Bonito, cidade sul-mato-grossense internacionalmente conhecida por suas belezas naturais, deu um novo passo em direção ao protagonismo cultural ao inaugurar a sua própria calçada da fama. Inspirado no modelo clássico de Hollywood, o projeto carrega, no entanto, uma identidade fortemente ligada à fauna, à história e à sensibilidade sul-americana. A cerimônia inaugural aconteceu no contexto do Festival de Cinema Sul-Americano (Cinesur), que movimenta a cidade nesta semana e trouxe personalidades marcantes do cinema do continente.
A primeira artista a deixar sua marca na recém-criada Calçada das Pegadas da Memória do Cinema Sul-Americano foi a atriz Ana Brun, do Paraguai, conhecida por sua premiada atuação no filme As Herdeiras, que lhe rendeu o Urso de Prata no Festival de Berlim. Ao pressionar suas mãos sobre o bloco de cimento, Ana eternizou não apenas sua trajetória, mas também a proposta simbólica do projeto: unir a arte cinematográfica à defesa ambiental. Ao lado de suas mãos, foi registrada a pegada de um tamanduá-mirim, um dos ícones da fauna pantaneira.
“Estou emocionada e orgulhosa por participar deste gesto que une cinema e proteção ambiental. Esta é uma ideia comovente e inspiradora”, declarou Ana Brun, visivelmente tocada pela homenagem.
A calçada, que será instalada futuramente na Praça da Liberdade, no centro da cidade, reúne as marcas de artistas sul-americanos, brasileiros e sul-mato-grossenses. As placas são confeccionadas com ferro e um cimento especial, onde são gravadas as mãos e assinaturas dos artistas. Cada placa também contém uma foto do homenageado, seu nome, data do registro e, logo abaixo, a imagem da pegada de um animal típico da região, com sua nomenclatura popular e científica.
Segundo o idealizador do projeto e diretor do Cinesur, Nilson Rodrigues, a iniciativa vai além da reverência à arte. Ela representa um compromisso com a memória, com a preservação da biodiversidade e com a valorização das conexões entre os seres humanos e o planeta que compartilham.
“Esta calçada vai ser uma cápsula do tempo, um acervo permanente de nossa trajetória cinematográfica, em que artistas e animais aparecem lado a lado. Estamos em Bonito, um paraíso ecológico. E aqui celebramos o cinema como parte da vida, da natureza e do planeta. Precisamos, sim, salvar o planeta. E o cinema pode nos ajudar a fazer isso”, afirmou Rodrigues durante a solenidade.
O prefeito de Bonito, Josmail Rodrigues, também destacou o simbolismo da proposta. “Esta calçada da fama é um marco da nossa cidade. É uma união entre a cultura e o meio ambiente, entre a memória humana e a fauna do Pantanal. Bonito será, no futuro, a capital do cinema ambiental”, declarou o gestor municipal, reforçando os planos de revitalização da Praça da Liberdade, onde a estrutura será oficialmente instalada.
Além de Ana Brun, outros grandes nomes do audiovisual já deixaram suas marcas nas placas. Entre eles, os atores brasileiros Antônio Pitanga e Maeve Jinkings, o distribuidor Jean Thomaz Bernardini, a produtora Cecilia Diez e o artista plástico sul-mato-grossense Humberto Espíndola. Ao longo da semana, estão previstas homenagens a Claudia Ohana, Thiago Lacerda, o cineasta José Eduardo Belmonte, o documentarista Aurélio Michillis e o diretor Luiz Carlos Lacerda.
Para o ator Antônio Pitanga, um dos ícones do cinema nacional, o momento foi de emoção e orgulho. “Aqui está se inaugurando o coração do cinema em Bonito. Para mim, é uma marca não só das mãos, mas também do coração. Já que não posso colocar meu coração, coloquei minhas mãos”, declarou o artista, emocionado.
A atriz Maeve Jinkings também se disse profundamente tocada pela iniciativa. “Achei o projeto incrivelmente inteligente. Ele brinca com o imaginário hollywoodiano, mas o reconstrói com uma identidade local forte. Não se trata apenas das mãos humanas, mas também das pegadas das outras espécies, mostrando que fazemos parte de uma mesma história natural. Isso me emociona profundamente”, afirmou.
A proposta, além de dar visibilidade aos artistas do continente, oferece um potente instrumento de conscientização ambiental e um novo atrativo turístico cultural à cidade. Em uma época marcada pela urgência das causas climáticas, a Calçada das Pegadas torna-se um símbolo de resistência poética e de preservação da memória.
Mais do que um espaço físico, o que Bonito inaugura é uma ideia: a de que a arte pode e deve caminhar ao lado da natureza, e que os registros da cultura humana ganham força quando reconhecem e reverenciam as demais formas de vida que dividem o planeta conosco.
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