A Polícia Federal deflagrou uma ampla operação contra o tráfico internacional de drogas por via aérea, revelando um sofisticado esquema que utilizava empresas de aviação e pulverização agrícola como fachada para o transporte de entorpecentes entre países da América do Sul. A Operação Red Flag, conduzida por agentes federais com apoio de equipes especializadas em crimes organizados, cumpriu mandados de busca e apreensão em diversos estados brasileiros e trouxe à tona o envolvimento de empresários ligados ao setor aeronáutico e a figuras conhecidas do grande público.
A ofensiva policial teve como foco o desmantelamento de uma estrutura criminosa articulada a partir da região de Araçatuba, interior de São Paulo, com ramificações que alcançavam o Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em território sul-mato-grossense, três mandados foram cumpridos: um em uma oficina aeronáutica situada nas dependências do Aeroporto Santa Maria, e dois em Aral Moreira, onde funcionam empresas do ramo de aviação agrícola.
Em Campo Grande, a ação teve como alvo a empresa New Tacape Manutenção de Aeronaves Ltda., especializada em manutenção e reparo de aeronaves. Constituída em julho de 2025, a companhia possui três sócios e capital social de R$ 100 mil. Um dos sócios é Cláudio de Souza Leal, que já figurou como testemunha de defesa de Ilmar de Souza Chaves, conhecido como “Pixoxó”, apontado como um dos principais operadores aéreos do narcotráfico na região.
Segundo informações apuradas, “Pixoxó” era responsável por pilotar aeronaves utilizadas no transporte de grandes carregamentos de cocaína oriundos da Bolívia e do Paraguai, com destino a aeroportos clandestinos no interior do Brasil. Ele foi preso diversas vezes, tendo fugido de um presídio no Paraguai em 2007 e sido recapturado durante a Operação Cavok, em 2020, quando a Polícia Federal desmantelou uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro e tráfico internacional de entorpecentes. Sua condenação mais recente, proferida pela 3ª Vara Federal de Campo Grande, soma 7 anos e 7 meses por lavagem de dinheiro, além de 20 anos de prisão por tráfico internacional de drogas.
Outro ponto de investigação se concentra na empresa Romaer Aviação Agrícola Ltda., situada em Aral Moreira, aberta em 2007 e dedicada a serviços de pulverização e controle de pragas agrícolas. A empresa tem como sócios Fabíola Cristina e Ronald Alves Cordeiro, o Ronnie, irmão do campeão do programa Big Brother Brasil 12, Fael Cordeiro. A Polícia Federal cumpriu mandado de busca na sede da Romaer, com o objetivo de verificar possíveis vínculos da empresa com a estrutura logística utilizada pelo grupo criminoso. Até o momento, os empresários não se manifestaram sobre o caso.
As investigações indicam que as empresas ligadas ao grupo serviam para disfarçar a movimentação financeira e facilitar a manutenção das aeronaves utilizadas no transporte da droga. Documentos apreendidos apontam que os aviões eram registrados em nome de terceiros, numa tentativa de ocultar o patrimônio e dificultar o rastreamento pelas autoridades.

Um dos presos na operação foi Gilmar Aparecido Dellabella, proprietário da Nova Ensaios Não Destrutivos Ltda., empresa com nome fantasia Nova Aviação, registrada em 2009. Ele é apontado como um dos financiadores das operações de transporte ilícito, atuando ao lado de “Pixoxó” e intermediando contratos que simulavam serviços técnicos aeronáuticos.
De acordo com os investigadores, o esquema operava de forma altamente estruturada, contando com pilotos experientes, técnicos em aviação e empresários do setor para garantir a regularidade aparente das atividades. A logística incluía o uso de pistas clandestinas, fazendas de fachada e empresas que, na prática, funcionavam como pontos de apoio para abastecimento e manutenção de aeronaves.
A Polícia Federal afirma que a Operação Red Flag representa um avanço importante no combate ao narcotráfico aéreo, modalidade de crime que exige grande capacidade logística e envolve altos valores. As investigações continuam em sigilo, e novas fases da operação não estão descartadas, com o objetivo de identificar todos os envolvidos e rastrear o destino dos recursos obtidos com o tráfico.
A ação reforça o alerta sobre o uso do espaço aéreo brasileiro por organizações criminosas que buscam rotas alternativas para o transporte de drogas, aproveitando-se da vasta malha de pequenas aeronaves e aeródromos particulares. O caso expõe ainda a complexidade de um crime que, ao longo dos anos, passou a utilizar meios cada vez mais sofisticados para operar sob a aparência de legalidade.
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