 réus, com penas somadas de 280 anos de prisão.

Esquema funcionava com perfeição técnica: servidor público inseria exigências absurdas nos editais, como brita com granulometria específica só produzida por uma pedreira controlada pelo grupo. Empresas laranjas apresentavam propostas idênticas, simulando disputa acirrada que sempre terminava em empate para a escolhida. Contabilista de Budke gerenciava fluxo de propina via 18 contas bancárias em nome de igrejas evangélicas e associações de catadores. Gaeco identificou 42 obras paralisadas, incluindo UPA de R$ 4,2 milhões com 18% de execução e ginásio poliesportivo abandonado após 6 meses.

População de Terenos, 12 mil habitantes, sofre com ruas esburacadas, creche sem vagas e posto de saúde sem medicamentos, reflexo de recursos desviados. Comércio local fechou 28 lojas em 2025 por queda de 42% no movimento, enquanto agricultores relatam atraso de 180 dias em pagamento de defensivos aéreos. Rio Negro, vizinha com 8 mil habitantes, vive clima similar com prefeito afastado e Câmara investigada por superfaturamento de merenda em 320%. Aquidauana concentra cinco empreiteiras do mesmo grupo que faturaram R$ 9,8 milhões com contratos idênticos nos últimos 24 meses.

Quinta operação do Gaeco reforça Mato Grosso do Sul como epicentro de investigações anticorrupção no Centro-Oeste, com 187 prisões e R$ 68 milhões recuperados desde 2024. MPMS planeja delação premiada de engenheiro preso para detalhar organograma completo, enquanto PF cruza dados com CPI das Licitações da Alems. Budke cumpre tornozeleira em fazenda de 1.200 hectares em Sidrolândia, proibido de acessar Terenos e com bens bloqueados em R$ 14 milhões. População cobra intervenção federal após cinco operações sem condenações definitivas.

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