O Brasil vive um momento emblemático de sua história recente. Após anos figurando entre as nações marcadas pela fome estrutural, o país acaba de deixar o Mapa da Fome, divulgado pela Organização das Nações Unidas. O anúncio, feito durante entrevista coletiva conduzida pelo ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, foi recebido com ênfase como símbolo de uma política de reconstrução social e humanitária.
O Relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI 2025), produzido por cinco agências da ONU, atesta que o Brasil alcançou, pela segunda vez em sua história, o patamar inferior a 2,5% da população em risco de subnutrição, percentual considerado pela ONU como limite para a exclusão de um país do Mapa da Fome. A média trienal de 2022 a 2024 foi fundamental para esse reconhecimento internacional.
A superação foi classificada como “decisão política sustentada por estratégias eficazes” por Wellington Dias. Para ele, o objetivo primeiro do governo federal, ao iniciar a atual gestão, era justamente retirar o Brasil dessa condição humilhante. “Hoje é um dia histórico. Cumprimos a meta em tempo recorde”, afirmou o ministro, destacando que o feito não se trata de um milagre, mas de um conjunto de ações coordenadas, consistentes e de grande envergadura.
O país já havia deixado o Mapa da Fome em 2014, após mais de uma década de políticas sociais contínuas. Contudo, a partir de 2018, o desmonte de programas de proteção social e cortes em investimentos públicos reverteram o progresso, recolocando o Brasil na lista da vergonha internacional em 2021. A reversão dessa realidade demandou urgência, planejamento e mobilização federativa.
Entre os pilares que sustentaram a mudança estão o fortalecimento da agricultura familiar, a ampliação dos programas de transferência de renda, a garantia de merenda escolar de qualidade e o aumento do poder de compra dos mais pobres. A reestruturação do Bolsa Família, com foco na primeira infância, e a criação do Plano Brasil Sem Fome também foram decisivos para alcançar resultados rápidos.
Wellington Dias apontou ainda a atuação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) como fundamental. “Assim como o SUS salvou vidas durante a pandemia, o SISAN salvou milhões de pessoas da insegurança alimentar grave”, disse. O sistema, baseado em cooperação entre União, estados e municípios, foi responsável por assegurar desde cestas emergenciais até apoio técnico à produção rural.
Mas a saída do Mapa da Fome não encerra a batalha. O governo já articula medidas de continuidade para manter o país fora da zona de risco e garantir o acesso universal a alimentos saudáveis, adequados e em quantidade suficiente. Uma das estratégias é o uso do Cadastro Único com inteligência de dados, através da Busca Ativa, para localizar pessoas ainda invisíveis às políticas públicas.
Outro destaque do momento foi a apresentação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Com 193 membros entre países, instituições financeiras e organizações multilaterais, a iniciativa busca destravar potencialidades já existentes nas políticas locais e fortalecer sua implementação. “O diferencial da Aliança está em acelerar o que já está desenhado, mas travado por falta de coordenação ou recursos”, explicou o ministro.
Durante o lançamento do relatório da ONU, o Brasil foi colocado como referência mundial de combate à fome. A Iniciativa de Aceleração (Fast Track), braço técnico da Aliança, já começa a ser replicada em treze países, com foco em inclusão produtiva, proteção social e renda básica. O exemplo brasileiro, segundo Wellington Dias, reforça a ideia de que a fome pode ser vencida com planejamento e coragem política.
A autoridade brasileira encerrou sua fala com um apelo ao engajamento global. “Se conseguirmos apoiar cada plano com os recursos e a força política necessária, mais países vão sair da fome. A fome tem pressa. E se combatê-la é um dever moral, erradicá-la é uma possibilidade real.”
A retirada do Brasil do Mapa da Fome, além de representar alívio para milhões de brasileiros, recoloca o país no cenário internacional como referência ética e prática no enfrentamento da desigualdade. A conquista é, antes de tudo, o retrato de uma escolha civilizatória: colocar a dignidade humana como prioridade absoluta.
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