O Conselho Municipal de Saúde de Campo Grande está em polvorosa com denúncias de irregularidades graves no Fundo Municipal de Saúde, incluindo suspeita de desvio de R$ 580 milhões em recursos públicos. Em reunião realizada no dia 28 de janeiro, conselheiros ligam o controle social ao setor e cobraram explicações urgentes da prefeitura sobre a discrepância entre os altos repasses orçamentários e a qualidade precária dos serviços prestados à população. Unidades de saúde sucateadas, falta de remédios básicos e profissionais ausentes formam o dia a dia de quem depende do sistema, uma realidade que contrasta com os números otimistas divulgados pela gestão atual, comandada pela prefeita Adriane Lopes.
A falta de transparência domina as críticas. Antônio Elias, coordenador da Comissão de Orçamento e Finanças do conselho, relatou dificuldades para acessar documentos completos sobre as contas públicas. Ele disse que parte dos relatórios enviados pela prefeitura não responde às demandas específicas dos fiscalizadores, especialmente em valores apontados em denúncias antigas. Elias questionou a ausência de notas explicativas sobre grandes blocos de verba e pediu detalhes minuciosos de programas chave da saúde, como vacinação em massa e atendimento emergencial. Além disso, cobrou auditorias independentes e indicadores reais de metas cumpridas, para checar se as promessas de melhoria viraram fato nas ruas e UPAs da cidade.
A suspeita de desvio de R$ 580 milhões ganhou destaque na fala de Luciane Passadeli, conselheira regional que acompanha o caso desde 2018. Ela anunciou que vai levar o tema para o nível estadual e reforçou que já protocolou dossiês na Câmara Municipal, no Tribunal de Contas do Estado, no Tribunal de Contas da União e em outros órgãos de fiscalização. Apesar de comissões abertas e materiais recebidos, Passadeli lamenta a falta de respostas concretas ou análises técnicas profundas. Ela defende que os tribunais emitam pareceres oficiais sobre as prestações de contas, facilitando o trabalho dos conselheiros e vereadores. O conselho, segundo ela, está no limite para aprovar contas só com ressalvas, sem aval externo que dê segurança aos números apresentados.
Essas cobranças ecoam uma série de polêmicas que marcam a gestão de Adriane Lopes na Secretaria Municipal de Saúde. Moradores e profissionais relatam sumiço de prontuários médicos em várias unidades, o que complica tratamentos contínuos e gera desconfiança. A falta de remédios básicos, como analgésicos, antibióticos e insulina, virou rotina em farmácias públicas, forçando pacientes a comprar no particular ou recorrer a doações. Mães de crianças com atipias, condição que exige cuidados especiais, enfrentam escassez de medicamentos e até de alimentação adequada para os filhos, com relatos de filas intermináveis e promessas não cumpridas.
A demora para marcar exames especializados assombra o sistema, com esperas que chegam a meses para ressonâncias, tomografias e consultas com médicos como cardiologistas, oncologistas e neurologistas. Essa lentidão alimentou o termo “fila da morte” entre usuários, que veem agravamento de quadros graves por falta de agilidade. Médicos especialistas sumiram de plantões, muitos alegando atrasos em pagamentos, enquanto casos de gazeteiros — profissionais que faltam sem justificativa — se multiplicaram, deixando UPAs e hospitais subatendidos. Agressões a funcionários por pacientes desesperados viraram notícia recorrente, reflexo da tensão em serviços sobrecarregados e mal equipados.
Processos na Justiça se acumulam contra a prefeitura. Um deles questiona a falta de estrutura em maternidades, onde partos de risco são transferidos de última hora para o interior ou capitais vizinhas. Outro cobra indenizações por erros médicos ligados à ausência de exames preventivos, como mamografias e colonoscopias. Vereadores da oposição já pediram CPIs para investigar contratos de locação de equipamentos e compras de insumos superfaturados, que teriam inflado os gastos sem melhorar o atendimento. A gestão Adriane Lopes responde com reformas parciais em algumas unidades e campanhas de vacinação, mas conselheiros dizem que os números não batem com a percepção da rua.
O sucateamento vai além dos prédios. Ar-condicionados quebrados, falta de luvas e seringas em postos periféricos e elevadores parados em hospitais regionais pintam um quadro de abandono. Profissionais da linha de frente reclamam de jornadas exaustivas sem reposição de pessoal, o que leva a erros e esgotamento. Famílias de bairros como Segredo, Coophasul e Nova Lima descrevem UPAs vazias de médicos à noite, forçando corridas ao HRMS ou ao pronto-socorro central. Esses problemas, somados aos R$ 580 milhões sob suspeita, pressionam o conselho a endurecer a fiscalização e acionar promotores para evitar que verbas evaporem sem deixar rastro.
A prefeitura tem prazo curto para responder às demandas do conselho, sob risco de reprovação das contas e intervenção judicial. Enquanto isso, a população cobra ação imediata: mais médicos nas unidades, estoque cheio de remédios e fim das filas que custam vidas. O caso expõe as fragilidades do sistema de saúde pública em Campo Grande, onde bilhões circulam, mas o atendimento patina.
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