Mato Grosso do Sul, 25 de junho de 2026
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Facção criminosa utiliza rede empresarial e fortalece base estratégica em Mato Grosso do Sul

Investigações revelam esquema sofisticado de lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e tráfico internacional com atuação em Campo Grande, Iguatemi e Dourados
Imagem - Polícia Federal/Divulgação
Imagem - Polícia Federal/Divulgação

As recentes apurações da Polícia Federal e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) apontam Mato Grosso do Sul como um dos principais centros de atuação de uma facção criminosa que opera na fronteira com a Bolívia e o Paraguai. A combinação de rotas estratégicas para o tráfico de drogas, a rede de empresas de fachada e investimentos em combustíveis e serviços financeiros consolidou o estado como uma base logística e financeira essencial para a operação do grupo.

Entre 2020 e 2021, líderes da facção criminosa, como Mohamad Houssein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Loko, expandiram sua atuação para Campo Grande, Iguatemi e Dourados. Na capital, endereços comerciais nobres abrigavam empresas ligadas ao setor de combustíveis e participações societárias que davam lastro financeiro às atividades ilícitas. Em Iguatemi, um complexo empresarial reunia oito empresas em um único endereço, com capital declarado de aproximadamente R$ 36 milhões, funcionando como centro de movimentação e lavagem de dinheiro.

Estrutura empresarial e lavagem de dinheiro

As empresas mais relevantes para a facção estavam em Campo Grande, incluindo a Copape Produtos de Petróleo Ltda., a Gasp Participações e Investimentos S.A. e a Control Participações Ltda. Todas operavam em conexão com a Safra Distribuidora de Petróleo S.A., em Iguatemi, presidida por Armando Hussein Ali Mourad, irmão de Mohamad, que coordenava o fluxo de recursos entre a capital e o interior.

No mesmo endereço em Iguatemi, funcionavam ainda Orizona Combustíveis S.A., Maximus Distribuidora de Combustíveis Ltda., Alpes Distribuidora de Petróleo Ltda., Império Comércio de Petróleo S.A., Star Petróleo S.A., Arka Distribuidora de Combustíveis Ltda. e Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool Ltda. Daniel Dias Lopes, traficante condenado e foragido, figurava como sócio oculto da Arka e articulava a integração entre o tráfico internacional e as empresas de fachada.

Infiltração e conivência de agentes públicos

Documentos judiciais citam o policial civil João Chaves Melchior como possível proprietário de imóvel rural em Iguatemi utilizado para ocultação de bens e lavagem de dinheiro. Preso em Paulínia (SP) na Operação Carbono Oculto, Melchior é investigado por fraude fiscal, adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro, crimes associados à facção criminosa. Apesar de homenagens recebidas da Câmara Municipal de Paulínia, o policial possuía histórico de processos administrativos, demonstrando a fragilidade na fiscalização de agentes públicos que se tornam facilitadores de esquemas criminosos.

Rota do metanol e fraudes em combustíveis

Dourados entrou nas investigações em função de rotas fiscais utilizadas para transporte de metanol, produto autorizado em pequenas proporções, mas usado em até 50% da gasolina de forma ilegal. Caminhões saíam de Paranaguá (PR) com destino declarado a Primavera do Leste (MT), passando por Dourados, mas desviavam para São Paulo, abastecendo postos como o Auto Posto Bixiga, no bairro Bela Vista.

A fraude, apoiada por notas fiscais frias, desviou mais de 10 milhões de litros de metanol, consolidando a estrutura de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro da facção.

Rede bilionária e alcance nacional

Segundo estimativas da Justiça de São Paulo, a rede empresarial ligada à facção movimentava mais de R$ 8 bilhões, com matrizes e filiais em Mato Grosso do Sul e em cidades estratégicas como Guarulhos, Osasco e Senador Canedo. O modelo adotado permitia ao grupo diversificar sua atuação econômica, mantendo operações ilícitas e dificultando a rastreabilidade de recursos.

Embora não tenham sido registradas ações policiais diretas em Mato Grosso do Sul até o momento, a presença de Dourados e Iguatemi nos documentos investigativos evidencia a importância estratégica do estado na logística e na sustentabilidade financeira da facção.

Impactos sociais e desafios de segurança

Especialistas em segurança pública alertam que a consolidação dessa facção em Mato Grosso do Sul não apenas evidencia seu poder econômico, mas também a infiltração em setores estratégicos da economia e a manipulação de agentes públicos. A consequência direta para a população é a expansão da criminalidade, o aumento da violência e a fragilização das instituições locais.

O desafio das autoridades é desarticular o núcleo empresarial e logístico da facção, garantindo que Mato Grosso do Sul não continue sendo uma base estratégica para o tráfico internacional, lavagem de dinheiro e corrupção. A integração entre forças federais, estaduais e internacionais é apontada como essencial para enfrentar a complexidade da operação criminosa.

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