Mato Grosso do Sul, 2 de julho de 2026
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Réu por feminicídio, músico vai enfrentar júri popular em Campo Grande

Decisão da Justiça confirma que acusado será submetido ao Tribunal do Júri pela morte de Vanessa Ricarte, enquanto processo avança para uma das fases mais importantes do caso que marcou Mato Grosso do Sul
Caio Nascimento durante apresentação em célula de igreja evangélica (Foto: Instagram/Reprodução)
Caio Nascimento durante apresentação em célula de igreja evangélica (Foto: Instagram/Reprodução)

A Justiça deu mais um importante passo na tramitação do processo que apura a morte da jornalista Vanessa Ricarte. O músico Caio César Nascimento Pereira, acusado de assassinar a comunicadora em fevereiro deste ano, será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri, responsável por analisar os crimes dolosos contra a vida. A decisão representa o encerramento de uma das etapas da ação penal e abre caminho para que sete jurados escolhidos entre cidadãos da comunidade decidam se o réu deverá ser condenado ou absolvido.

A determinação foi assinada pelo juiz Carlos Alberto Garcete de Almeida, da 1ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, e teve sua movimentação registrada no Diário da Justiça desta quarta-feira. As partes envolvidas no processo foram oficialmente intimadas da sentença de pronúncia, documento judicial que reconhece a existência de elementos suficientes para que a acusação seja submetida ao julgamento popular.

Como o processo tramita em segredo de justiça, o teor completo da decisão não foi tornado público. Ainda assim, a movimentação confirma que o magistrado entendeu existirem provas e indícios consistentes capazes de justificar a realização do julgamento perante o Tribunal do Júri, órgão constitucionalmente responsável por analisar os crimes contra a vida.

Na sentença, o juiz destaca que há elementos que demonstram a materialidade do crime investigado, permitindo que a acusação de feminicídio seja apreciada pelos jurados. Nesta fase processual, o Judiciário não decide pela culpa ou inocência do acusado. O objetivo da pronúncia é apenas verificar se existem provas suficientes para que o caso seja levado ao julgamento popular, onde caberá aos jurados analisar todas as provas produzidas ao longo da instrução processual antes de chegar ao veredicto.

O crime ocorreu no dia 12 de fevereiro de 2025 e provocou forte repercussão em Mato Grosso do Sul. Vanessa Ricarte foi morta a facadas poucas horas depois de procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher para denunciar o então ex-noivo e solicitar medidas protetivas de urgência.

Na ocasião, a jornalista relatou episódios de violência e buscou proteção judicial diante do cenário que vinha enfrentando. A medida protetiva chegou a ser autorizada pela Justiça, determinando o afastamento do acusado, porém a ordem ainda não havia sido efetivamente cumprida quando o ataque aconteceu.

Após deixar a delegacia, Vanessa retornou ao imóvel onde residia para retirar roupas, documentos e outros pertences pessoais. Ela estava acompanhada por um amigo, que lhe prestava auxílio naquele momento. Foi durante esse retorno que ocorreu o ataque fatal, encerrando de forma trágica uma sequência de acontecimentos que havia começado horas antes com o registro oficial da denúncia.

Durante a fase de instrução processual, o acusado prestou depoimento perante o juiz responsável pelo caso e admitiu ser o autor das facadas que causaram a morte da jornalista. No interrogatório, afirmou que teria agido impulsivamente após uma discussão, alegando que uma frase dita pela vítima teria provocado sua reação. Também declarou não ter planejado previamente o crime e disse não recordar quantos golpes desferiu.

A versão apresentada pela defesa, entretanto, contrasta com diversos elementos reunidos durante as investigações. Antes de morrer, Vanessa enviou mensagens e gravações de áudio para pessoas próximas descrevendo um ambiente de medo constante. Em seus relatos, afirmou viver dias de intenso sofrimento emocional, mencionando episódios de ameaças, exposição da intimidade, perseguição e dificuldades para que o ex-companheiro deixasse o imóvel onde ambos residiam.

Segundo o conjunto de informações reunidas durante a investigação, a jornalista relatava que vinha enfrentando sucessivos episódios de violência psicológica e que sua privacidade havia sido violada com a divulgação de imagens íntimas, circunstâncias que reforçaram sua decisão de procurar ajuda policial e solicitar proteção do Estado.

A denúncia apresentada pelo Ministério Público também incluía acusações relacionadas a cárcere privado, violência psicológica, perseguição e tentativa de homicídio contra o amigo que acompanhava Vanessa no momento do ataque. Durante a análise do processo, porém, o juiz entendeu que parte dessas imputações não possuía elementos suficientes para ser submetida ao Tribunal do Júri.

Com isso, o conselho de sentença deverá analisar principalmente a acusação de feminicídio, além de fatos relacionados às violências praticadas contra a vítima, entre elas perseguição, violência psicológica e cárcere privado. Por outro lado, ficaram excluídas da futura sessão de julgamento as acusações referentes à tentativa de homicídio contra o acompanhante da jornalista e ao crime relacionado à divulgação de cena de nudez, por insuficiência de elementos para encaminhamento ao júri.

A decisão também determina que o acusado permaneça preso preventivamente durante o andamento do processo. O magistrado entendeu que continuam presentes os requisitos legais que justificam a manutenção da prisão cautelar até a realização do julgamento.

Com a sentença de pronúncia, o processo entra agora em uma nova fase processual. A próxima etapa será a organização da sessão do Tribunal do Júri, quando serão definidos os jurados responsáveis por analisar todas as provas, ouvir novamente as manifestações da acusação e da defesa e, ao final dos debates, responder aos quesitos formulados pela Justiça para decidir se o réu será condenado ou absolvido.

A data do julgamento ainda será marcada após o cumprimento dos procedimentos processuais previstos na legislação. Até lá, o processo seguirá sua tramitação normal, incluindo eventuais recursos permitidos pela legislação antes da realização da sessão plenária.

O caso de Vanessa Ricarte continua sendo acompanhado com grande atenção por diversos setores da sociedade, especialmente por envolver uma profissional da imprensa e por reunir circunstâncias relacionadas à violência contra a mulher. A futura sessão do Tribunal do Júri será responsável por apreciar todas as provas produzidas durante a investigação e ao longo da instrução criminal, permitindo que os representantes da sociedade decidam o desfecho judicial de um dos casos de maior repercussão registrados em Mato Grosso do Sul nos últimos anos.

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