Mato Grosso do Sul, 21 de junho de 2026
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Crise no seguro rural lança produtores ao risco e compromete a próxima safra no Brasil

Congelamento bilionário no orçamento da subvenção federal paralisa apólices, reduz drasticamente a cobertura agrícola e projeta o menor nível de lavouras seguradas em sete anos, diante de um cenário de juros altos, inadimplência governamental e incertezas climáticas
Foto: iStock/Mapa
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O mercado de seguro rural brasileiro enfrenta, em 2025, o que pode ser o ano mais crítico desde sua consolidação. O congelamento de quase metade dos recursos destinados à subvenção federal deixa o setor em estado de alerta, com impacto direto sobre a proteção das lavouras, a renda dos agricultores e a segurança alimentar nacional. Sem garantias, os produtores veem-se obrigados a assumir os riscos da produção em plena previsão de La Niña para o início de 2026.

O Brasil inicia o segundo semestre de 2025 sob o espectro de uma crise silenciosa, porém devastadora, no setor agrícola: o colapso do seguro rural. Em meio a um esforço do governo federal para controlar os gastos públicos, R$ 445 milhões do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) foram congelados, o que corresponde a 42% da verba inicialmente aprovada de R$ 1,06 bilhão. A consequência imediata é um drástico recuo na contratação de apólices e a projeção de cobertura inferior a 5 milhões de hectares de lavouras — o pior desempenho desde 2018.

Com a escassez de recursos públicos para subsidiar os custos do seguro, que em geral cobre entre 20% e 40% do valor dos prêmios, milhares de agricultores estão sendo forçados a abrir mão dessa proteção, ficando expostos a perdas severas por eventos climáticos e oscilações de mercado. A safra de verão, em especial a de soja, que ocupa posição estratégica na balança comercial do país, corre risco elevado diante da previsão da ocorrência do fenômeno climático La Niña em fevereiro de 2026, justamente na fase de colheita.

A paralisação parcial do PSR ocorre em um momento de grande vulnerabilidade para o setor produtivo, que já sofre com juros elevados, margens operacionais reduzidas e aumento nos custos de insumos e frete. A combinação desses fatores transformou o seguro rural, historicamente considerado um instrumento de proteção e estabilidade, em um item de luxo para a maioria dos produtores.

Segundo Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), o setor havia se preparado para cobrir até 20 milhões de hectares em 2025, respaldado por capital das resseguradoras. No entanto, diante do congelamento, a projeção desabou para algo entre 4 e 5 milhões de hectares segurados. Trata-se de um cenário ainda mais alarmante se comparado aos 13,6 milhões de hectares cobertos em 2021.

Para as seguradoras, o impacto também é profundo. A retração na contratação de apólices está gerando uma queda nas receitas prevista entre 30% e 40% para o ano. Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) mostram que, entre janeiro e maio, a arrecadação de prêmios de seguro agrícola e pecuário caiu quase 18%, totalizando R$ 1,6 bilhão. Além disso, há um passivo acumulado de R$ 129 milhões que o governo ainda não quitou, referente a apólices contratadas em 2024, comprometendo o fluxo de caixa das companhias e atrasando os pagamentos de sinistros de eventos como as geadas na safra de inverno.

O cenário causa apreensão também quanto ao futuro da cadeia do agronegócio. A contratação de seguros, especialmente para grãos de verão, deveria estar em seu pico entre maio e setembro, mas está praticamente estagnada. Para Leonardo Paixão, CEO da Sombrero Seguros, a situação atual contraria toda a lógica de planejamento agrícola. A empresa, que esperava alcançar até 400 mil hectares segurados neste ciclo, já admite que não atingirá sequer metade desse patamar.

Rodrigo Motroni, vice-presidente da Newe Seguros, afirma que o corte na subvenção comprometeu a adesão dos produtores e já é tratado pelo mercado como definitivo. Segundo ele, os R$ 445 milhões bloqueados poderiam ter viabilizado até R$ 37 bilhões em importância segurada, caso fossem aplicados somente no seguro de soja.

A falta de previsibilidade nos repasses por parte do governo federal amplia a incerteza. O Ministério da Agricultura afirma que as contratações permanecem ativas, à espera do desbloqueio dos recursos pelo Ministério do Planejamento, previsto, de forma ainda incerta, para depois do dia 30 de julho. Para piorar, a subvenção de R$ 179 milhões para as apólices contratadas na safra de inverno também continua pendente.

A complexidade da crise se aprofunda com o fenômeno da chamada “anti-seleção”. Com a escassez de recursos, as seguradoras identificam que os produtores com menor tecnificação ou pior avaliação de crédito são os que mais procuram as apólices subsidiadas, elevando o risco sistêmico para as companhias. Simultaneamente, agricultores do Centro-Sul, que vêm enfrentando safras frustradas, buscam seguros mais baratos, porém com coberturas limitadas — uma combinação arriscada em termos operacionais e financeiros.

Com a lentidão na liberação da verba, a cadeia produtiva se vê encurralada. A não quitação das apólices de 2024, somada à paralisação de novas contratações, paralisa o mercado em um momento crucial para o planejamento da próxima safra. A competitividade brasileira no agronegócio está sendo colocada à prova justamente no ano em que o país busca ampliar sua liderança nas exportações agrícolas e consolidar sua imagem como potência sustentável global.

O descompasso entre planejamento agrícola e execução orçamentária levanta um alerta grave: sem mecanismos eficazes de proteção ao produtor, o risco recai não apenas sobre os agricultores, mas sobre toda a segurança alimentar do país. A instabilidade climática, somada à instabilidade fiscal, forma um coquetel perigoso que compromete o futuro da agricultura nacional.

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