Mato Grosso do Sul, 24 de junho de 2026
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Condenação de pastor por estelionato em Dourados expõe exploração da fé e promessa de curas impossíveis

Sentença imposta a David Tonelli Mainarte revela atuação baseada em supostos milagres, pagamentos exigidos e abandono das vítimas após promessas não cumpridas
David Mainarte foi sentenciado a um ano, mas juiz substituiu pena por prestação de serviços comunitários
David Mainarte foi sentenciado a um ano, mas juiz substituiu pena por prestação de serviços comunitários

A Justiça de Mato Grosso do Sul concluiu um processo que se arrastava desde 2016 e condenou o pastor David Tonelli Mainarte, de Bebedouro, em São Paulo, por estelionato contra uma moradora de Dourados. A decisão, assinada na última semana, determinou pena de um ano de reclusão em regime aberto, posteriormente substituída por prestação de serviços comunitários durante doze meses, além do pagamento das custas do processo. Embora condenado, o réu ainda poderá recorrer.

O caso veio à tona quando a vítima, motivada por vídeos divulgados pelo pastor na internet, acreditou que poderia se livrar das cicatrizes de queimaduras que carregava nas pernas desde a infância. Ao ver as promessas de curas extraordinárias, como regeneração de tecidos, reconstrução de seios e eliminação de marcas profundas, ela buscou contato com David e recebeu dele a condição de que arcasse com as despesas de deslocamento para que ele realizasse cultos e sessões de oração em Mato Grosso do Sul.

A mulher financiou completamente a viagem do pastor e de seus familiares, custeando transporte, alimentação e hospedagem. Os gastos declarados por ela chegaram a quase quatro mil reais. Segundo depoimentos, também um sobrinho adolescente entregou ao pastor o dinheiro que havia ganhado do pai, acreditando que poderia eliminar uma cicatriz antiga. Nenhum dos dois recebeu qualquer resultado das sessões realizadas.

As investigações apontaram que David se apresentava como líder religioso capaz de promover transformações corporais inexistentes, utilizando vídeos nas redes sociais para divulgar supostos milagres, como crescimento de dentes, regeneração óssea, reconstrução de partes do corpo e recuperação instantânea de pessoas com limitações severas. Em Campo Grande, após algumas tentativas, a vítima percebeu que não havia qualquer progresso. Ao cobrar explicações, passou a ser ignorada pelo pastor, que não respondeu mais às mensagens, encerrando repentinamente o contato.

O Ministério Público sustentou que o acusado agia de forma premeditada, utilizando a própria posição religiosa como instrumento de manipulação. A denúncia descreveu práticas voltadas à obtenção de vantagens financeiras mediante a exploração emocional de pessoas fragilizadas. A vítima, ao acreditar na promessa de cura, arcaram com custos elevados, contando com expectativas dissociadas da realidade.

Durante a investigação e no julgamento, David negou o crime e alegou que a mulher não teria concluído todas as sessões propostas. A defesa argumentou que não houve intenção de enganar e que os valores repassados seriam apenas contribuições voluntárias. Também questionou a validade de vídeos anexados ao processo e afirmou que o direito penal não deveria interferir em manifestações religiosas. Ainda assim, o conjunto de provas demonstrou que o réu prometeu resultados impossíveis e recebeu vantagens indevidas ao apresentar supostos poderes sobrenaturais como garantia de cura.

A sentença destacou que o Estado deve agir de forma técnica e laica, separando crença pessoal de condutas que configuram crime. O juiz apontou que, ao prometer aquilo que não poderia realizar e ao obter recursos com essa promessa, David incorreu no tipo penal de estelionato, resultando na condenação agora definida.

O caso se soma a outros episódios registrados no país em que pessoas vulneráveis são atraídas por discursos de cura milagrosa, depositando confiança, tempo e recursos financeiros em práticas que jamais poderiam entregar o que prometem. A condenação busca reforçar a proteção a vítimas que, em situação de fragilidade, entregam mais do que têm em troca de esperança, mas encontram apenas abandono e prejuízo.

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