A maior ofensiva deste ano contra um suposto esquema de corrupção envolvendo contratos públicos em Mato Grosso do Sul mobilizou equipes em diversos municípios e resultou na prisão de empresários, servidores públicos, profissionais da saúde e de um ex-prefeito. A Operação Gutemberg, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, investiga uma organização suspeita de movimentar mais de R$ 27 milhões em contratos destinados à aquisição de livros paradidáticos, além de apurar possíveis irregularidades envolvendo o acesso à rede pública de saúde.
As investigações apontam que o grupo teria utilizado contratações por inexigibilidade ou dispensa indevida de licitação para favorecer empresas específicas na venda de materiais didáticos a municípios. Paralelamente, também é apurada a existência de um núcleo que teria exercido influência sobre a regulação de consultas, exames, cirurgias e vagas hospitalares, utilizando a estrutura pública para beneficiar ou pressionar administrações municipais ligadas ao esquema investigado.
Entre os principais alvos está a cirurgiã-dentista Rossana Paroschi Jafar, presa nas primeiras horas da manhã em um edifício localizado no Bairro São Francisco, em Campo Grande. Poucas horas antes, a filha dela, a médica e empresária Olívia Paroschi Jafar, também havia sido presa em outro condomínio da Capital.
Olívia é sócia-administradora da Clínica Ross, empresa inaugurada em maio de 2026 e voltada para atendimentos médicos ambulatoriais. O estabelecimento também foi alvo de mandado de busca e apreensão durante a operação. Formada em Medicina em 2024, ela atua na área de procedimentos estéticos, harmonização corporal e possui pós-graduação em dermatologia clínica e cosmiatria.
A família Jafar também mantém ligação empresarial com a Gráfica Alvorada, tendo Rossana como sócia-administradora. A empresa já havia aparecido em investigações anteriores relacionadas a contratos públicos para fornecimento de livros didáticos. Em 2017, Rossana também foi alvo da quarta fase da Operação Lama Asfáltica, que apurava suspeitas de desvios em contratos firmados pelo Governo de Mato Grosso do Sul.
Outro nome de destaque entre os presos é Ed Carlo Britto Burgatt, coordenador estadual de Regulação Assistencial da Secretaria de Estado de Saúde. As equipes também cumpriram diligências no Complexo Regulador Estadual, responsável pelo controle das vagas hospitalares, exames especializados, consultas e procedimentos do Sistema Único de Saúde.
Segundo as investigações, servidores com influência sobre o sistema de regulação da saúde poderiam ter utilizado esse poder para favorecer determinados municípios ou exercer pressão sobre administrações municipais envolvidas nas negociações investigadas.
Além dele, também foi presa Jessyka Duarte Burgatt, filha do servidor, apontada como integrante de um dos núcleos familiares investigados.
A operação também atingiu o ex-prefeito de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Junior Vasconcelos. Atualmente vinculado ao serviço público estadual, ele também passou a integrar a lista de investigados alcançados pelos mandados expedidos pela Justiça.
Outro alvo foi Marcio de Souza, servidor da Secretaria Municipal de Educação de Porto Murtinho. Durante o cumprimento dos mandados, ele acabou preso em flagrante por porte irregular de arma de fogo.
As investigações revelam que vários integrantes da organização pertencem ao mesmo núcleo familiar ou empresarial. Entre eles aparecem o empresário Paulo Rogério de Melo e seu filho, Douglas Henrique de Melo.
Paulo atua no ramo da comercialização de veículos por meio da empresa Atalaia Veículos. Douglas é ligado ao setor de entretenimento noturno e aparece como proprietário da empresa responsável pela administração da Lord Pub, além de divulgar a venda de veículos nas redes sociais.
Outro núcleo identificado envolve Joatan Gomes Peixoto, proprietário da Editora Avante e da empresa Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços, sediada em São Paulo. O filho dele, Matheus Oliveira Peixoto, também foi alvo de mandado de prisão. Ambos deverão responder às acusações dentro do andamento da investigação, que ainda busca esclarecer o papel individual de cada integrante.
A força-tarefa cumpriu 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, além de São Paulo e Abadiânia, em Goiás.
Durante uma das diligências realizadas em Dourados, uma cirurgiã-dentista foi alvo de busca e apreensão. No local, o marido dela acabou preso em flagrante após a localização de uma espingarda calibre 22 e munições de calibre 38, configurando posse ilegal de arma de fogo.
Ao longo da operação também foram apreendidos R$ 69.795 em dinheiro, além de 907 dólares. Parte das cédulas estava lacrada em embalagens bancárias, material que passou a integrar os elementos recolhidos durante as buscas.
As apurações indicam que empresas ligadas ao fornecimento de livros paradidáticos teriam participado de contratações direcionadas, permitindo a celebração de contratos milionários entre fornecedores e administrações municipais. Paralelamente, os investigadores buscam esclarecer de que forma agentes públicos ligados ao setor da saúde poderiam ter utilizado cargos estratégicos para favorecer interesses do grupo.
No Complexo Regulador Estadual, as equipes permaneceram por cerca de duas horas realizando buscas em documentos, equipamentos eletrônicos e outros materiais considerados importantes para o avanço das investigações.
Governo vai exonerar servidores investigados pelo Gaeco
Após a deflagração da operação, o Governo de Mato Grosso do Sul informou que irá afastar ou exonerar os servidores investigados. Também foi determinada a realização de auditorias administrativas para verificar todos os procedimentos relacionados aos fatos apurados, além do acompanhamento permanente das investigações pelos órgãos de controle interno.
As autoridades ressaltam que as investigações continuam e que novas fases não estão descartadas. Os materiais apreendidos serão analisados para identificar a participação individual de cada investigado, rastrear a movimentação financeira do grupo e verificar se existem outros contratos públicos ligados ao suposto esquema.
A Operação Gutenberg representa uma das maiores ações de combate à corrupção realizadas recentemente em Mato Grosso do Sul e busca esclarecer a existência de uma estrutura organizada que, segundo as investigações, teria atuado tanto na contratação de materiais didáticos quanto em áreas estratégicas da administração pública, especialmente na saúde, envolvendo empresários, servidores públicos, profissionais liberais e agentes políticos.
Diante do avanço das investigações, o Governo de Mato Grosso do Sul anunciou que irá afastar ou exonerar os servidores públicos alcançados pela Operação Gutemberg. A medida foi divulgada poucas horas após a deflagração da ofensiva e faz parte das providências administrativas adotadas paralelamente às investigações conduzidas pelas autoridades.
Em comunicado oficial, a administração estadual afirmou que mantém uma política permanente de transparência, controle interno e ações de compliance, ressaltando que, como procedimento adotado em casos de investigação envolvendo agentes públicos, determinou o afastamento e, quando cabível, a exoneração dos servidores envolvidos até que os fatos sejam devidamente esclarecidos.
O Governo também informou que a Secretaria de Estado de Saúde e a Controladoria-Geral do Estado acompanharão o andamento das investigações e realizarão auditorias administrativas para analisar os procedimentos citados durante a apuração. O objetivo é verificar a regularidade dos atos praticados, identificar eventuais falhas e adotar as medidas administrativas necessárias caso sejam constatadas irregularidades.
A decisão ocorre em meio às investigações que apuram um suposto esquema de corrupção envolvendo contratos públicos para aquisição de livros paradidáticos e possíveis interferências na regulação da saúde pública. As auditorias deverão abranger os procedimentos relacionados aos fatos investigados, enquanto as análises dos documentos e materiais apreendidos durante a Operação Gutenberg seguem em andamento.
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