A fronteira entre o Brasil e o Paraguai, marcada por décadas de tráfico, contrabando e assassinatos por encomenda, voltou a ser cenário de uma matança brutal. Três homens foram executados a tiros na região de Puerto Risso, na divisa com o município sul-mato-grossense de Porto Murtinho. As circunstâncias da emboscada e os perfis dos mortos reacenderam os temores de que a execução de Clemencio González Giménez, o temido narcotraficante paraguaio conhecido como “Gringo González”, tenha desencadeado uma nova série de acertos de contas entre facções rivais que operam na linha internacional.
O triplo homicídio ocorreu na quinta-feira, 24 de julho. As vítimas – Efraín Alfonzo López, de 44 anos; Fredy Echagüe Moreira, de 39; e Blas Antonio Centurión, de 41 – estavam a bordo de uma caminhonete Toyota Hilux branca quando foram interceptadas por ao menos dois veículos ocupados por pistoleiros armados com fuzis e pistolas. Uma chuva de disparos atingiu o veículo em movimento, fazendo com que o motorista perdesse o controle da direção. O carro saiu da estrada e despencou em um lago próximo.
Dois corpos – de Efraín López e Fredy Moreira – foram encontrados dentro da caminhonete quando ela foi retirada da água dois dias depois. O corpo de Blas Antonio foi localizado um dia antes, boiando próximo ao local do ataque. A brutalidade da ação e o uso de armamento pesado reforçam a tese de execução planejada, típica de grupos ligados ao narcotráfico.
As investigações conduzidas pela Polícia Nacional do Paraguai apontam que Fredy Echagüe Moreira seria o principal alvo da execução. Ele é apontado como um dos pistoleiros responsáveis por invadir o conjunto de quitinetes onde Gringo González se escondia e executá-lo com 48 tiros, no início de dezembro de 2024, em Pedro Juan Caballero – cidade fronteiriça separada por uma avenida de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul.
A conexão entre Fredy Moreira e o assassinato de Gringo surgiu após a prisão de Gregorio Esteban Morales Coronel, de 23 anos, conhecido como “Tuku”. Com ele, os agentes paraguaios apreenderam uma pistola Glock calibre 9 milímetros, que ele alegou ter recebido das mãos de Fredy dias antes. Exames de balística confirmaram que a arma fora utilizada no ataque que vitimou Gringo González.

Gringo, velho conhecido das forças policiais brasileiras e paraguaias, operava há anos no tráfico de drogas e armamentos na linha internacional. Vivendo de forma discreta em uma quitinete em Pedro Juan Caballero, ele tentava escapar da vigilância das facções inimigas. Segundo a polícia, teria sido traído por um funcionário próximo, que forneceu sua localização para rivais.
A suspeita predominante é de que Fredy Moreira tenha sido eliminado por faccionados ligados a Gringo ou contratados por eles, em retaliação direta à sua participação na execução. Já Efraín López e Blas Centurión podem ter sido apenas “efeitos colaterais”, mortos por estarem no lugar e na hora errada. Contudo, uma segunda hipótese, embora menos provável, também é considerada: a de que os três homens estariam envolvidos em abigeato – o furto de gado na faixa de fronteira – e teriam sido mortos por razões vinculadas a disputas locais nesse tipo de crime.
As autoridades paraguaias mantêm o caso sob sigilo parcial, mas fontes ouvidas pela imprensa afirmam que a guerra silenciosa entre grupos criminosos pela hegemonia no tráfico na fronteira voltou a se acirrar. A morte de Gringo, uma figura influente com conexões em vários níveis da rede de tráfico, pode ter deixado um vácuo de poder que diferentes quadrilhas agora disputam de forma violenta.
A fronteira segue sendo palco de um conflito subterrâneo, onde as leis que vigoram são as da bala e da vingança. O episódio mais recente apenas confirma que a paz na região está longe de ser alcançada e que, em meio à disputa por rotas, territórios e lealdades, vidas continuam sendo descartadas com frieza e impunidade.
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