Setor enfrenta recorde de pedidos de proteção judicial em meio ao impacto das tarifas dos Estados Unidos sobre exportações brasileiras, dificuldades climáticas e aumento da Selic. Especialistas alertam para efeitos sobre crédito rural e risco de criação de uma “indústria da recuperação judicial”.
As recuperações judiciais no setor agropecuário alcançaram um dos níveis mais altos já registrados no Brasil e confirmaram uma tendência que preocupa produtores, consultores e instituições financeiras. De acordo com levantamento do Monitor RGF, da consultoria RGF&Associados, o segundo trimestre de 2025 contabilizou 388 empresas agropecuárias em recuperação judicial, o que representa um crescimento de 59,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O movimento reflete não apenas os impactos internos da economia, como juros elevados e encarecimento dos insumos, mas também os reflexos externos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre parte relevante das exportações brasileiras, em especial carne bovina e café, que passaram a sofrer com uma sobretaxa de 50%.
Segundo o sócio da RGF, Rodrigo Gallegos, o resultado já era esperado e tende a se intensificar. Ele explica que o agronegócio demanda capital intensivo e, nesse cenário, é mais vulnerável a crises de liquidez e a restrições de crédito. “O aumento das recuperações judiciais é um reflexo direto de um ambiente econômico mais hostil. Com Selic em patamar elevado e custo de insumos ainda pressionado, empresas que já estavam endividadas agora encontram maiores dificuldades para se sustentar”, destacou.
Os dados mostram que, a cada mil empresas agropecuárias em atividade, 11,49 estão em recuperação judicial. Esse índice é o maior entre todos os setores da economia brasileira, superando com folga a indústria (6,33).
Entre abril e junho, o cultivo de soja liderou os pedidos, com 155 casos, seguido pela criação de bovinos de corte (73) e cana-de-açúcar (43). O cenário adverso se repete também entre produtores pessoa física. Levantamento da Serasa Experian mostra que, no primeiro trimestre deste ano, 195 produtores recorreram à recuperação judicial, alta de 83,9% em comparação ao mesmo período de 2024.
Para a consultora Roberta Gonzaga, também da RGF, fatores externos desempenham papel determinante nesse quadro. “O impacto das tarifas dos Estados Unidos deve continuar pesando sobre a competitividade do agro brasileiro. Vimos com o exemplo das enchentes no Rio Grande do Sul como um único evento pode, em poucos meses, gerar uma onda de recuperações. Agora, as tarifas caminham no mesmo sentido, pressionando margens e ampliando a fragilidade financeira do setor”, afirmou.
Além das questões estruturais e conjunturais, o aumento dos pedidos de recuperação judicial tem provocado consequências diretas sobre o crédito rural. De acordo com Guilherme Rios, assessor técnico da Comissão Nacional de Política Agrícola da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), instituições financeiras passaram a exigir garantias mais rigorosas, reduzir limites de crédito e adotar políticas mais conservadoras. “Com Selic a 15% ao ano, o crédito ficou mais caro e, em muitos casos, inacessível. Isso afeta inclusive produtores em situação saudável, que acabam sendo penalizados pelo risco generalizado do setor”, explicou.
Outro ponto de preocupação é o uso oportunista da recuperação judicial. Especialistas apontam que, em alguns casos, produtores e empresas recorrem ao mecanismo sem preencher todos os requisitos necessários, estimulados por uma espécie de “indústria da recuperação”, o que pressiona ainda mais o mercado de crédito e cria insegurança jurídica.
A fundadora da fintech Agree, Thays Moura, afirma que o cenário tem levado bancos a reavaliar a concessão de crédito em determinadas regiões agrícolas, consideradas mais arriscadas devido ao aumento dos pedidos de proteção judicial. “Apesar da pressão, o agronegócio ainda mantém índices de inadimplência menores do que outros setores da economia, mas a tendência de alta preocupa. Nossa atuação tem sido no sentido de aproximar produtores de alternativas de financiamento que garantam fôlego nesse momento crítico”, disse.
O setor, que nos últimos anos foi protagonista do crescimento econômico brasileiro, enfrenta agora uma encruzilhada. De um lado, colheitas recordes e potencial produtivo. De outro, barreiras externas, custos internos elevados e um ambiente de crédito mais restrito. A continuidade do aumento nas recuperações judiciais deve servir de alerta para autoridades, instituições financeiras e lideranças do agro, que precisam encontrar soluções que garantam sustentabilidade e competitividade ao setor.
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