A tentativa de transformar a avenida Paulista em vitrine de força política terminou com uma imagem bem diferente da anunciada nos dias que antecederam o domingo, 1º. O ato convocado pelo deputado Nikolas Ferreira, sob o lema “Fora, Lula, Moraes e Toffoli”, reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas ficou distante do “mar de gente” prometido por organizadores e influenciadores ligados ao bolsonarismo.
O evento marcou a primeira grande aparição do senador Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República. Em cima do trio elétrico, usando colete à prova de balas e cercado por seguranças, ele concentrou seu discurso em críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ataques ao Supremo Tribunal Federal e promessas de medidas que beneficiariam diretamente seu pai.
Flávio afirmou que vai articular no Congresso a derrubada do veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria, proposta que trata da redução de penas para envolvidos nos atos antidemocráticos. Também declarou que, se eleito, concederá anistia a Jair Bolsonaro. Ao comparar o atual governo com a gestão anterior, afirmou que o país teria perdido rumo e fez críticas à condução da economia, buscando dialogar com a insatisfação de parte do eleitorado.
O discurso adotou tom agressivo e buscou reforçar a narrativa de perseguição judicial ao ex-presidente. A estratégia foi clara: consolidar a imagem de defensor do legado bolsonarista e herdeiro político direto do pai. Em vários momentos, o senador foi aplaudido por apoiadores mais fiéis, que agitavam bandeiras do Brasil e entoavam palavras de ordem contra o Supremo e o governo federal.
A resposta do Planalto foi imediata. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, reagiu nas redes sociais e classificou os manifestantes como “fantasiados de brasileiros”. Ela afirmou que o governo não se intimidaria com ataques e lembrou que o grupo bolsonarista foi derrotado nas urnas e tentou reverter o resultado eleitoral por meio de atos considerados golpistas.
Gleisi declarou que o campo político ligado a Bolsonaro já havia sido colocado “no devido lugar” e afirmou que a população não permitiria retrocessos. Ao mencionar os impactos da pandemia e a crise econômica enfrentada no governo anterior, reforçou a linha de defesa adotada pelo Planalto desde o início do mandato de Lula: a de que o país estaria em processo de reconstrução institucional e social.
O contraste entre o discurso inflamado e a ocupação da avenida se tornou o principal assunto do dia. A concentração maior ocorreu nas proximidades do Museu de Arte de São Paulo, enquanto trechos mais afastados exibiam grandes espaços vazios. Pedestres circulavam pela via interditada sem dificuldade, e imagens aéreas mostraram que a multidão se restringiu a um perímetro curto.
Estimativas indicaram presença entre 15 mil e 20 mil pessoas, número inferior ao esperado por organizadores que falavam em centenas de milhares. Nas redes sociais, vídeos publicados por Flávio destacaram apenas os pontos mais cheios, com tomadas fechadas e ângulos que evitavam mostrar áreas dispersas. A comparação com registros feitos por outros presentes alimentou críticas e ironias sobre a dimensão real do ato.
O deputado Nikolas Ferreira, responsável pela convocação, também elevou o tom contra o ministro Alexandre de Moraes. Em discurso marcado por ataques pessoais, afirmou que o destino do magistrado seria a prisão, e não apenas um eventual processo de impeachment. Apesar de dizer que, por ser evangélico, evitaria xingamentos, utilizou termos ofensivos ao se referir ao ministro. Também puxou coros contra Dias Toffoli e contra Lula.
O pastor Silas Malafaia, apoiador histórico do bolsonarismo, repetiu críticas ao Supremo e reforçou o discurso de enfrentamento às instituições. A tônica das falas girou em torno de suposta perseguição judicial e da defesa de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, além de ataques à condução política do governo federal.
Nos bastidores, aliados de Lula avaliaram que a pauta do ato mostrou um movimento mais preocupado com a situação jurídica de lideranças do que com propostas amplas para o país. Integrantes do governo consideraram que o comparecimento limitado sinalizou desgaste na capacidade de mobilização de rua do bolsonarismo, especialmente quando comparado a manifestações anteriores na própria Paulista.
Para analistas políticos, o evento revelou um cenário de reorganização da direita. Com Jair Bolsonaro inelegível, Flávio tenta ocupar o espaço e manter o eleitorado mobilizado. Ao assumir protagonismo, ele busca testar sua força e medir a disposição das bases em abraçar seu nome como alternativa viável ao Planalto.
O ato também escancarou a estratégia de manter o Supremo como alvo central do discurso. Ao direcionar críticas a ministros da Corte, lideranças bolsonaristas reforçam a narrativa de confronto institucional que marcou o governo anterior. Por outro lado, esse mesmo tom pode afastar eleitores mais moderados, que demonstram cansaço com o clima permanente de embate.
No campo governista, a orientação é responder politicamente, mas sem ampliar o conflito além do necessário. Gleisi assumiu o papel de porta-voz mais combativa, enquanto Lula tem adotado discurso voltado a programas sociais e indicadores econômicos, tentando deslocar o foco para resultados de gestão.
O domingo na Paulista, portanto, não foi apenas mais uma manifestação. Representou um termômetro da força atual do bolsonarismo nas ruas, o ensaio de uma pré-candidatura e um retrato da polarização que segue moldando o cenário político nacional. Entre discursos duros, promessas de anistia e críticas às instituições, ficou evidente que a disputa eleitoral já começou, ainda que informalmente, e que os próximos capítulos devem manter o tom elevado entre governo e oposição.
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