Mato Grosso do Sul, 22 de junho de 2026
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Campo Grande chega aos 126 anos sem vagas em creches e sob críticas à gestão pública

Audiência pública de 1º de setembro revelou omissão da Prefeitura, apontou violação de direitos da infância e escancarou consequências sociais e econômicas da negligência histórica
Jerson Domingos destacou o papel do TCE-MS na articulação em defesa da Primeira Infância. - Imagem - Mary Vasquez
Jerson Domingos destacou o papel do TCE-MS na articulação em defesa da Primeira Infância. - Imagem - Mary Vasquez

Campo Grande completou 126 anos neste mês, mas, ao contrário das festividades oficiais que ressaltam o crescimento urbano e a importância econômica da Capital sul-mato-grossense, a realidade vivida por milhares de famílias escancara um contraste doloroso: crianças sem acesso à educação infantil, mães impossibilitadas de trabalhar e um sistema público incapaz de responder a uma demanda elementar. A audiência pública realizada em 1º de setembro, na Câmara Municipal, expôs em detalhes esse problema que já não pode mais ser tratado como pontual, mas como uma crise social e institucional.

O encontro, que reuniu representantes do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS), Ministério Público, Defensoria Pública, professores, gestores educacionais e entidades civis, foi intitulado “A falta de vagas na Educação Infantil em Campo Grande: o tempo da criança é hoje!”. A escolha do tema refletiu a urgência da pauta. A fila por vagas em creches, que segundo estimativas ultrapassa 5 mil crianças, simboliza uma falha estrutural que se arrasta há décadas.

Omissão institucionalizada

Durante a audiência, o conselheiro do TCE-MS, Jerson Domingos, foi categórico ao afirmar que a ausência de políticas efetivas para garantir o acesso à educação infantil configura descumprimento da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente. “A omissão da gestão pública municipal é flagrante. O município não pode se esquivar de sua obrigação. A criança não pode esperar, porque o tempo dela não é o mesmo da burocracia”, afirmou.

Representantes do Ministério Público reforçaram a gravidade da situação. O promotor Sérgio Harfouche alertou que a falta de investimento contínuo em creches gera um ciclo de desigualdade. “Negar acesso à educação infantil é negar futuro, é perpetuar a exclusão social e condenar famílias a permanecerem à margem do desenvolvimento. É um crime social com consequências irreversíveis”, disse.

A Defensoria Pública também destacou que a omissão compromete direitos fundamentais. A defensora Marina Ferreira lembrou que diversas ações judiciais têm sido movidas contra a Prefeitura, obrigando o município a garantir vagas específicas por meio de decisões liminares. “Estamos em uma situação em que famílias precisam recorrer à Justiça para assegurar o que já está previsto na Constituição. Isso mostra o colapso da política pública na área”, destacou.

Impactos sociais e econômicos

As consequências dessa falha vão além da sala de aula. Sem creches, muitas mães — principalmente em bairros periféricos são forçadas a abandonar empregos formais para cuidar dos filhos. Isso provoca queda na renda familiar, aumento da dependência de programas assistenciais e, em última instância, impacto direto na economia local.

Estudos apresentados durante a audiência mostraram que a cada R$ 1 investido na primeira infância, há um retorno de até R$ 7 para a sociedade, considerando ganhos em educação, saúde, empregabilidade e redução da criminalidade. “Investir em creches não é gasto, é política estratégica. O município que não compreende isso está atrasando seu próprio desenvolvimento”, afirmou a professora e pesquisadora Ângela Costa, da Aliança pela Infância.

Além disso, a exclusão educacional acentua desigualdades já existentes. Crianças de famílias mais ricas têm acesso a escolas particulares e estímulos adequados, enquanto as de baixa renda ficam desassistidas, aumentando a distância entre classes sociais desde os primeiros anos de vida.

Imagem – Eduardo de Almeida

Promessas não cumpridas e ausência do Executivo

Outro ponto amplamente criticado foi a ausência de representantes da Prefeitura na audiência. Apesar dos convites, nenhum secretário ou técnico da gestão municipal compareceu para apresentar explicações ou propostas. O vazio institucional foi interpretado como sinal de descaso.

Vale lembrar que, em campanhas eleitorais anteriores, a promessa de construir novas unidades de educação infantil foi usada como bandeira política. Entretanto, o que se viu foram obras paralisadas, contratos suspensos e anúncios sem execução. Muitas comunidades continuam à espera de Centros de Educação Infantil (Ceinfs) prometidos há mais de uma década.

Para o professor e sindicalista Ricardo Moreira, o quadro é resultado de escolhas políticas equivocadas. “Recursos existem, o que falta é prioridade. O município sempre encontra verba para festas, obras de visibilidade rápida e publicidade institucional, mas não cumpre o básico com a infância. Isso revela onde está, de fato, a prioridade da gestão”, afirmou.

O papel do Tribunal de Contas e perspectivas futuras

O TCE-MS, que já instituiu um comitê estadual da Primeira Infância, reforçou que continuará fiscalizando e cobrando medidas, mas deixou claro que sua atuação tem limites. “Podemos apontar falhas, recomendar ajustes e exigir transparência, mas quem deve executar políticas e garantir vagas é a Prefeitura. Sem vontade política, nada avança”, resumiu Jerson Domingos.

Há ainda um temor de que a falta de creches resulte em uma “geração perdida” em Campo Grande. Crianças que não acessam a educação infantil têm maiores chances de apresentar dificuldades de aprendizado, abandono escolar precoce e até envolvimento em atividades ilícitas no futuro.

Ao completar 126 anos, Campo Grande se vê diante de um dilema simbólico: comemorar a modernidade de seus prédios, avenidas e shoppings, ou encarar a dura realidade de milhares de crianças excluídas do direito básico à educação infantil. A audiência pública de 1º de setembro não apenas expôs a negligência da gestão municipal, mas também questionou o modelo de cidade que se pretende construir.

Enquanto discursos oficiais exaltam progresso e desenvolvimento, famílias vivem o drama diário de não ter onde deixar seus filhos com segurança e dignidade. O contraste é gritante: a Capital cresce em números, mas falha no essencial. O aniversário de 126 anos deveria ser momento de orgulho coletivo, mas se torna lembrete incômodo de uma infância esquecida.

A grande questão permanece: que futuro se pode esperar de uma cidade que não consegue garantir o presente de suas crianças?

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