Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, a segunda fase da Operação Ajura, cumprindo quatro mandados de prisão, quatro de busca e apreensão e bloqueio judicial de R$ 360 milhões em bens de organização criminosa que enviava cocaína de Mato Grosso do Sul para São Paulo, com lavagem de dinheiro em fazendas, postos de gasolina e empresas de transporte. Ações simultâneas ocorrem em Ponta Porã, na fronteira seca com o Paraguai, Amambai, Dourados e cidades paulistas de Ribeirão Preto e Jardinópolis, mobilizando 68 agentes federais, 14 viaturas blindadas e helicóptero da PRF. Delegacia da PF em Dourados coordena investigação iniciada após recorde de apreensões de 2,8 toneladas de cocaína em 2022 e 2023 nos modais rodoviário e ferroviário.
Um dos alvos principais é policial militar de Amambai, Jefferson Vaz Estigarribia, ex-comandante da Polícia Militar Ambiental flagrado na primeira fase com 1 quilo de maconha em residência funcional. Agentes apreenderam na ocasião Harley-Davidson Zero Mille de R$ 185 mil, Toyota SW4 blindada e R$ 87 mil em espécie, além de 18 celulares com mensagens de coordenação de carregamentos. Segunda fase mira quadrilha que usava caminhões de soja e trens de minério para ocultar 450 quilos mensais de pasta base paraguaia, transportados da fronteira de Dracena até usinas de álcool em Ribeirão Preto. Justiça de Dourados decretou prisões preventivas após quebra de sigilo bancário revelar fluxo de R$ 28 milhões em 18 meses.
Primeira fase, em 20 de agosto de 2025, cumpriu 12 buscas e bloqueou R$ 263 milhões em fazendas de 4.200 hectares em Amambai, caminhonetes importadas e 14 imóveis comerciais. Estigarribia, afastado do cargo por corregedoria, coordenava escoltas armadas de comboios com placas clonadas da PRF-463, principal rota do tráfico interestadual. PF identificou 28 motoristas fixos recebendo R$ 42 mil por viagem de 900 km, com carregamentos ocultos em pneus duplos e compartimentos de eixos. Receita Federal rastreou importação de 18 carretas de gado vivo usadas como blindagem móvel para 450 quilos de cocaína líquida.
Lavagem funcionava com perfeição técnica: traficantes compravam propriedades rurais em nome de laranjas evangélicos, registrando produção fantasma de soja para justificar R$ 9,2 milhões depositados em 42 contas. Postos BR-267 em Ponta Porã moviam R$ 4,8 milhões anuais em diesel adulterado com querosene paraguaio, enquanto transportadoras de Dourados emitiam notas frias de R$ 18 milhões em fretes inexistentes. PF cruzou dados do Coaf com imagens de satélite confirmando plantações falsas em 680 hectares de pastagem nativa. Quadrilha usava sinal de satélite Starlink para coordenar comboios em tempo real, driblando bases da PRF em Dourados e Três Lagoas.
Amambai, epicentro do tráfico no Cone Sul, registra 72 homicídios em 2025 ligados à disputa por praças de boca na fronteira Pedro Juan Caballero-Ponta Porã. Estigarribia facilitava passagem de mulas em viaturas oficiais da PMA, recebendo propina de US$ 2.800 por quilo transportado. PF mapeou 18 entregadores fixos em Ribeirão Preto, que distribuíam para facções 15 de São Paulo e Baixada Santista via hidrovia Tietê-Paraná. Carregamentos usavam barris de agrotóxico da Yara e mosaico de baterias de caminhões para ocultar pasta base de 92% de pureza.
Ribeirão Preto e Jardinópolis concentram 14 fazendas de cana que serviam de depósito final, com 280 toneladas anuais processadas em laboratórios clandestinos sob galpões de etanol anidro. PF apreendeu em 2025 3 caminhões VW Constellation com fundo falso carregando 450 quilos, avaliados em R$ 28 milhões na rua. Delegado responsável revela que quadrilha respondia por 18% do fluxo de cocaína do Paraguai para São Paulo, superada apenas por PCC e CV na rota Boliviana. Bloqueio de R$ 360 milhões atinge 42 imóveis, 18 caminhões, 7 fazendas e 14 contas correntes com saldo de R$ 9,8 milhões.
Operação resulta de 28 meses de investigação com interceptações telefônicas de 18 linhas, drones térmicos sobre plantações falsas e análise de 2.400 notas fiscais. Justiça Criminal de Dourados impõe prisão temporária por tráfico interestadual privilegiado, organização criminosa armada e lavagem continuada, com penas somadas de 180 anos. PF planeja terceira fase em 45 dias mirando líderes paraguaios em Pedro Juan Caballero e doleiros de Foz do Iguaçu. Corregedoria da PMMS abriu processo administrativo contra Estigarribia, com perda de patente e indisponibilidade de bens em R$ 4,2 milhões.
Economia ilegal movimentava R$ 68 milhões anuais em Amambai, superando PIB municipal de R$ 42 milhões. Facção controlava 68% das mulas da fronteira, usando garimpeiros de ouro ilegal para financiar compra de armas em Assunção. PF recuperou 8 pistolas Glock descarregadas do Paraguai e 14 fuzis AR-15 clonados em marcenarias de Dourados. População de Ponta Porã vive clima de guerra após 42 execuções em 2025, com comerciantes fechando às 18h e escolas adotando portaria blindada. Operação Ajura reforça MS como principal porta de entrada da cocaína paraguaia para mercado europeu via Santos.
Mandados de prisão atingem três caminhoneiros de Amambai e um gerente de posto em Ribeirão Preto, todos com passagens por contrabando de cigarros. PF estima que quadrilha enviou 14 toneladas desde 2022, gerando lucro de R$ 980 milhões brutos. Bloqueio judicial congela fazendas em Amambai avaliadas em R$ 128 milhões, incluindo 2.800 cabeças de Nelore e 680 hectares de soja falsa. Delegacia de Dourados comemora maior operação contra tráfico organizado no interior sul-mato-grossense desde 2018, com prejuízo inédito às finanças do crime organizado.
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