A Unidos do Viradouro escreveu mais um capítulo marcante de sua história ao conquistar o título do Carnaval 2026 na Marquês de Sapucaí. Com um desfile grandioso, técnico e emocionante, a escola de Niterói alcançou pontuação máxima em todos os quesitos e levantou o troféu após uma apresentação dedicada à trajetória de Mestre Ciça, um dos nomes mais respeitados do samba carioca.
A agremiação entrou na avenida com segurança e organização, apresentando um enredo que percorreu cinco décadas da vida de Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça. Aos 69 anos, ele foi o centro de uma homenagem que misturou emoção, memória e espetáculo visual. A proposta não ficou apenas na reverência. A escola construiu uma narrativa clara, mostrando a caminhada do homenageado desde os tempos de passista na antiga Unidos de São Carlos, em 1971, até se tornar referência como comandante de bateria em grandes escolas.
A abertura do desfile chamou a atenção logo nos primeiros minutos. O carro abre-alas trouxe um leão de grandes proporções, com cerca de 15 metros de altura, símbolo ligado à Estácio de Sá, escola fundamental na formação de Ciça. A alegoria tinha movimentos mecânicos na cabeça e nas patas, além de uma coroa giratória. Dois componentes, Farley Mattos e João Victor, participaram de um efeito cênico que transformava suas fantasias na figura do animal, em uma estrutura que superava 25 quilos. O impacto visual foi imediato.
Ao longo da apresentação, a Viradouro combinou tecnologia e tradição. Telas de LED exibiam imagens de figuras importantes do samba, como Dominguinhos do Estácio e Luiz Melodia, reforçando o vínculo entre passado e presente. Cada setor do desfile destacava uma fase da vida de Mestre Ciça, mostrando sua passagem por agremiações como União da Ilha do Governador, Acadêmicos do Grande Rio e Unidos da Tijuca, além dos títulos conquistados.
O momento mais simbólico aconteceu quando o próprio homenageado, que havia participado da comissão de frente, contornou a Sapucaí e voltou a tempo de reger a bateria. Mesmo com apoio de cadeira de rodas e escolta, Ciça assumiu o comando com firmeza. A cena foi acompanhada de aplausos intensos das arquibancadas. Reconhecido como um dos mestres mais longevos em atividade, ele mostrou vitalidade e presença, conduzindo os ritmistas com precisão.
A bateria, aliás, foi um dos pontos altos do desfile. Em uma decisão que repetiu uma ideia apresentada pelo próprio Ciça em 2007, a escola posicionou os ritmistas sobre uma grande alegoria móvel. A estrutura foi montada a partir de chassis de caminhão-cegonha e de ônibus, somando cerca de 25 metros de comprimento. Ao todo, 301 pessoas estavam sobre o carro, entre músicos, diretoria e convidados.
Entre os destaques estava a atriz Juliana Paes, que retornou ao posto de rainha de bateria após 17 anos. Aos 46 anos, ela surgiu com figurino luxuoso confeccionado em Milão pela grife Dolce & Gabbana. A fantasia remetia à realeza e dialogava com o título simbólico atribuído a Ciça dentro do enredo. A presença da artista reforçou o brilho da apresentação e arrancou aplausos do público.
O intérprete Wander Pires conduziu o samba-enredo com firmeza, mantendo a harmonia entre alas e alegorias. A evolução da escola foi marcada por organização, sincronismo e energia constante do início ao fim. A narrativa visual, aliada ao desempenho técnico, garantiu o reconhecimento dos jurados.
A vitória representou o quarto campeonato da Unidos do Viradouro, que já havia conquistado títulos em 1997, 2020 e 2024. Desta vez, a escola apostou em uma história real e próxima de sua comunidade. Ao transformar Mestre Ciça em enredo, a agremiação celebrou não apenas um profissional respeitado, mas também a resistência e a disciplina do samba ao longo dos anos.
No encerramento, ao descer do último carro alegórico, Mestre Ciça estava visivelmente emocionado. A conquista simbolizou o reconhecimento de uma trajetória iniciada ainda na juventude, quando tocava agogô e dava os primeiros passos no mundo do carnaval. Hoje, consagrado, ele viu sua história ser cantada e encenada diante de milhares de pessoas.
A Unidos do Viradouro mostrou que tradição, inovação e organização podem caminhar juntas. Com um desfile técnico, envolvente e carregado de significado, a escola de Niterói confirmou sua força no cenário do carnaval carioca e eternizou na avenida o legado de um dos grandes mestres da bateria.
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