Mato Grosso do Sul, 23 de junho de 2026
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Safra de café termina em 56,5 milhões de sacas e confirma recuperação do Conilon

Volume cresceu 4,3% e, apesar da bienalidade negativa do arábica, país registra terceiro maior resultado histórico
Volume cresceu 4,3% em relação à última temporada e foi o terceiro maior da história, informa a Conab
Volume cresceu 4,3% em relação à última temporada e foi o terceiro maior da história, informa a Conab

A colheita de 56,5 milhões de sacas no ciclo 2025/26 combina produtividade reforçada do conilon com perdas atribuídas à bienalidade e ao estresse hídrico nas lavouras de arábica, redesenhando a balança interna de oferta e exigindo ajustes na logística, no mercado e nas políticas públicas voltadas ao setor.

A safra nacional de café de 2025/26 foi encerrada com um resultado que surpreende pela dimensão e pelas nuances regionais: 56,5 milhões de sacas de 60 quilos colhidas, número 4,3% superior ao ciclo anterior e o terceiro maior da série histórica. Por trás do indicativo agregado, no entanto, convivem realidades distintas o vigor do conilon, que puxou a alta, e a retração do arábica, marcada pela bienalidade negativa e por condições climáticas adversas em áreas-chave de produção.

O desempenho do conilon foi o principal motor do crescimento. Com maior regularidade climática e recuperação da produtividade em lavouras adensadas, a produção dessa espécie alcançou 20,8 milhões de sacas, avanço de 42,1% em relação ao ano anterior. Estados com tradição no segmento ampliaram colheitas de forma expressiva, o que reforçou estoques e fornecimento para a indústria de torrefação e para mercados que demandam grãos da espécie.

Em contraste, o arábica registrou queda. Em ano de bienalidade negativa padrão biológico da planta que reduz a carga produtiva em ciclos alternados a colheita foi estimada em 35,76 milhões de sacas, recuo de 9,7% frente à temporada passada. A perda de produtividade média (-8,4%) refletiu não apenas o calendário biológico, mas também episódios de seca e temperaturas elevadas que afetaram frutificação e enchimento dos grãos em regiões de grande relevância para o arábica.

Minas Gerais, maior produtor nacional de café arábica, encerrou o ciclo com 25,17 milhões de sacas, redução de 9,2% um recuo que aponta tanto para a bienalidade quanto para perdas pontuais em áreas submetidas a déficit hídrico. Já outras regiões mostraram perfis heterogêneos: no Cerrado houve ganhos de produtividade em certas parcelas e a Bahia registrou crescimento em arábica na ordem de 2,5%, revelando que fertilidade do solo, manejo e acesso a irrigação seguem determinando resultados distintos.

Para a cadeia produtiva, a combinação entre maior oferta de conilon e menor volume de arábica traz desafios e oportunidades. No mercado interno e internacional, há segmentos que valorizam tipicidade e qualidade do arábica — especialidade, microlotes e certificações e que podem ver a menor oferta como estímulo à valorização de lotes premium. Simultaneamente, o aumento do conilon eleva a disponibilidade para indústrias que empregam blends ou que transformam o produto em cafés solúveis e óleos, pressionando a dinâmica de preços e contratos de venda.

Os agentes do setor também monitoram o impacto nos estoques, na logística e no fluxo de exportações. Uma colheita mais robusta de conilon exige maior capacidade de secagem, armazenagem e transporte em pontos de embarque, enquanto a redução no arábica pode acentuar disputas por lotes de qualidade, deslocando compras e renegociações entre tradings, cooperativas e torrefadores. O ajuste da malha logística é crucial para evitar perdas pós-colheita e preservar padrões de qualidade exigidos por mercados de maior valor agregado.

Do ponto de vista econômico, produtores e cooperativas enfrentam um dilema: a necessidade de investimentos em tecnologia, irrigação e renovação de plantas para reduzir a volatilidade própria à bienalidade e ao clima versus a restrição de caixa decorrente de custos de produção elevados e de variabilidade de preços no mercado internacional. A expectativa por políticas públicas que incentivem a modernização do parque produtivo por meio de linhas de crédito específicas, assistência técnica e programas de fomento à irrigação ganha força entre lideranças do setor.

A sustentabilidade e a qualidade também continuam no topo das prioridades. Técnicas de manejo que melhorem a resiliência da lavoura adensamento racional, renovação de cultivares mais produtivas e tolerantes ao calor, e sistemas agroflorestais aparecem como caminhos para mitigar os efeitos de variações climáticas e para elevar o padrão de grãos destinados a mercados exigentes. Ao mesmo tempo, certificações socioambientais e programas de rastreabilidade permanecem como diferenciais competitivos para exportações de maior valor.

No horizonte comercial, a safra influencia a pauta de exportações, contratos futuros e negociação de prazos com compradores internacionais. A participação do Brasil como principal exportador mundial torna os efeitos domésticos rapidamente transmitidos aos preços em bolsa, ao câmbio e às estratégias de hedge adotadas por tradings e produtores. Em anos de oferta abundante de conilon, fornecedores focam em logística de escoamento; em anos de restrição de arábica, a atenção volta-se para a manutenção de qualidade e para o atendimento de contratos de longo prazo.

A conjuntura também reverbera sobre a mão de obra e a economia regional. O encerramento da colheita mobilizou milhares de trabalhadores sazonais nas regiões cafeeiras, e a magnitude do resultado impacta serviços locais, transporte e pequenos negócios ligados à atividade agrícola. A mecanização avançou em partes da cadeia, reduzindo custo e tempo de campo, mas em determinadas áreas o emprego sazonal ainda é elemento essencial para a renda rural.

Com a safra já consolidada, produtores, indústrias e autoridades passam a planejar o próximo ciclo produtivo. A atenção recai sobre medidas de mitigação de riscos: ampliação de estoques estratégicos, contratos de garantia de compra, diversificação de mercados e estímulos a práticas que tornem a produção menos vulnerável à bienalidade e ao estresse climático. O alinhamento entre políticas agrícolas, pesquisa em melhoramento genético e infraestrutura logística será decisivo para estabilizar renda e competitividade.

Em resumo, o balanço da safra 2025/26 revela um setor em movimento: o Brasil colheu uma das maiores safras de sua história, com dinâmica interna marcada pelo avanço do conilon e pela retração do arábica. O resultado ressalta a capacidade de adaptação do país, ao mesmo tempo em que evidencia a necessidade de investimentos estruturais para enfrentar a volatilidade climática e consolidar cadeias de valor mais resilientes e lucrativas para produtores de todos os portes.

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