A cena política do Paraguai mergulhou em uma crise de grandes proporções após a morte do deputado Eulalio “Lalo” Gómez, ocorrida no dia 18 de agosto de 2024, durante uma operação policial em Pedro Juan Caballero, na fronteira com a cidade brasileira de Ponta Porã. O episódio, marcado por circunstâncias controversas e ainda não totalmente esclarecidas, desencadeou uma onda de protestos e culminou, dias depois, no protocolo de um pedido formal de impeachment contra o presidente Santiago Peña, apresentado pelo próprio Partido Colorado, legenda à qual o chefe do Executivo e o parlamentar pertenciam.
O pedido foi protocolado na Câmara dos Deputados na sexta-feira, 22 de agosto, e assinado pelo dirigente partidário Alcides Ortega. No documento, o partido atribui ao governo de Peña responsabilidade direta pela morte do deputado Gómez, além de apontar graves irregularidades que, segundo os autores da denúncia, comprometem a legitimidade do atual mandatário no cargo. Entre as acusações estão conflito de interesses por vínculos financeiros com o sistema previdenciário e até mesmo a prática de “traição à Pátria”.
A trajetória política de Santiago Peña
Santiago Peña, economista de formação e considerado por muitos como uma das figuras emergentes do Partido Colorado, foi eleito presidente em 2023, em meio a uma campanha marcada pela forte influência do ex-presidente Horacio Cartes, de quem era aliado próximo. Antes de assumir a presidência, Peña havia ocupado o cargo de ministro da Fazenda e se destacado como técnico de perfil liberal, defensor da modernização da economia paraguaia e da abertura ao capital estrangeiro.
Apesar da vitória eleitoral, seu governo já vinha enfrentando questionamentos sobre independência em relação a Cartes e sobre a forma de condução da política externa e da administração pública. As acusações de conflito de interesses envolvendo sua ligação com o Ueno Bank e o sistema previdenciário apenas reforçaram a percepção de que Peña estaria distante das exigências constitucionais de imparcialidade e ética que se esperam de um chefe de Estado.
O peso político de Eulalio Gómez
O deputado Eulalio “Lalo” Gómez, morto durante a polêmica operação policial, era uma liderança consolidada dentro do Partido Colorado e com grande base de apoio no interior do país, especialmente em regiões próximas à fronteira. Conhecido por seu discurso firme em defesa do agronegócio e pela articulação com lideranças locais, Gómez possuía espaço de influência que incomodava setores tanto do governo quanto de grupos de oposição.
A sua morte, portanto, não apenas abalou o meio político pela forma violenta em que ocorreu, mas também pelo significado simbólico: um parlamentar em pleno exercício de mandato, protegido por imunidade, ser abatido em sua própria residência por forças estatais. Para muitos, o episódio sinaliza não apenas um excesso de poder policial, mas uma grave ameaça às garantias constitucionais que sustentam a democracia paraguaia.

Deputado Eulalio “Lalo” Gómez
O conflito institucional e a escalada da crise
A tensão atual se insere em um contexto mais amplo de choques recorrentes entre Executivo, Legislativo e Judiciário no Paraguai. Nos últimos anos, o país tem enfrentado episódios de instabilidade institucional, como as denúncias de corrupção contra ex-presidentes, disputas internas no próprio Partido Colorado e pressões de setores da sociedade civil por maior transparência no uso de recursos públicos.
O impeachment, embora ainda em fase inicial de tramitação, reacende memórias de crises anteriores, como a destituição do ex-presidente Fernando Lugo em 2012, que ocorreu em meio a forte contestação internacional e críticas de que o processo havia sido conduzido de maneira sumária. Agora, o processo contra Peña apresenta paralelos, embora com agravantes, já que o pedido parte de dentro de sua própria base partidária, revelando um racha que pode comprometer sua governabilidade.
Outro elemento central nessa crise é o impacto internacional. O acordo migratório com os Estados Unidos, apontado pelos denunciantes como traição à pátria, divide opiniões. Enquanto setores governistas defendem que o pacto fortalece a cooperação internacional, críticos enxergam a medida como submissão a interesses externos e como uma violação da soberania nacional. Essa acusação, somada ao episódio da morte de Gómez, amplia a narrativa de que Peña estaria conduzindo o país por caminhos que fragilizam as instituições e colocam em risco a autonomia política do Paraguai.
O papel do Brasil e da fronteira
A morte de Gómez em Pedro Juan Caballero, cidade fronteiriça com Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, trouxe o Brasil diretamente para o centro das atenções. A região é historicamente marcada por forte integração econômica e social, mas também por desafios ligados ao narcotráfico, contrabando e violência armada. A instabilidade política no Paraguai preocupa autoridades brasileiras, que acompanham o caso com cautela diante dos possíveis reflexos na segurança e no comércio fronteiriço.
Um futuro incerto
Nos próximos dias, a Câmara dos Deputados paraguaia deverá deliberar sobre a admissibilidade do pedido de impeachment. Caso seja aprovado, o processo terá potencial de abalar profundamente não apenas o governo de Peña, mas também a unidade do Partido Colorado, legenda que há décadas domina o cenário político paraguaio.
O caso, já chamado por analistas de “crise de Pedro Juan”, pode se tornar um divisor de águas na política nacional, abrindo caminho para um período de instabilidade e redefinição de forças dentro do país. Para a sociedade paraguaia, o episódio coloca em evidência o dilema entre a manutenção da ordem institucional e a necessidade de responsabilização de autoridades por abusos e excessos cometidos no exercício do poder.
O futuro político de Santiago Peña permanece em aberto. Entre as acusações de traição, os vínculos empresariais suspeitos, o isolamento dentro do próprio partido e a pressão popular que cresce nas ruas, o presidente enfrenta o maior desafio de sua carreira. O Paraguai, por sua vez, encontra-se em uma encruzilhada histórica, na qual o desfecho desta crise poderá definir não apenas a permanência ou não de Peña no poder, mas também a credibilidade de suas instituições democráticas diante do mundo.
#ImpeachmentParaguai #SantiagoPeña #DeputadoEulalioGómez #PedroJuanCaballero #CrisePolitica #PartidoColorado #JusticaParaguai #TraicaoAPatria #CongressoParaguai #AmericaDoSul #PoliticaExterna #FronteiraPontaPorã