Mato Grosso do Sul, 9 de junho de 2026
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Violência digital contra mulheres negras cresce em ritmo alarmante no Brasil

Estudo revela ataques sistemáticos e coordenados que transformam a internet em instrumento de intimidação política
Violência contra a mulher na internet é um problema urgente
Violência contra a mulher na internet é um problema urgente

A violência digital contra mulheres negras em espaços de poder político atingiu patamares alarmantes no Brasil e revela uma ameaça direta ao exercício da democracia. Pesquisa inédita divulgada pelo Instituto Marielle Franco nesta quarta-feira (27), em evento realizado no salão nobre da Câmara dos Deputados, em Brasília, escancara a gravidade dos ataques que transformam o ambiente virtual em palco de perseguição e intimidação.

O levantamento intitulado “Regime de ameaça: a violência política de gênero e raça no âmbito digital (2025)” demonstra que os ataques não são isolados ou ocasionais, mas parte de um sistema organizado que busca afastar mulheres negras da vida pública. Os números impressionam: 71% das ameaças registradas envolveram menções a morte ou estupro, enquanto 63% das ameaças de morte faziam referência direta ao assassinato da vereadora Marielle Franco, transformando esse feminicídio político em um símbolo de advertência brutal.

As principais vítimas dessa violência são mulheres negras cis, trans e travestis, além de ativistas LGBTQIA+, parlamentares, candidatas, defensoras de direitos humanos e lideranças periféricas. Esses grupos, historicamente invisibilizados, são alvo preferencial de um mecanismo de intimidação que revela a intersecção entre racismo, misoginia e estruturas de poder excludentes.

A pesquisa foi construída a partir de atendimentos realizados pelo Instituto Marielle Franco em parceria com organizações como Instituto Alziras, portal AzMina, coletivo Vote LGBT, centro de pesquisa Internet LAB, além de dados da Justiça Global e da Terra de Direitos. A coleta demonstra não apenas a gravidade, mas também a continuidade desses ataques, que se perpetuam em campanhas orquestradas contra mulheres que ousam disputar espaços políticos.

Segundo Luyara Franco, diretora executiva do Instituto e filha de Marielle, o estudo confirma que a violência digital é parte de um mecanismo de exclusão política. “Cada ataque não é apenas uma ofensa individual, mas uma agressão à democracia como um todo. É um recado cruel às mulheres negras que ousam disputar poder”, afirmou.

O relatório apresenta ainda recomendações concretas, como a criação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça. A proposta é que essa política oriente ações conjuntas do Estado, do Legislativo, da sociedade civil e das plataformas digitais para garantir segurança e condições de atuação dignas para mulheres negras no cenário político.

A iniciativa reforça que a violência política de gênero e raça não pode ser tratada apenas como casos isolados, mas como um fenômeno estruturado que exige medidas urgentes. Para especialistas, a omissão do Estado e a falta de responsabilização das plataformas digitais contribuem para perpetuar o ciclo de impunidade, permitindo que a violência se torne um mecanismo de exclusão sistêmica.

Inaugurado em 2019 pela família de Marielle Franco, o Instituto que leva seu nome tem se dedicado à preservação da memória da vereadora assassinada e à multiplicação de seu legado. Desde sua criação, a organização atua na defesa de direitos humanos e no fortalecimento de lideranças negras, periféricas e LGBTQIA+. O novo estudo reafirma essa missão ao trazer dados robustos que expõem uma realidade dura: a democracia brasileira não pode ser plena enquanto mulheres negras forem alvo de um regime de ameaças que as obriga a disputar espaço político sob risco constante.

A publicação pretende servir de base para políticas públicas e para pressionar plataformas digitais a adotar mecanismos mais eficazes de monitoramento e responsabilização. Ao mesmo tempo, busca reforçar que a luta contra a violência digital é também uma luta em defesa da democracia.

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