O governo federal lançou neste início de julho o Plano Safra 2025/2026, estabelecendo um novo marco na política de crédito rural brasileira. Com um volume recorde de R$ 594,4 bilhões, o programa financiará a produção agrícola nacional ao longo dos próximos 12 meses, atendendo pequenos, médios e grandes produtores. Os recursos se destinam à agricultura empresarial e familiar e têm como finalidade custear produção, investimentos, industrialização e comercialização de alimentos em todo o território nacional.
Apesar do anúncio histórico em volume, a nova edição do plano chega marcada por desafios e ressalvas importantes do setor produtivo. A alta das taxas de juros, a queda nos subsídios para equalização de taxas e o efeito inflacionário sobre os valores reais do crédito foram pontos centrais nas críticas de entidades representativas do agronegócio.
Divisão de recursos: mais crédito, menos poder de compra
Do total de R$ 594,4 bilhões, cerca de R$ 516,2 bilhões foram direcionados à agricultura empresarial, enquanto a agricultura familiar, atendida principalmente pelo Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), receberá R$ 78,2 bilhões. Em comparação com o ciclo anterior (2024/25), houve um crescimento de 1,7% no montante total — aumento considerado insuficiente por muitos, dada a inflação acumulada acima de 5% no último ano.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontou que, em termos reais, houve perda de capacidade de financiamento, especialmente para os médios produtores. Essa avaliação é reforçada pela elevação das taxas de juros em praticamente todas as linhas, fator que pode comprometer a viabilidade econômica dos empréstimos para parte significativa dos agricultores.
Juros mais altos em cenário de aperto fiscal
A elevação das taxas de juros foi justificada pela equipe econômica como consequência direta do aumento da taxa Selic, que atingiu 15% ao ano, além da limitação orçamentária para subsidiar os financiamentos. Com isso, os juros do crédito rural para a agricultura empresarial variam agora entre 8,5% e 14% ao ano. Para os médios produtores atendidos pelo Pronamp, a taxa subiu de 8% para 10% ao ano. Para os grandes, o custeio chega agora a 14%.
Na agricultura familiar, algumas taxas se mantiveram mais acessíveis, como os 3% ao ano para alimentos da cesta básica e 2% para produção agroecológica. Ainda assim, cultivos como soja, milho, café e pecuária de corte podem chegar a 8% ao ano. O valor destinado à equalização de juros sofreu corte expressivo: caiu de R$ 5,6 bilhões para R$ 3,9 bilhões.
Linhas de crédito, prioridades e novos programas
O novo plano trouxe a manutenção de importantes programas de financiamento, bem como o lançamento de novas frentes voltadas à inovação, conectividade, habitação e sustentabilidade. Na agricultura empresarial, destacam-se:
- R$ 414,7 bilhões para custeio da produção
- R$ 101,5 bilhões para investimento em tecnologia e infraestrutura
- Reforço em programas como Moderfrota, PCA (armazenagem), RenovAgro, Proirriga e Inovagro
No PCA, o limite de financiamento dobrou, passando de 6 mil para 12 mil toneladas. O RenovAgro ampliou sua abrangência, passando a cobrir também projetos de reflorestamento e combate a incêndios.
Para a agricultura familiar, o plano ampliou programas já consolidados como:
- Pronaf Mais Alimentos (máquinas e equipamentos com juros de 2,5% ao ano)
- Pronaf Bioeconomia (agroindústrias e extrativismo sustentável)
- Pronaf Agroecologia, Mulher, Jovem, Floresta, Semiárido e Pronaf B (microcrédito com 0,5% ao ano)
Houve ainda a criação do Pronara, voltado à redução do uso de agrotóxicos, e a obrigatoriedade do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) para créditos acima de R$ 200 mil.
Sustentabilidade e exigências climáticas no centro do plano
A sustentabilidade surge como pilar do Plano Safra 2025/26. Linhas de crédito verdes, com juros reduzidos, passaram a contemplar práticas como sistemas agroflorestais, agricultura regenerativa, uso de energias renováveis e integração lavoura-pecuária-floresta. A concessão de crédito também passou a exigir maior rigor quanto ao zoneamento climático e ao cumprimento da legislação ambiental.
Produtos da sociobiodiversidade também foram incluídos nas políticas de garantia de preços mínimos, marcando uma guinada para valorizar práticas de baixo impacto e fortalecimento da produção comunitária.
Reações: críticas, preocupações e reconhecimento parcial
Apesar das inovações e do volume recorde, o Plano Safra gerou reações divergentes entre representantes do setor agropecuário. A CNA classificou o programa como insuficiente, especialmente para os médios produtores, criticando o aumento das taxas de juros e o baixo volume destinado a investimentos. A bancada ruralista reforçou críticas à elevação dos custos, à queda nos recursos para o seguro rural e ao que chamou de “burocratização excessiva”.
Por outro lado, ambientalistas reconheceram avanços nas linhas sustentáveis, embora tenham cobrado critérios mais rígidos para concessão de crédito, como a exclusão de propriedades com desmatamento ilegal ou envolvimento com trabalho análogo à escravidão. Já movimentos sociais rurais destacaram os ganhos da agricultura familiar, mas defenderam maior celeridade na reforma agrária e fortalecimento da assistência técnica pública.
A imprensa e o retrato de um plano caro
A cobertura da mídia nacional destacou tanto os avanços quanto os desafios do novo plano. Veículos como CNN Brasil e Globo Rural enfatizaram o recorde nominal de recursos, mas também chamaram atenção para os juros elevados e a perda real do poder de financiamento. Plataformas como Brasil de Fato e Compre Rural deram ênfase à desigualdade entre agricultura empresarial e familiar e aos riscos de endividamento crescente.
Conclusão: entre o esforço fiscal e a necessidade de adaptação
O Plano Safra 2025/26 evidencia o esforço do governo federal em manter o financiamento do setor agropecuário em meio a restrições fiscais severas. Traz recursos robustos e boas oportunidades para quem se adapta às exigências da produção sustentável. No entanto, o desafio agora é garantir a efetividade da execução, ampliar o acesso aos financiamentos com justiça social e assegurar que pequenos e médios produtores não fiquem à margem do crédito rural.
A nova safra já começou, e com ela, a responsabilidade compartilhada entre produtores, governo e instituições financeiras de fazer valer cada centavo investido na terra, no trabalho e na colheita de um futuro mais equilibrado e produtivo.
#PlanoSafra2025 #CréditoRuralBrasil #AgriculturaFamiliar #SustentabilidadeNoCampo #JurosAltosNoAgro #ProduçãoRuralBrasileira #RenovAgroEPronaf #SeguroRuralJá #AgronegócioBrasileiro #ReformaAgráriaUrgente #FinanciamentoVerde #ZonaDeRiscoClimático