A consolidação da cultura como motor econômico deixou de ser uma bandeira abstrata e se tornou um desafio real para gestores e produtores que convivem diariamente com limitações de orçamento, desigualdade regional, ausência de estrutura e falta de profissionalização em muitos territórios. Esse cenário foi colocado em evidência no seminário Conexões Criativas, realizado no Centro Cultural José Octávio Guizzo, onde representantes de 46 municípios se reuniram para debater políticas públicas, inovação, financiamento e regionalização da economia criativa em Mato Grosso do Sul.
A abertura do evento trouxe uma visão ampliada do setor, destacando pontos de estagnação e caminhos para impulsionar cadeias produtivas criativas. A superintendente Luciana Azambuja apresentou um diagnóstico que vai além da celebração da diversidade cultural e expôs a necessidade de enfrentar gargalos estruturais que afetam desde pequenos produtores até organizações com maior capacidade técnica. Ao tratar de sustentabilidade financeira, formação profissional, articulação intermunicipal e autonomia dos territórios, a discussão colocou em pauta a urgência de políticas públicas contínuas, resistentes a mudanças de governo e capazes de alcançar municípios menores, onde a cultura ainda sobrevive com pouca estrutura.
O secretário de Cultura de Bonito, Lelo Marchi, reforçou uma crítica que circula entre gestores há anos: a fragmentação regional impede que iniciativas se tornem políticas consolidadas. A falta de integração entre municípios gera desigualdade e transforma produtores culturais em agentes isolados, com pouca capacidade de circulação e baixa competitividade. A presença de representantes do Ministério da Cultura ampliou a discussão e destacou a importância de organizar mercados locais, fortalecer agentes culturais e construir ambientes estáveis para que artistas, empreendedores e coletivos possam se profissionalizar e gerar renda contínua.
A participação do secretário estadual Marcelo Miranda trouxe ao debate a articulação entre cultura, desenvolvimento econômico e sustentabilidade. A proposta de integrar agendas culturais a estratégias de geração de renda e promoção de identidades regionais demonstra avanço, mas também coloca pressão para que o Estado estruture mecanismos mais sólidos de apoio técnico, monitoramento e transparência.
Uma das discussões mais extensas do seminário ocorreu nas rodas de conversa, que trouxeram análises profundas sobre os desafios de sobreviver da economia criativa. O debate sobre feiras culturais revelou um cenário composto por iniciativas potentes, mas ainda vulneráveis. Produtoras de diferentes regiões apresentaram modelos que se tornaram referência local, mas que enfrentam instabilidade provocada pela falta de regulamentação, ausência de espaços permanentes, burocracia excessiva e dependência de apoios temporários. O encontro mostrou que feiras criativas têm potencial para reorganizar economias de bairro, gerar microempreendedorismo, incluir jovens e mulheres e fortalecer redes locais, desde que governos municipais assumam compromisso real com políticas de longo prazo.
Na mesa sobre financiamento, o debate ganhou amplitude com a análise de editais, leis de incentivo, dificuldades de captação e entraves que historicamente impedem a democratização dos recursos. A digitalização dos editais foi reconhecida como avanço, mas os participantes foram enfáticos ao afirmar que a capacitação técnica ainda é insuficiente, especialmente no interior. A falta de conhecimento sobre prestação de contas, elaboração de projetos e mecanismos de incentivo fiscal ainda exclui grande parte dos criadores que desejam acessar políticas públicas.
A fala de Eduardo Mendes destacou a importância da busca ativa de grupos marginalizados e reforçou que o Estado só alcança diversidade quando rompe com modelos centralizadores. A ampliação da participação de quilombolas e indígenas nos editais recentes demonstrou que políticas inclusivas não dependem apenas de tecnologia, mas também de iniciativa institucional.
Outros participantes trouxeram reflexões que ampliam o debate. Pedro Ortale ressaltou a urgência de ocupar espaços públicos de forma estratégica, integrando cultura e identidade, fortalecendo circuitos simbólicos que consolidam pertencimento e criam oportunidades de circulação. Vítor Samudio debateu o caráter público da cultura e criticou a visão de que o setor pode funcionar baseado apenas em mercado. A cultura, segundo ele, cumpre função social e necessita de investimento governamental contínuo, sob risco de se tornar apenas entretenimento comercial.
A análise de Ítalo Milhomem sobre o investimento privado expôs uma potencialidade pouco explorada: a capacidade de mobilização de contribuintes que poderiam ampliar significativamente o financiamento da cultura se houvesse mais clareza nos mecanismos de dedução fiscal. A complexidade burocrática e a insegurança jurídica continuam sendo barreiras que afastam empresas e limitam o impacto de leis de incentivo.
O deputado Júnior Mochi encerrou o debate anunciando mudanças legais que podem redefinir os rumos do financiamento cultural. A ampliação dos percentuais permitidos para destinação de recursos via leis de incentivo cria um novo campo para projetos do interior, que historicamente sofrem com a concentração de recursos em áreas urbanas maiores.
As apresentações dos Territórios Criativos reforçaram a diversidade do Estado. Regiões com identidades distintas mostraram que ações estruturadas podem gerar impacto real quando acompanhadas de planejamento e engajamento comunitário. A integração entre Fronteira, Pantanal e Bioceânica revelou que a cultura pode ser ferramenta de desenvolvimento, desde que receba suporte técnico, continuidade e planejamento territorial.
O lançamento do Portal MS Cultural representa uma resposta concreta às demandas por organização, centralização de informações e acesso simplificado a dados, serviços e editais. A plataforma surge como instrumento estratégico para pesquisadores, produtores, gestores e cidadãos, e pode se tornar um marco na modernização da gestão cultural do Estado.
O seminário concluiu que a economia criativa de Mato Grosso do Sul vive um momento de reorganização, no qual avanços são visíveis, mas desafios permanecem profundos. A consolidação de políticas culturais depende de articulação entre municípios, coragem para enfrentar desigualdades, fortalecimento de mecanismos de financiamento e compreensão de que cultura não é complemento administrativo, mas parte essencial da economia, da identidade e do futuro do Estado.
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