Mato Grosso do Sul, 21 de junho de 2026
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Dólar fecha abaixo de R$ 5,50 pela primeira vez em oito meses em meio a alívio e cenário monetário favorável ao real

Moeda norte-americana perde força diante da busca diplomática entre Irã e Israel, expectativa de manutenção da Selic e fortalecimento econômico da China, criando ambiente positivo para emergentes como o Brasil
Foto: iStock.com/MicroStockHub
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A cotação do dólar comercial encerrou esta segunda-feira, 16 de junho, em seu nível mais baixo dos últimos oito meses, fechando em R$ 5,485, com recuo expressivo de 1,03%. O patamar rompeu uma importante barreira psicológica abaixo dos R$ 5,50, algo que não se observava desde outubro de 2024. A expressiva valorização do real ocorreu mesmo em um cenário de elevada tensão geopolítica internacional, provocada pela escalada do conflito entre Irã e Israel, o que, em situações habituais, pressionaria as moedas de países emergentes como o Brasil.

O movimento, porém, seguiu a tendência internacional. Ao mesmo tempo, o Ibovespa também reagiu positivamente e encerrou o dia com alta de 1,49%, alcançando 139.258 pontos, refletindo a recuperação do apetite por risco entre os investidores.

Segundo especialistas, um dos principais fatores que impulsionaram a valorização da moeda brasileira foi o fato de o conflito no Oriente Médio não ter se ampliado para outros países da região, o que trouxe certo alívio aos mercados globais. Declarações conciliatórias e a sinalização de que o Irã estaria disposto a buscar uma solução diplomática ajudaram a conter o temor de uma guerra em larga escala. A posição de neutralidade adotada pelos Estados Unidos também contribuiu para reduzir as tensões. O ex-presidente Donald Trump afirmou, nesta segunda, que acredita na disposição do Irã para negociar e defendeu o diálogo como alternativa à escalada bélica.

A economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa, pontua que os investidores reagiram positivamente ao desdobramento diplomático do conflito. “Com a percepção de que a situação tende a ser contida, houve uma retomada da busca por risco. O real e outras moedas de países emergentes, como o rand sul-africano e o peso colombiano, foram beneficiados por esse movimento”, explica Costa.

Outro ponto de sustentação para o real foi o desempenho acima do esperado da economia chinesa, maior parceiro comercial do Brasil. O país asiático registrou um crescimento de 6,4% nas vendas do varejo em maio, acima dos 5,1% de abril e superando as projeções de 4,9%. Os dados positivos da China indicam uma recuperação mais sólida da atividade econômica, o que tende a impulsionar a demanda por commodities brasileiras e, consequentemente, o fluxo cambial.

No plano doméstico, a valorização do real ocorre às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que irá deliberar sobre a nova taxa básica de juros brasileira. O mercado se divide entre a possibilidade de uma redução de 0,25 ponto percentual ou a manutenção da Selic no atual patamar de 14,75%. Em ambos os cenários, os juros reais elevados no Brasil continuam sendo um atrativo para o capital estrangeiro.

Esse diferencial de juros, especialmente em comparação com os Estados Unidos, favorece operações conhecidas como carry trade, em que investidores captam recursos em países com juros baixos e os aplicam em mercados com retorno mais elevado, como o Brasil. Essa dinâmica aumenta a entrada de dólares no país e contribui para a valorização do real.

Nicolas Gomes, especialista em câmbio da Manchester Investimentos, afirma que a postura mais conservadora do Banco Central deve ser mantida, e isso sustenta o ambiente positivo para a moeda brasileira. “Mesmo com a inflação sob controle, os juros altos ainda fazem com que o Brasil seja um destino atrativo. Se o Copom optar por manter a taxa, o real pode continuar firme”, avalia Gomes.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve também se reúne nesta semana para definir sua taxa de juros. Apesar da expectativa de manutenção no encontro de junho, os analistas acreditam que a primeira redução virá em setembro, o que tende a reforçar o diferencial de juros em favor do Brasil.

Tradicionalmente considerado um ativo de proteção, o dólar perdeu força em um momento em que, paradoxalmente, os riscos globais aumentaram. A moeda norte-americana chegou a subir na última sexta-feira, após os primeiros bombardeios entre Israel e Irã, mas a reação dos mercados foi moderada. Nesta segunda, divisas de diversas economias emergentes se valorizaram frente ao dólar. O rand sul-africano avançou 0,72%, o peso colombiano 0,65%, o sol peruano 0,42% e o won sul-coreano 0,31%.

Para Marianna Costa, a atual fragilidade do dólar também está relacionada a fatores internos dos Estados Unidos. O alto déficit fiscal tem gerado desconfiança entre os investidores, que passaram a exigir um prêmio maior para se manterem expostos à dívida americana. “A política fiscal dos EUA está cada vez mais pressionada, e isso também tem peso sobre a moeda. Há uma percepção crescente de que os fundamentos fiscais não são sustentáveis no médio prazo”, observa a economista.

Outro elemento que adiciona incerteza à moeda norte-americana são as medidas comerciais do governo Trump. Em abril, o presidente elevou tarifas de importação para todos os parceiros comerciais, mas suspendeu temporariamente a aplicação das novas alíquotas por 90 dias. Esse prazo se encerra no início de julho, e uma nova rodada de tarifas unilaterais pode reacender temores de desaceleração econômica, o que já vem impactando as expectativas sobre o desempenho da economia dos EUA ao longo do segundo semestre.

Enquanto o ambiente global permanece volátil, o real desfruta de um raro momento de força e estabilidade. Resta saber se esse alívio será duradouro ou apenas mais uma pausa temporária no cenário instável que marca o mercado cambial em 2025.

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