Campo Grande chega aos seus 126 anos de fundação em um cenário que pouco remete a comemorações. Enquanto o calendário oficial marca homenagens, solenidades e discursos políticos de exaltação, a realidade vivida pela população é de frustração, abandono e descontentamento. A capital, que já foi referência em gestão pública, hoje enfrenta uma série de entraves que comprometem o bem-estar de seus moradores e expõem a fragilidade de uma administração que parece distante das necessidades concretas da cidade.
A saúde pública, historicamente considerada um dos pilares de qualquer gestão responsável, tornou-se um dos setores mais críticos. Faltam médicos em plantões, medicamentos essenciais estão em falta nas unidades básicas e nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), e denúncias de desvios de verbas públicas no valor de R$ 126 milhões colocam ainda mais sombras sobre o sistema. Pacientes aguardam meses por consultas com especialistas, enquanto filas intermináveis se acumulam nos corredores de hospitais e postos de saúde. A falta de segurança para médicos e funcionários, o sumiço de prontuários e a presença de profissionais que faltam ao trabalho sem justificativa compõem um quadro de descaso que compromete vidas diariamente.
Nas ruas, a situação não é diferente. A infraestrutura urbana mostra sinais visíveis de abandono. Buracos em avenidas e bairros transformam o tráfego em um risco constante, e a solução encontrada pela gestão municipal, o chamado “tapa-buracos”, é marcada por serviços paliativos, caros e de péssima qualidade, que não resistem sequer à primeira chuva. Enquanto isso, bairros inteiros e vilas periféricas sofrem com a ausência de manutenção e com a falta de investimentos básicos.
No transporte coletivo, o retrato é igualmente sombrio. A frota de ônibus circula em condições precárias, com veículos velhos, maquiados para esconder problemas estruturais, tarifas altas e um serviço que não atende às necessidades de mobilidade da população. A ausência de investimentos em sinalização, equipamentos modernos de ordenamento do tráfego e planejamento de mobilidade urbana agrava ainda mais o caos no trânsito da capital. Em contrapartida, a prefeitura aposta em uma intensa agenda de blitz que, para muitos cidadãos, não passa de estratégia para aumentar a arrecadação, em vez de promover segurança viária de fato.
Outro ponto que revolta a população é a chamada “taxa de iluminação pública”. Bairros inteiros permanecem às escuras, colocando em risco a segurança dos moradores, enquanto os contribuintes continuam pagando caro por um serviço que não é prestado de forma adequada.
No campo da educação, o problema se repete. Faltam vagas em creches e em escolas municipais de educação infantil (Emeis), o que atrasa o desenvolvimento de crianças em idade escolar e compromete o aprendizado em uma fase crucial da vida. Essa deficiência revela não apenas falta de planejamento, mas também a incapacidade da atual gestão de responder às demandas mais urgentes da cidade.
Paralelamente, observa-se o crescimento desordenado de favelas e o aumento do número de famílias sem teto, situação que contradiz o passado de Campo Grande, quando a capital era considerada modelo em políticas públicas de habitação, educação e saúde. Hoje, a cidade convive com bolsões de miséria e precariedade, reflexos de uma administração que não consegue articular programas sociais consistentes.
Enquanto isso, a prefeitura se vê envolvida em críticas relacionadas à gestão interna. Altos salários para aliados políticos, contratações sem critérios técnicos, cargos ocupados por pessoas sem qualificação e práticas que lembram favorecimentos pessoais, como a manutenção de parentes, apadrinhados e lideranças religiosas em posições estratégicas, reforçam a percepção de que a máquina pública tem servido mais a interesses particulares do que ao bem coletivo.
Em meio a tantos problemas, resta a pergunta inevitável: o que os campo-grandenses têm realmente a comemorar nos 126 anos de sua capital? A cidade, que já foi exemplo de organização e eficiência administrativa, hoje enfrenta desafios que exigem não apenas discursos de celebração, mas respostas concretas e imediatas. A ausência de uma liderança preparada, com formação e experiência em gestão pública, amplia a sensação de abandono e coloca em xeque o futuro de uma capital que deveria ser referência para o Estado e para o país.
O aniversário de Campo Grande, portanto, não pode ser apenas ocasião para festas e solenidades. Deve ser, sobretudo, um momento de reflexão crítica sobre os rumos da cidade, sobre a necessidade de recuperar o planejamento, a transparência e a seriedade na gestão pública. Mais do que comemorar, é hora de cobrar mudanças que resgatem o orgulho de viver em uma capital que já foi exemplo, mas que hoje se encontra mergulhada em contradições e carências que não podem mais ser ignoradas.
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