Quando Raimunda Maria carrega um balde cheio de água hoje, o gesto se reveste de simbolismo e dignidade. Agricultora e moradora de uma comunidade rural em Cabrobó, no sertão pernambucano, ela lembra com nitidez dos tempos difíceis em que a rotina era marcada por longas caminhadas em busca de cacimbas, pequenos buracos escavados na terra, onde conseguia coletar água para as necessidades básicas. Seja equilibrando o balde na cabeça ou segurando-o firmemente com os braços, sua resistência era constantemente posta à prova pela escassez e pela aridez do sertão.
“A água é uma fonte de vida para nós aqui na comunidade. Antes, quando não tínhamos, a nossa vida era um sacrifício constante. Nós vivíamos de cacimba, e íamos buscar água onde quer que ela estivesse”, relata Raimunda, com a voz carregada de memórias de um passado de privações. “Era muito sacrifício. Quando a água chegou aqui, foi de grande valia para nós”, conta, misturando alívio e orgulho ao recordar a transformação vivida.
Essa nova realidade é compartilhada por milhares de famílias sertanejas que, hoje, experimentam os efeitos concretos da chegada da água proporcionada pelas obras do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). Trata-se da maior iniciativa de infraestrutura hídrica da história do Brasil, uma obra que, além de conduzir água encanada para as casas, devolve a dignidade e reacende a esperança de dias melhores.
“A água é tudo, né? O mundo gira com água, sem água ele não gira”, resume Maria Auxiliadora, de 49 anos, dona de casa que também viu sua rotina ser completamente transformada com a chegada do recurso hídrico à região. Antes, os dias começavam sempre com a mesma preocupação: garantir água suficiente para cuidar dos dois idosos que vivem com ela. Desde a chegada do PISF, no entanto, Maria viu a possibilidade concreta de uma mudança. “É um benefício grande pra todos. Aqui, é uma luta viver sem água”, afirma, emocionada.
O município de Cabrobó abriga um dos principais marcos dessa transformação: a Estação de Bombeamento EBI-1, que representa o ponto de partida do Eixo Norte do PISF. A partir dali, a água captada do “Velho Chico” percorre mais de 260 quilômetros, beneficiando mais de 8 milhões de pessoas em 237 municípios espalhados pelos estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.
Com capacidade para bombear até 24,8 metros cúbicos de água por segundo, a imponente estrutura teve suas obras iniciadas em 2008 e foi oficialmente concluída em 3 de agosto de 2015, durante o segundo mandato da então presidenta Dilma Rousseff. A estação simboliza não apenas um feito de engenharia, mas uma mudança histórica e social para milhões de nordestinos que viviam sob o risco permanente da seca e da escassez.
Para Arthur Braga, analista de infraestrutura da EBI-1, o trabalho que realiza hoje transcende o aspecto profissional e assume uma dimensão pessoal e afetiva. Visivelmente emocionado, ele compartilha a memória de seu pai, que sonhava com a transposição, mas faleceu antes de ver a primeira estação em funcionamento. “Esse projeto representa a diferença entre a vida e a morte. Esse projeto é a vida. Meu pai morreu em 2014, antes de ver a primeira estação funcionando, e quando ele soube que eu estava trabalhando no projeto, ele quase não acreditou, mas eu prometi a ele que iria entregar essa transposição. Ele não pôde ver, mas eu estou aqui representando ele e a geração dele”, afirma Arthur, comovido.
As histórias de transformação que surgem com a chegada da água integram a primeira agenda do “Caminho das Águas”, uma iniciativa do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) que busca acompanhar, monitorar e dar visibilidade ao esforço do Governo Federal pela segurança hídrica no Nordeste brasileiro. A proposta é evidenciar que a infraestrutura está, de fato, funcionando e promovendo mudanças reais na vida das pessoas que por anos conviveram com a incerteza e a escassez.
Durante a visita à EBI-1, o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, classificou como “histórico” o momento vivido atualmente pelo PISF. Ele destacou a importância da retomada e ampliação das obras, agora impulsionadas pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC). “Isso aqui é um solo sagrado. Estou exatamente onde começa a captação no São Francisco para a transposição. É emocionante ver que, com o Novo PAC, estamos colocando o pé no acelerador”, afirmou o ministro, referindo-se aos novos investimentos que vão ampliar ainda mais o alcance do projeto.
Entre os anúncios feitos, destaca-se a duplicação da capacidade de bombeamento do Eixo Norte, que passará de 25 para 50 metros cúbicos por segundo, além de obras complementares como túneis, barragens e adutoras que ampliarão significativamente o número de comunidades beneficiadas nos próximos anos.
Ao lado do ministro, a vice-governadora de Pernambuco, Priscila Krause, ressaltou a importância da parceria entre o Governo Federal e o Governo Estadual para consolidar a segurança hídrica no estado. Ela lembrou que, graças à transposição e à Adutora do Agreste, cidades que antes enfrentavam até 120 dias consecutivos sem água, hoje já recebem abastecimento de forma regular. “Essa parceria é fundamental e não tem nos faltado. O presidente Lula tem colocado toda a estrutura federal à disposição de Pernambuco”, afirmou Priscila.
A vice-governadora também destacou a articulação entre os projetos federais e estaduais, como o Águas de Pernambuco, que será ampliado com a futura construção do canal de Entremontes. A obra levará água a outras comunidades sertanejas que, mesmo estando próximas do São Francisco, ainda não eram contempladas pela transposição.
Em meio ao sertão, onde por séculos o povo nordestino desafiou a seca com criatividade e resistência, a água que agora corre encanada pelos canais e adutoras do PISF é, mais do que nunca, símbolo de esperança e de um futuro com mais dignidade e segurança para milhões de brasileiros.
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