Mato Grosso do Sul, 2 de julho de 2026
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Polícia Federal revela mensagens que expõem plano para tentar calar jornalista durante investigação do Banco Master

Conversas atribuídas a Daniel Vorcaro e Thiago Miranda apontam estratégia para acompanhar o trabalho de Malu Gaspar, buscar informações sobre sua vida pessoal e até oferecer contrato milionário para afastá-la da cobertura jornalística
Imagem - Colunista de O Globo, era acompanhada de perto pelos investigados Daniel Vorcaro e Thiago Miranda Reprodução/TV
Imagem - Colunista de O Globo, era acompanhada de perto pelos investigados Daniel Vorcaro e Thiago Miranda Reprodução/TV

As investigações da Polícia Federal sobre o caso envolvendo o Banco Master e o BRB passaram a revelar um conjunto de informações que vai muito além da análise de contratos, operações financeiras e documentos empresariais. O material reunido durante a apuração inclui milhares de mensagens, fotografias, vídeos e arquivos extraídos de aparelhos celulares apreendidos, trazendo à tona conversas que, segundo os investigadores, mostram como pessoas ligadas ao caso acompanhavam de forma constante o trabalho de jornalistas responsáveis pela divulgação de reportagens relacionadas às investigações.

Entre os principais elementos que passaram a integrar os autos estão diálogos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao empresário Thiago Miranda, que até maio de 2026 mantinha participação societária no Grupo Leo Dias de Comunicação. As mensagens indicam que ambos monitoravam de maneira permanente a atuação da jornalista Malu Gaspar, conhecida por suas reportagens sobre economia, política e mercado financeiro.

Os diálogos mostram que cada novo contato realizado pela equipe da jornalista, bem como cada reportagem publicada, era imediatamente compartilhado entre os investigados. Questionamentos enviados para obtenção de posicionamentos oficiais eram discutidos em tempo real, enquanto os envolvidos avaliavam possíveis formas de responder às publicações e reduzir os impactos da cobertura jornalística.

Em uma das conversas registradas, Daniel Vorcaro demonstra preocupação com o avanço das reportagens que estavam sendo preparadas. Em determinado momento, afirma que precisava “frear a Malu Gaspar”, acrescentando que seria ela quem lhe daria mais trabalho nos dias seguintes. Na sequência, Thiago Miranda informa possuir uma possível ligação indireta com pessoas próximas à jornalista e comenta que aguardaria os próximos questionamentos que seriam encaminhados por sua equipe.

As conversas se tornam ainda mais delicadas após a publicação de uma das matérias. Segundo os registros incorporados às investigações, Vorcaro afirma que seria necessário tentar encontrar algum fato da vida pessoal da jornalista que pudesse ser utilizado contra ela. A resposta atribuída a Thiago Miranda segue a mesma linha. Ele afirma que iria revirar toda a vida da profissional na tentativa de localizar alguma informação que pudesse ser explorada posteriormente.

As mensagens mostram que essa busca foi efetivamente colocada em prática. Em determinado trecho, Miranda afirma que sua equipe estava procurando informações e que havia localizado até processos antigos envolvendo a jornalista, alguns datados da década de 1990. Apesar do esforço empregado, as buscas não produziram qualquer resultado considerado comprometedor.

Em outra conversa, o empresário chega a admitir que não encontrou nenhum fato relevante relacionado à vida pessoal da jornalista. Segundo as mensagens, ele relata que nem mesmo registros de multas de trânsito haviam sido localizados, concluindo que não existia absolutamente nada que pudesse ser utilizado para descredibilizar sua atuação profissional.

Os arquivos apreendidos também apontam que o monitoramento não se limitava às conversas internas. Entre os documentos localizados pela Polícia Federal está um arquivo identificado como “Carta Proposta Malu Gaspar”, indicando que os investigados passaram a discutir uma estratégia completamente diferente da inicialmente adotada.

Em vez de apenas acompanhar as reportagens ou buscar informações sobre a jornalista, os investigados passaram a cogitar sua contratação para um novo projeto de comunicação. Nas conversas, Thiago Miranda afirma que essa poderia ser uma alternativa rápida para impedir novas publicações consideradas prejudiciais aos interesses de Daniel Vorcaro.

A partir dessa hipótese, surge a ideia de apresentar uma proposta financeira considerada extremamente elevada. As mensagens indicam que Vorcaro defende a elaboração de uma oferta milionária, enquanto Miranda demonstra preocupação ao afirmar que a jornalista aparentemente não seria movida por questões financeiras.

Mesmo diante dessa avaliação, a proposta foi estruturada. Segundo os documentos mencionados nas investigações, o convite previa pagamento de R$ 1,5 milhão a título de luvas, além de salário mensal de R$ 120 mil. A função consistiria em atuar em um portal de notícias ligado ao empresário e apresentar, de segunda a sexta-feira, um programa diário de uma hora voltado para política e economia na Leo Dias TV.

Os diálogos mostram que, em um primeiro momento, os investigados acreditavam existir possibilidade de aceitação da oferta. No entanto, essa expectativa mudou rapidamente após novas publicações jornalísticas envolvendo o Banco Master.

Em mensagens posteriores, Daniel Vorcaro afirma que tanto Malu Gaspar quanto o jornalista Lauro Jardim passaram a publicar reportagens ainda mais contundentes após a tentativa de aproximação. Diante desse cenário, ele conclui que seria melhor interromper qualquer negociação relacionada ao convite profissional.

As conversas seguem registrando a insatisfação dos investigados com o trabalho desenvolvido pela jornalista. Em uma nova troca de mensagens, integrantes da equipe de Malu Gaspar encaminham pedido de posicionamento sobre outra reportagem relacionada ao Banco Master. Ao receber a solicitação, Vorcaro reage com irritação. Thiago Miranda responde demonstrando surpresa com a insistência da cobertura jornalística e questiona até onde a profissional pretendia levar as investigações.

A sequência termina com uma frase atribuída a Daniel Vorcaro, na qual ele afirma que a jornalista pretendia continuar publicando reportagens enquanto ainda existissem elementos para sustentar as apurações.

O conteúdo das mensagens passou a integrar o conjunto de provas analisadas pela Polícia Federal e amplia a dimensão das investigações ao apresentar indícios de estratégias voltadas não apenas para responder às reportagens, mas também para acompanhar a rotina profissional da jornalista, levantar informações sobre sua vida pessoal e discutir alternativas capazes de impedir a continuidade da cobertura.

O caso acrescenta um novo capítulo às investigações envolvendo o Banco Master e o BRB, colocando em evidência discussões sobre a relação entre grupos econômicos investigados e profissionais da imprensa durante grandes apurações de interesse público. O material reunido pelas autoridades deverá continuar sendo analisado no decorrer do processo, enquanto os desdobramentos jurídicos permanecem sob acompanhamento das instituições responsáveis pela investigação.

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