Mato Grosso do Sul, 26 de junho de 2026
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Casos de feminicídio com arma de fogo crescem no Brasil em 2025 e expõem falhas no enfrentamento à violência contra a mulher

Levantamento nacional mostra aumento de 45% em relação a 2024 e reforça urgência de políticas públicas, fiscalização rigorosa e proteção efetiva às vítimas
Imagem - Kauã Cabral
Imagem - Kauã Cabral

O Brasil enfrenta um cenário alarmante em 2025. O número de casos de feminicídio e tentativas de feminicídio praticados com arma de fogo aumentou 45% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado que analisou 57 municípios. Entre janeiro e a primeira quinzena de agosto, 29 mulheres foram vítimas, das quais 22 não sobreviveram.

O dado revela uma escalada preocupante da violência de gênero. Em 2024, 20 mulheres haviam sido baleadas, com 12 mortes. A letalidade dos casos em 2025 é ainda mais grave: 76% das vítimas não resistiram. O ambiente doméstico se confirma como principal cenário das agressões, concentrando 15 ocorrências, seguido por bares, onde cinco mulheres foram atingidas.

A relação entre vítima e agressor expõe a raiz do problema. Em 25 dos 29 casos, os disparos partiram de companheiros ou ex-companheiros. Além disso, sete episódios envolveram agentes de segurança, apontando para a gravidade da violência armada em espaços que deveriam ser de proteção.

A região metropolitana do Recife lidera os registros, concentrando 13 vítimas em 2025, oito delas fatais. Em seguida aparecem a Grande Rio de Janeiro, com 10 vítimas (oito mortas), e Salvador e região metropolitana, com quatro mulheres mortas. Belém, Camaçari, Simões Filho, Jaboatão dos Guararapes e outras cidades também aparecem na lista, demonstrando que o problema não se restringe a um território específico, mas se espalha por diferentes realidades urbanas do país.

Especialistas em segurança pública e direitos humanos apontam que a combinação de acesso facilitado a armas de fogo, falhas na rede de proteção às mulheres e subnotificação dos casos compõem o cenário atual. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, reforçou que a ausência de articulação entre delegacias especializadas, Ministério Público, assistência social e unidades de saúde compromete a eficácia das medidas de proteção.

“Quanto mais medidas protetivas forem aplicadas e fiscalizadas, menos feminicídios nós teremos. Mas a verdade é que ainda faltam redes integradas em boa parte dos municípios. Isso deixa milhares de mulheres desamparadas”, afirmou a ministra.

A subnotificação também é um obstáculo. Muitas mulheres, segundo Lopes, não denunciam por medo de retaliações contra elas ou seus filhos, ou por se sentirem culpadas e envergonhadas. A violência, nesses casos, se arrasta por anos até culminar no feminicídio.

Como estratégia de enfrentamento, o governo federal aposta na ampliação das Casas da Mulher Brasileira, centros de atendimento humanizado que integram serviços jurídicos, psicossociais e de acolhimento emergencial. Atualmente, existem 11 unidades em funcionamento e a meta é alcançar 40 até 2026. Além disso, o canal Ligue 180 segue sendo uma ferramenta essencial para denúncias, funcionando 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa.

Outro desafio é a representatividade política. A ministra destacou que a baixa presença de mulheres em cargos públicos limita o alcance de políticas específicas e perpetua relações de poder desiguais. A mobilização para que mulheres, especialmente negras e periféricas, ocupem espaços institucionais é apontada como um caminho para fortalecer o enfrentamento à violência.

O aumento dos feminicídios em 2025 expõe não apenas a brutalidade de crimes marcados por gênero, mas também a urgência de respostas concretas. O país precisa avançar na proteção efetiva, no monitoramento das medidas protetivas e na responsabilização de agressores. Enquanto isso não acontece, os números seguem transformando estatísticas em histórias interrompidas pela violência.

A escalada de feminicídios mostra que o Brasil ainda falha em proteger suas mulheres. Não basta endurecer leis: é preciso garantir que funcionem, com presença do Estado em todos os municípios, fiscalização eficiente e políticas de prevenção que alcancem as periferias e comunidades mais vulneráveis. Cada caso registrado é um alerta de que a violência continua vencendo onde a rede de proteção não chega.

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