A suposta agressão de uma onça-pintada a um morador da área urbana de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, ocorrida na noite da última quarta-feira (6), foi reavaliada por um conjunto de órgãos ambientais e de saúde que concluíram pela inexistência de qualquer ataque por parte do felino. Técnicos do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), da Polícia Militar Ambiental (PMA), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Fundação Municipal de Meio Ambiente de Corumbá analisaram minuciosamente os fatos e os laudos médicos apresentados e descartaram que o morador, identificado como Valdinei da Silva Pereira, de 57 anos, tenha sido vítima de uma agressão.
O presidente do IHP, Ângelo Rabelo, esclareceu que a contestação dos relatos de Valdinei se baseia não apenas nos exames médicos, que indicaram apenas ferimentos superficiais incompatíveis com ataques de animais de grande porte, mas também nas avaliações de veterinários e especialistas em comportamento animal. Além disso, equipes dos órgãos ambientais realizaram buscas no local indicado e entrevistaram moradores da região, constatando ausência de vestígios que corroborassem a versão do suposto ataque. “Ele nem estaria no nosso meio para narrar se realmente tivesse sido atacado. A onça não possui histórico de agressão a pessoas, isso não é característico do comportamento dela”, enfatizou Rabelo.
Valdinei da Silva Pereira relatou ter sofrido um “baque” e que chegou a dar um “safanão” no animal durante o episódio. O morador também afirmou que já havia perseguido a onça com um pedaço de pau em outra ocasião. No entanto, a Polícia Militar Ambiental reforçou que o atendimento médico registrou ferimentos superficiais, e descartou que tenham sido provocados por um animal de grande porte, liberando o paciente após os procedimentos iniciais.
A Polícia Militar Ambiental emitiu nota tranquilizando a população local e negando a ocorrência de ataques ou confrontos com onças na cidade. Segundo o comunicado, as únicas informações oficiais referem-se a avistamentos do felino nas áreas urbanas, fato que, apesar de incomum, tem sido registrado em função das variações climáticas e ambientais no Pantanal.
Ângelo Rabelo destacou que o episódio recente que resultou na morte do caseiro Jorge Ávalo, atacado por uma onça em Touro Morto, no Pantanal de Aquidauana, é uma exceção que está ligada à prática irregular da “ceva” – o ato de alimentar animais silvestres para habituá-los à presença humana. Segundo o presidente do IHP, esse comportamento provoca a ruptura do limite natural de segurança entre homem e animal, expondo as pessoas a riscos fatais. “Todos os animais têm um limite de segurança de aproximação, e naquele caso, foi extrapolado”, explicou.

Equipe visita local onde a onça esteve (Foto: Divulgação/IHP)
No contexto de Corumbá, a aproximação das onças às áreas urbanas é associada às alterações no ciclo natural de cheias e secas do Pantanal, que afetam a disponibilidade de alimento e levam os animais a se deslocarem para outras regiões, incluindo zonas habitadas por humanos. Comunidades ribeirinhas também vêm enfrentando essa situação, que reflete as mudanças ambientais decorrentes do clima e da interferência humana.
O Instituto Homem Pantaneiro, em parceria com órgãos ambientais, tem promovido uma campanha de conscientização para orientar os moradores a não reagirem com pânico ou medo diante dos avistamentos das onças. Para Ângelo Rabelo, a presença do animal é um sinal positivo da conservação da fauna no Pantanal. “Somos um estado que tem o privilégio de ter essa e outras espécies silvestres habitando. Isso significa que elas não foram destruídas. Esse fato pode e deve se tornar um atrativo turístico e ecológico, que gere renda e oportunidades para a população local”, ressaltou.
Entre as medidas práticas adotadas pelo instituto para minimizar conflitos entre humanos e onças está a instalação de equipamentos de iluminação em áreas residenciais, que auxiliam na inibição da presença dos felinos próximos às casas, garantindo a segurança das comunidades sem prejudicar os animais.
O caso de Corumbá reforça a necessidade de equilibrar a convivência entre o ser humano e a natureza, especialmente em regiões sensíveis como o Pantanal, onde a biodiversidade é rica e única. A preservação do ambiente natural, aliada a ações de educação ambiental e políticas públicas efetivas, é essencial para que o desenvolvimento local possa caminhar junto à proteção dos ecossistemas e das espécies que deles dependem.
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