Mato Grosso do Sul, 14 de julho de 2026
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Governo avalia proibição de antimicrobianos na pecuária para tentar recuperar mercado europeu de carnes

Medida em análise busca atender exigências da União Europeia, enquanto produtores, frigoríficos e autoridades discutem impactos na produção, nos custos do campo, nas exportações e no preço da carne para os consumidores
Foto: Gilson Paulo Costa
Foto: Gilson Paulo Costa

O governo federal intensificou as discussões sobre uma possível proibição do uso de antimicrobianos na pecuária brasileira em uma tentativa de atender às exigências da União Europeia e restabelecer o acesso das carnes nacionais ao mercado europeu. A proposta ganhou força nas últimas semanas e passou a ser tratada como um dos principais temas da agenda envolvendo o agronegócio, o comércio internacional e a política econômica, diante dos impactos que a decisão poderá provocar em toda a cadeia produtiva da carne.

A avaliação ocorre em um momento considerado decisivo para as exportações brasileiras. Desde que o bloco europeu anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer produtos de origem animal, o governo passou a buscar alternativas para reverter a decisão antes que as restrições produzam efeitos mais amplos sobre o comércio exterior.

Nos bastidores de Brasília, o assunto passou a mobilizar diferentes áreas do governo, representantes da indústria frigorífica, técnicos do setor agropecuário e entidades ligadas aos produtores rurais. O objetivo é encontrar uma solução capaz de atender às exigências sanitárias internacionais sem provocar prejuízos significativos para a produção pecuária brasileira.

A possibilidade de proibir os antimicrobianos surgiu como uma forma de demonstrar compromisso com as regras exigidas pelos países europeus. A expectativa de parte dos defensores da proposta é que uma medida dessa natureza fortaleça a posição do Brasil nas negociações diplomáticas e permita a abertura de um novo diálogo para a criação de um período de transição até que todos os mecanismos de controle estejam plenamente implantados.

Nos últimos meses, o tema passou a integrar reuniões estratégicas do governo federal. A discussão envolve tanto os aspectos sanitários quanto os reflexos econômicos que uma eventual mudança poderá provocar em um dos setores mais importantes da economia brasileira.

A União Europeia exige que os países exportadores comprovem que os animais destinados ao abate não receberam determinados antimicrobianos durante todo o seu ciclo de vida. Essa comprovação é considerada um dos principais obstáculos enfrentados atualmente pelo Brasil, especialmente na cadeia da carne bovina.

Enquanto alguns segmentos conseguem atender essa exigência com maior facilidade, como ocorre na avicultura, a situação da bovinocultura apresenta um grau de complexidade muito maior. O ciclo produtivo do gado é longo e envolve diferentes etapas, desde o nascimento até o abate, passando frequentemente por duas ou três propriedades rurais antes de chegar aos frigoríficos.

Esse processo exige um sistema de rastreabilidade completo, capaz de acompanhar toda a movimentação do animal ao longo de aproximadamente dois anos de criação. Além disso, seria necessário comprovar oficialmente que não houve utilização das substâncias durante todo esse período.

Diante dessa realidade, o governo brasileiro buscou negociar um prazo maior para adaptar o sistema nacional às exigências internacionais. A proposta previa que, inicialmente, fosse comprovada apenas a ausência do uso dos antimicrobianos nos últimos meses de vida dos bovinos, etapa considerada mais viável para fiscalização em animais mantidos em confinamento ou sistemas intensivos de produção.

Entretanto, essa alternativa não foi aceita pelos europeus, aumentando a pressão para que o Brasil apresente novas soluções capazes de garantir o cumprimento integral das exigências sanitárias.

Nos últimos meses, algumas substâncias utilizadas na produção pecuária já tiveram restrições ampliadas. Agora, a possibilidade de um veto mais abrangente passou a ser analisada como uma estratégia para fortalecer a negociação internacional e demonstrar disposição do país em adaptar sua legislação às normas exigidas pelos compradores europeus.

Apesar disso, a proposta ainda divide opiniões dentro do próprio governo e também entre representantes do setor produtivo. Enquanto parte da indústria frigorífica considera que a medida pode facilitar a retomada das exportações para a União Europeia, produtores rurais manifestam preocupação com os efeitos econômicos da mudança.

Entre os principais argumentos apresentados pelos pecuaristas está o aumento dos custos de produção. Muitos afirmam que determinados antimicrobianos também desempenham papel importante na eficiência alimentar dos animais, permitindo melhor aproveitamento da ração e redução do tempo necessário para atingir o peso ideal de abate.

Uma das maiores preocupações envolve a monensina, produto amplamente utilizado na alimentação bovina para melhorar o desempenho dos rebanhos. Caso a substância seja proibida, produtores alertam que será necessário substituir o produto por alternativas mais caras, elevando significativamente os custos da atividade pecuária.

Estudos técnicos elaborados pelo próprio setor indicam que a retirada da monensina poderá gerar despesas adicionais superiores a R$ 2 bilhões apenas na cadeia da bovinocultura de corte. O cálculo considera milhões de animais criados em sistemas intensivos e semi-intensivos, que passariam a consumir maior quantidade de alimento para alcançar o peso exigido pelo mercado.

Outro ponto de preocupação envolve as exportações destinadas à China, atualmente o principal comprador da carne bovina brasileira. O mercado chinês estabelece limite máximo de idade para o abate dos animais, fator que torna ainda mais importante a eficiência alimentar durante o período de criação.

Caso o tempo necessário para engorda aumente em razão da retirada dos antimicrobianos, parte dos produtores teme dificuldades para manter o padrão exigido pelos importadores chineses, colocando em risco um dos mercados mais importantes para o agronegócio nacional.

Atualmente, a China responde por mais da metade das exportações brasileiras de carne bovina. Somente em 2025, o país asiático adquiriu aproximadamente 1,7 milhão de toneladas do produto brasileiro, movimentando cerca de US$ 8,8 bilhões em receitas para o setor.

Já a União Europeia representa um mercado menor em volume, mas estratégico pela elevada valorização dos produtos exportados. No mesmo período, o bloco europeu importou cerca de 128 mil toneladas de carne bovina brasileira, gerando aproximadamente US$ 1 bilhão em negócios.

Além da preocupação com as exportações, o governo também acompanha possíveis reflexos sobre o mercado interno. Caso os custos de produção aumentem de forma significativa, especialistas avaliam que parte dessas despesas poderá ser repassada ao consumidor, influenciando os preços da carne nos supermercados e açougues.

Ao mesmo tempo, integrantes do governo entendem que a recuperação do acesso ao mercado europeu pode trazer benefícios importantes para o comércio exterior brasileiro, fortalecendo a imagem sanitária do país e ampliando oportunidades para novos acordos internacionais.

Enquanto as negociações seguem em andamento, representantes do setor agropecuário continuam defendendo que exigências específicas de determinados mercados não sejam automaticamente transformadas em obrigações para toda a pecuária nacional. Para essas entidades, qualquer alteração nas regras deve considerar os impactos econômicos, produtivos e sociais para milhares de produtores rurais espalhados pelo país.

As próximas semanas serão decisivas para o avanço das conversas entre o Brasil e a União Europeia. O governo trabalha para buscar uma solução que preserve a competitividade da pecuária brasileira, mantenha o acesso aos principais mercados internacionais e ofereça segurança jurídica aos produtores, sem comprometer a capacidade de produção de um dos setores mais relevantes da economia nacional.

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