Mato Grosso do Sul, 2 de julho de 2026
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Celular de Bolsonaro revela articulações contra STF e ofensiva parlamentar apagada antes de operação da Polícia Federal

Mensagens resgatadas pela Polícia Federal apontam envolvimento direto do ex-presidente em ações para influenciar o Congresso, barrar projetos, atacar ministros do Supremo e articular apoio externo, mas parte dos dados foi excluída dias antes da apreensão do aparelho
Imagem - Hugo Barreto
Imagem - Hugo Barreto

A linha entre atuação política e tentativa de obstrução institucional voltou ao centro do debate após revelações que envolvem o ex-presidente Jair Bolsonaro e uma rede de mensagens recuperadas pela Polícia Federal. O conteúdo extraído do celular de Bolsonaro, apreendido em maio de 2023, demonstra sua articulação direta com parlamentares aliados para interferir em decisões legislativas e para tentar abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Os dados reforçam a suspeita de que o ex-mandatário, mesmo após deixar a Presidência, seguia exercendo influência sobre os rumos do Congresso, tentando impedir avanços legislativos como o Projeto de Lei das Fake News e mantendo articulações com figuras internacionais ligadas a governos conservadores.

As mensagens extraídas totalizam mais de 7 mil arquivos, segundo reportagem do jornalista Aguirre Talento, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Parte significativa dos conteúdos, no entanto, havia sido apagada por Bolsonaro dias antes da operação que resultou na apreensão do aparelho, restringindo a janela de acesso da PF a uma semana anterior ao cumprimento do mandado.

A comunicação interceptada revela, entre outros episódios, um diálogo com o deputado Hélio Lopes (PL-RJ), conhecido como Hélio Negão. No trecho, o parlamentar consulta o ex-presidente sobre a conveniência de assinar a proposta de CPI contra Moraes. Bolsonaro o encoraja a apoiar a iniciativa, afirmando que ele próprio assinaria, mesmo diante da possibilidade de retaliações. Hélio, então, responde com ironia: “Já assinei. kkk”.

Em paralelo, Jair Bolsonaro também orientava o filho, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), sobre a tramitação do PL das Fake News (PL 2630/2020), texto que busca regular o funcionamento de redes sociais e plataformas digitais. Diante da tentativa do relator Orlando Silva (PCdoB-SP) de retirar a proposta da pauta, Bolsonaro pai pressiona para que o projeto fosse votado ainda naquele dia. Eduardo, por sua vez, manifesta apoio público à votação, na condição de líder da minoria.

O material revela ainda o convite feito pelo então embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, para que Bolsonaro passasse 14 dias em Israel com todas as despesas pagas. Nas mensagens, Shelley se refere ao ex-presidente como “presidente amado”, reforçando a afinidade entre Bolsonaro e o governo conservador de Benjamin Netanyahu. Em outra mensagem de teor mais pessoal, Bolsonaro organiza sua participação na Agrishow, em Ribeirão Preto, hospedando-se na fazenda do agropecuarista Paulo Junqueira. “Te boto lá no palanque comigo”, diz ele ao ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida, ao convidá-lo para o evento.

Também foram encontradas mensagens de Bolsonaro pedindo a Tércio Arnaud, integrante do chamado “gabinete do ódio” no Planalto, que verificasse a veracidade de vídeos antes de divulgá-los. Em um dos casos, Bolsonaro questiona se pode compartilhar um vídeo sobre o relógio de Dom João VI, danificado durante os atos golpistas de 8 de janeiro. A narrativa que circulava nos grupos bolsonaristas acusava falsamente “esquerdistas infiltrados” pela depredação. Tércio alerta que se trata de um meme e que a história não era verídica.

Segundo investigadores da Polícia Federal, a tentativa de apagar as mensagens antes da busca e apreensão levanta suspeitas de tentativa deliberada de ocultar provas. Apesar disso, parte dos dados foi recuperada e atualmente é utilizada como evidência nos inquéritos que apuram a participação de Bolsonaro em esquemas de desinformação, interferência em instituições democráticas e articulações golpistas.

A apreensão de outro aparelho celular do ex-presidente, realizada em julho deste ano em nova operação, ainda está sob perícia, podendo revelar novos dados. O Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal acompanham o avanço das investigações com atenção, diante das possíveis implicações criminais e institucionais das evidências reunidas.

As revelações reacendem o debate sobre os limites da atuação de ex-chefes de Estado na vida política e sobre a responsabilização de líderes que atentam contra a ordem democrática. Para juristas, o apagamento de mensagens pouco antes da operação da PF pode configurar tentativa de obstrução de justiça. Ao mesmo tempo, as mensagens evidenciam um ex-presidente ainda atuante, que buscava manter influência sobre o Legislativo, se comunicar com diplomatas estrangeiros e movimentar narrativas em redes sociais, mesmo após deixar formalmente o poder.

As investigações seguem em curso, e novos desdobramentos podem aprofundar as consequências políticas e jurídicas para Bolsonaro e seu entorno.

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