Mato Grosso do Sul, 13 de junho de 2026
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Nomeação de réu por homicídio gera questionamentos sobre critérios de acesso a cargos públicos em Mato Grosso do Sul

Ex-assessor do Governo assume função no Tribunal de Contas enquanto aguarda julgamento por morte de pescador
Nivaldo Thiago pegou a família e evadiu-se do local do acidente sem prestar socorro.
Nivaldo Thiago pegou a família e evadiu-se do local do acidente sem prestar socorro.

A nomeação de Nivaldo Thiago Souza Filho para um cargo comissionado no Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul trouxe à tona novas discussões sobre a responsabilidade administrativa no processo de escolha de servidores que exercem funções estratégicas. Réu por homicídio doloso e duas tentativas de homicídio decorrentes de um acidente de barco ocorrido no Rio Miranda, ele foi designado para atuar como chefe de gabinete do conselheiro Sérgio de Paula, com remuneração que pode alcançar R$ 40 mil mensais somando vencimentos e benefícios. A decisão de sua contratação reacendeu atenções sobre o alinhamento entre confiança política e histórico judicial de ocupantes de postos de destaque.

A indicação ocorreu pouco tempo antes de Nivaldo enfrentar júri popular, cuja data depende de tramitação no Tribunal de Justiça. Mesmo respondendo ao processo criminal, ele apresentou a documentação exigida para assumir o cargo, incluindo certidões negativas, e teve o nome aprovado para integrar a estrutura interna do Tribunal. O conselheiro responsável pela indicação justificou sua escolha mencionando confiança pessoal e a experiência adquirida quando ambos trabalharam no Governo do Estado.

Antes de ingressar no Tribunal de Contas, Nivaldo atuava na Casa Civil, também em função comissionada, onde recebia salário bruto de pouco mais de R$ 30 mil. A mudança para o novo órgão ampliou os valores de sua remuneração, já que o cargo atual oferece adicionais como vale-alimentação, auxílio transporte, educação infantil e complementos de saúde. O conjunto de benefícios colocou sua remuneração entre as mais altas da estrutura administrativa estadual.

O processo criminal que envolve o novo chefe de gabinete é resultado de um acidente registrado em 1º de maio de 2021, durante o feriado do Trabalhador. Na época, Nivaldo conduzia uma embarcação sem habilitação pelo Rio Miranda, na região turística conhecida como Touro Morto, quando colidiu frontalmente com outro barco onde estavam três pescadores. O impacto causou a morte de Carlos Américo Duarte e ferimentos em outras duas pessoas, que tiveram atendimento após a colisão.

As investigações apontaram indícios de que o réu teria deixado o local logo após o acidente, sem prestar socorro às vítimas e sem realizar o teste de alcoolemia solicitado posteriormente. O Ministério Público denunciou o caso como homicídio doloso, sustentando que a forma como o barco era conduzido, aliada à falta de habilitação e ao abandono do local, configurariam responsabilidade direta pela morte e pelos ferimentos registrados.

A juíza responsável pela Vara Criminal de Aquidauana pronunciou Nivaldo para julgamento perante o Tribunal do Júri, etapa que aguarda definição de data conforme a análise pendente no Tribunal de Justiça. O processo segue ativo e, até conclusão do julgamento, permanece em curso a possibilidade de condenação.

A nomeação de um réu a um cargo de chefia dentro de um órgão cuja função é fiscalizar contas públicas, procedimentos administrativos e atos de gestão tem estimulado novos debates sobre os limites éticos e institucionais que envolvem indicações políticas. Embora a legislação permita a nomeação desde que atendidas as exigências documentais, a presença de processos criminais em andamento costuma suscitar questionamentos sobre critérios de mérito, imagem institucional e responsabilidade com a gestão pública.

A situação reacende a discussão sobre como a administração pública equilibra confiança política, requisitos legais e expectativas sociais de integridade. O caso torna-se ainda mais sensível pela relevância do Tribunal de Contas na estrutura de fiscalização e pelo papel estratégico desempenhado por chefes de gabinete, que atuam diretamente no fluxo administrativo, na articulação interna e na organização das ações do conselheiro.

À espera do júri, o processo segue avançando, enquanto a nomeação já produz repercussões dentro e fora do meio político. A oficialização de um réu ocupando posto de alto nível no Tribunal mantém o tema em evidência e reforça a necessidade de parâmetros transparentes na escolha de servidores comissionados, especialmente para funções de confiança em instituições cuja missão é assegurar regularidade, eficiência e credibilidade no serviço público.

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