Mato Grosso do Sul, 21 de julho de 2026
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Investigação aponta elo entre suspeito de vazar dados de ministros e esquema de espionagem ilegal na Abin paralela

Auditor da Receita Federal monitorado por tornozeleira eletrônica revela conexões com ex coordenador demitido por perseguição a desafetos políticos e mobiliza depoimentos na Polícia Federal

A trama que envolve o acesso indevido a dados sigilosos de autoridades brasileiras ganhou novos e graves contornos com a revelação de conexões diretas entre servidores da Receita Federal e o esquema de monitoramento ilegal montado no governo anterior. Ricardo Manzano de Moraes, auditor do fisco que atualmente cumpre medidas cautelares com o uso de tornozeleira eletrônica e teve seu passaporte retido, tornou se o centro de uma investigação que busca desvendar a extensão de uma rede de espionagem ramificada. Ao tentar justificar o acesso aos dados fiscais de familiares de ministros do Supremo Tribunal Federal, o servidor acabou expondo nomes que figuram nos relatórios mais sensíveis da Polícia Federal sobre a estrutura paralela de inteligência que operava à margem da lei para blindar aliados e perseguir adversários políticos em uma escala sem precedentes.

Ricardo Manzano alegou em sua defesa perante a corregedoria que a consulta aos dados de uma parente do ministro Gilmar Mendes teria ocorrido por um suposto equívoco durante a busca pelo contato de um antigo colega de profissão. O nome citado por ele foi o de Ricardo Pereira Feitosa, figura central em episódios de interferência política no órgão arrecadador. Feitosa, que ocupou cargos de alta confiança na inteligência da Receita, foi demitido do serviço público em outubro de dois mil e vinte três após ficar comprovado que ele utilizou sua posição para vasculhar a vida financeira de ao menos quatro desafetos da família Bolsonaro, incluindo o promotor que denunciou esquemas de desvio de salários em gabinetes parlamentares. A explicação de Manzano é considerada frágil pelos investigadores, visto que existem meios convencionais e lícitos para localizar contatos pessoais sem a violação de sistemas protegidos pelo sigilo fiscal absoluto.

O desdobramento desse caso levou a Polícia Federal a intimar para depoimento nesta sexta feira o presidente da associação nacional dos fiscais, Kleber Cabral. O representante da categoria terá que esclarecer declarações polêmicas em que sugeriu uma suposta paralisia dos auditores por receio de investigar membros da corte judicial, comparando a situação ao enfrentamento de facções criminosas. No entanto, os relatórios de inteligência indicam que os servidores punidos por Alexandre de Moraes não estavam conduzindo investigações oficiais ou legítimas, mas sim realizando consultas aleatórias e sem justificativa técnica a dados de magistrados e seus parentes. O nome de Kleber também aparece em sessões do relatório da Abin paralela que descrevem tentativas de pressionar a nomeação de cargos estratégicos na corregedoria para favorecer interesses de grupos políticos específicos que buscavam controlar as punições internas do órgão.

A operação montada para proteger figuras políticas de investigações sobre rachadinhas utilizava, segundo a Polícia Federal, ferramentas de geolocalização e infiltrações em órgãos de controle para monitorar passos de investigadores e autoridades do judiciário. O ex diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, atualmente foragido no exterior, é apontado como o mentor dessa rede que buscava neutralizar qualquer avanço nas apurações que pudessem comprometer o núcleo do governo da época. A demissão de Ricardo Pereira Feitosa foi um dos primeiros passos para desmontar esse braço operacional dentro da Receita Federal, mas os depoimentos atuais indicam que as ramificações e os contatos entre esses agentes permanecem sob vigilância apertada das instituições de controle para evitar novas fugas de informação.

O relatório entregue ao Supremo detalha como a estrutura pública foi aparelhada para servir a propósitos particulares, ferindo a dignidade da função pública e a segurança institucional do país. A utilização de cargos de inteligência para obter proveito pessoal ou de outrem em detrimento da lei é o foco das punições rigorosas assinadas pelo ministério da fazenda. Enquanto a Polícia Federal avança nos depoimentos para entender se houve uma orquestração para intimidar o judiciário, os servidores implicados enfrentam processos administrativos e criminais que podem resultar em novas demissões e condenações por prevaricação e violação de sigilo funcional. O caso demonstra que a vigilância sobre os sistemas de dados do estado é a última barreira contra a utilização do aparato público como arma de perseguição contra aqueles que ousam investigar o poder.

As investigações prosseguem para identificar se outros auditores foram cooptados para fornecer dossiês que alimentavam a estrutura de espionagem ilegal. A Polícia Federal analisa agora o conteúdo de computadores e celulares apreendidos com os suspeitos para verificar a periodicidade dessas consultas e se os dados extraídos foram enviados para grupos de mensagens ligados a assessores diretos do antigo governo. O cerco se fecha sobre o que restou dessa rede, enquanto o judiciário reforça que a proteção de dados dos cidadãos e das autoridades é um pilar inegociável da democracia, punindo com rigor qualquer tentativa de instrumentalizar o acesso privilegiado a informações bancárias e fiscais para fins escusos ou chantagens políticas.

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