Nas prateleiras dos supermercados e nas feiras populares, o alívio começou a se fazer sentir: o custo da cesta básica apresentou queda em 22 das 27 capitais brasileiras entre agosto e setembro. Os alimentos que compõem o dia a dia como tomate, arroz, batata e café em pó foram os protagonistas desse movimento de recuo, e em várias regiões a redução foi acentuada, refletindo fatores de safra, logística e ajustes nas políticas de abastecimento.
As capitais que mais registraram queda foram Fortaleza, com retração de 6,31 %, seguida por Palmas (‑5,91 %), Rio Branco (‑3,16 %), São Luís (‑3,15 %) e Teresina (‑2,63 %). Em sentido oposto, algumas regiões mantiveram estabilidade ou registraram leves aumentos, mas o balanço geral favoreceu o consumidor.
Em Fortaleza, por exemplo, a cesta que custava acima de R$ 700 foi oferecida por cerca de R$ 677 em setembro, recuo que representa economia relevante para famílias de menor renda. No extremo oposto, São Paulo continua com a cesta de valores mais elevados do país, o que evidencia as disparidades regionais no custo de vida.
Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, o cenário foi diferente: o custo da cesta básica registrou aumento de 1,55 % em relação ao mês anterior, alcançando R$ 780,67. O café em pó foi o principal responsável por essa alta, com variação de 4,32 %, acumulando valorização de 69,71 % nos últimos 12 meses e pressionando significativamente o orçamento das famílias. Outros itens como arroz e batata também contribuíram para elevar o valor da cesta.
Os menores valores médios foram encontrados em capitais do Norte e do Nordeste: Aracaju (R$ 552,65), Maceió (R$ 593,17), Salvador (R$ 601,74), Natal (R$ 610,27) e João Pessoa (R$ 610,93). Essas regiões, com composição diferenciada da cesta — muitas vezes com alimentos regionais e menor influência de transporte de longa distância — conseguiram amenizar o impacto das oscilações nacionais.
A queda nos preços se explica, em parte, pela maior oferta em safras bem sucedidas, especialmente nos setores de hortifrutigranjeiros. O tomate, por exemplo, teve redução em 26 capitais, com recuo que variou de 3,32 % até impressionantes 47,61 % em Palmas. Apenas Macapá escapou da tendência e registrou alta de 4,41 %.
O arroz agulhinha — alimento central para milhões de brasileiros — caiu de preço em 25 capitais, mesmo diante de forte demanda externa. Essa dinâmica ocorreu graças à produção recorde da safra 2024/25, que manteve o excedente interno elevado. As maiores quedas foram registradas em Natal (‑6,45 %) e Brasília (‑5,33 %).
Também se destacaram as quedas no açúcar (‑17,01 % em Belém; recuos menores em outras cidades), batata (até ‑21 % em algumas regiões do Centro‑Sul), e café em pó (em 14 capitais, com destaque para recuos próximos a 2,9 % no Rio de Janeiro).
Em compensação, a carne bovina de primeira apresentou queda em apenas 11 capitais, enquanto em 16 registrou elevação, o que indica que esse produto segue mais volátil, sensível a fatores climáticos, custos de produção e fluxo de exportação.
Ao observar o acumulado do trimestre que compreende julho a setembro, os dados reforçam a tendência de retração: 25 das 27 capitais exibiram queda no custo da cesta. Fortaleza liderou essa queda acumulada com ‑8,96 %. Só Macapá e Campo Grande registraram aumento no período.
Uma mudança metodológica implementada em 2025 também contribuiu para dar transparência e amplitude ao levantamento: a Conab e o Dieese expandiram a coleta de preços de 17 para 27 capitais para compor a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, fortalecendo o monitoramento e a representatividade regional.
As autoridades federais comemoram os resultados como indício de que medidas de regulação, incentivo à produção e políticas de abastecimento adotadas nos últimos meses estariam surtindo efeito. O governo anunciou ações como isenção de impostos de importação para alguns produtos alimentícios, estímulos à produção interna e fortalecimento de estoques reguladores com repasses orçamentários extras para a Conab.
No entanto, especialistas alertam que essas reduções, embora significativas, são apenas parte de um cenário mais complexo. Mesmo com recuos nos preços, o custo da cesta permanece elevado para grande parte da população, especialmente para aqueles com renda limitada. A inflação nos alimentos segue pressionada por fatores externos como clima, dólar, logística, insumos agrícolas e variações globais de demanda.
Outro ponto destacado pelos analistas é a importância de consolidar estoques estratégicos e melhorar a eficiência de transporte e logística, para que os recuos de preço não sejam temporários. A articulação entre governo, produtores, cooperativas e redes varejistas será decisiva para manter a tendência favorável.
Para as famílias brasileiras, essas quedas significam um respiro no orçamento, mas com cautela: no país em que grande parte da renda destina-se à alimentação, oscilações se refletem diretamente nas condições de vida. Resta ao governo garantir que essas quedas não sejam apenas episódicas, mas sustentadas e distribuídas com justiça entre regiões.
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