A eleição municipal de Campo Grande, que garantiu a reeleição da prefeita Adriane Lopes, do Partido Progressistas (PP), pode sofrer uma reviravolta. A Justiça Eleitoral investiga uma denúncia grave de compra de votos que teria influenciado diretamente no resultado do segundo turno. Entre as provas do processo, está um Pix de R$ 1,2 mil realizado por Simone Bastos Vieira, assessora da prefeitura e que, até outubro de 2024, era lotada no gabinete da prefeita.
A denúncia foi apresentada pelo Democracia Cristã e pelo PDT, que alegam que a compra de votos foi decisiva para a vitória de Adriane, que conquistou 222.699 votos contra 210.112 da adversária Rose Modesto, do União Brasil. A diferença de 12.587 votos foi a menor registrada em Campo Grande desde 1996, o que reforça o impacto que a suposta fraude pode ter tido no resultado.
Para o procurador regional eleitoral Luiz Gustavo Mantovani, há elementos suficientes para comprovar a prática da chamada “captação ilícita de sufrágio” nome jurídico para a compra de votos. Segundo ele, a ação teve participação indireta da prefeita e foi realizada com sua anuência.
As principais provas contra Adriane Lopes
A investigação reúne diversas evidências que indicam um esquema de compra de votos para garantir a reeleição da prefeita. Entre os principais indícios apresentados no processo, destacam-se:
- Pix de R$ 1,2 mil realizado por Simone Bastos Vieira, assessora do gabinete da prefeita, para Sebastião Martins Vieira, o Tião da Horta, supostamente como pagamento por votos.
- Depoimento de Adriana Cristina Campagnoli de Oliveira, que afirmou ter visto Tião da Horta no comitê de campanha de Adriane na véspera do segundo turno, reforçando a ligação entre ele e a equipe da prefeita.
- Registro de que Simone Bastos Vieira ocupava um cargo comissionado na prefeitura e recebia salário de R$ 5.359,59 até dezembro de 2024, sem estar oficialmente vinculada à campanha eleitoral, levantando suspeitas sobre o uso da estrutura pública no esquema.
- Ausência de Simone, Tião da Horta e Marcos Paulo Amorim Pegoraro na prestação de contas da campanha de Adriane, o que indica que os pagamentos foram feitos por fora do sistema oficial.
- Segundo esquema de compra de votos via Pix, no qual um genro de uma testemunha admitiu ter recebido dinheiro e distribuído entre eleitores que votaram na prefeita.
- Comprovantes de transferências bancárias sequenciais, mostrando a distribuição do dinheiro para várias pessoas em datas próximas ao primeiro turno das eleições.
Pagamento via Pix levanta suspeitas e liga nomes da prefeitura ao esquema
O principal indício apontado no processo é um Pix de R$ 1,2 mil, realizado pela assessora Simone Bastos Vieira para Sebastião Martins Vieira, conhecido como Tião da Horta. A operação financeira se tornou uma peça-chave na investigação, pois reforça o depoimento de testemunhas que afirmam que ele esteve diretamente envolvido no esquema de compra de votos.
Segundo Adriana Cristina Campagnoli de Oliveira, outra assessora da prefeitura, Tião da Horta foi visto no comitê de campanha de Adriane na véspera do segundo turno, no dia 26 de outubro de 2024. Esse depoimento, junto com os registros financeiros, constrói uma narrativa que liga diretamente membros do gabinete da prefeita ao caso.
Além disso, a investigação aponta que Simone Bastos Vieira, que fez o Pix, ocupava um cargo comissionado na prefeitura, com salário de R$ 5.359,59. O Portal da Transparência confirma sua lotação no gabinete de Adriane até dezembro de 2024, mas não há registros de que tenha sido reconduzida após a eleição.
O que chama ainda mais atenção é que nem Simone, nem Tião da Horta e nem Marcos Paulo Amorim Pegoraro apontado como um dos articuladores do esquema constam na prestação de contas da campanha de Adriane como voluntários ou cabos eleitorais remunerados. Para o procurador Mantovani, essa omissão reforça a suspeita de que os pagamentos foram feitos de forma irregular para garantir votos à prefeita.
Outros pagamentos via Pix apontam para esquema maior
O processo também cita outro caso semelhante, no qual cabos eleitorais teriam sido pagos via Pix. Uma testemunha revelou que seu genro negociou votos de 15 eleitores em favor de Adriane, recebendo o pagamento através da conta bancária da filha.
O procurador detalhou as transações financeiras suspeitas, que ocorreram na semana anterior ao primeiro turno. O valor de R$ 800 foi enviado para Ana Paula Machado de Casemiro, filha da testemunha, que por sua vez distribuiu quantias menores para outros beneficiários.
Esse segundo caso, segundo Mantovani, confirma um padrão de pagamento a eleitores por meio de terceiros, o que configura compra de votos e pode resultar na cassação do mandato da prefeita.
Defesa tenta desqualificar testemunha, mas áudio revela envolvimento
A defesa de Adriane Lopes tenta desqualificar as denúncias alegando que Tião da Horta, um dos principais envolvidos, era na verdade cabo eleitoral de Rose Modesto. Para sustentar essa versão, os advogados da prefeita apresentaram um áudio no qual ele pede votos para a candidata adversária.
No entanto, a estratégia da defesa foi desmontada pelo próprio Tião, que explicou à Justiça que gravou o áudio como uma brincadeira e que ele circulou no grupo de campanha de Adriane, do qual fazia parte. Essa revelação enfraquece o argumento da prefeita e reforça a tese da acusação de que ele trabalhava, de fato, para sua reeleição.
Caso pode parar no Tribunal Superior Eleitoral
Com o parecer favorável do Ministério Público Eleitoral pela cassação do mandato, o processo agora segue para julgamento no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). O relator do caso é o juiz Alexandre Antunes da Silva.
Se a decisão do TRE for desfavorável a Adriane Lopes, a prefeita ainda pode recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte já cassou políticos por compra de votos em casos anteriores, incluindo um senador e uma deputada federal que, em 2002, perderam seus mandatos por terem pago apenas R$ 26 por dois votos.
No caso de Adriane, as acusações apontam que os valores pagos variavam entre R$ 50 e R$ 100 por eleitor, o que pode pesar ainda mais contra ela no julgamento.
O desfecho desse processo pode mudar os rumos da política em Campo Grande e criar um precedente importante para futuras eleições. Se confirmada a compra de votos, a cidade pode ter novas eleições para o cargo de prefeito, enquanto os envolvidos podem enfrentar sanções severas da Justiça Eleitoral.
Agora, resta aguardar o julgamento e o impacto que essa decisão terá no cenário político da capital sul-mato-grossense.
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