Mato Grosso do Sul, 23 de julho de 2026
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Consignado CLT acelera endividamento e maioria dos trabalhadores já acumula vários empréstimos

Levantamento mostra que grande parte dos empregados com carteira assinada mantém dois ou mais contratos ativos, enquanto especialistas alertam para o risco de comprometer a renda sem planejamento financeiro adequado
Trabalhador pode pegar até nove empréstimos e comprometer até 35% do seu salário-base
Trabalhador pode pegar até nove empréstimos e comprometer até 35% do seu salário-base

O Crédito do Trabalhador, modalidade de empréstimo consignado destinada aos empregados com carteira assinada, completou um ano cercado por um cenário de forte expansão nas contratações e de crescente preocupação com o endividamento das famílias brasileiras. Embora o programa tenha ampliado o acesso ao crédito para milhões de trabalhadores, levantamentos mostram que boa parte dos beneficiários já acumula mais de um contrato ativo, muitas vezes sem conhecer o custo real das operações ou o impacto das parcelas sobre a renda mensal.

Os dados revelam que a modalidade passou a ocupar espaço importante no orçamento dos trabalhadores formais e levantam um alerta para a necessidade de planejamento financeiro. Especialistas defendem que o acesso facilitado ao crédito precisa caminhar junto com maior orientação aos consumidores para evitar que uma solução temporária se transforme em um problema permanente.

Levantamento realizado durante o primeiro ano de funcionamento da modalidade aponta que 74% dos trabalhadores que contrataram o consignado privado já possuem dois ou mais empréstimos ativos. O número demonstra que muitos consumidores recorreram novamente ao crédito após a primeira contratação, ampliando o comprometimento da renda com descontos mensais em folha de pagamento.

Pelas regras atuais do programa, cada trabalhador pode manter até nove contratos ativos simultaneamente. O limite de comprometimento da renda chega a 35% do salário-base, percentual que também considera benefícios, adicionais, comissões e outras verbas salariais permitidas pela legislação.

Na prática, isso significa que uma parcela significativa do salário pode ficar comprometida durante vários anos, reduzindo a capacidade financeira da família para enfrentar despesas inesperadas ou organizar novos investimentos.

Outro dado que chama atenção é o aumento dos custos para parte dos trabalhadores que voltaram a contratar crédito.

Entre aqueles que fizeram um segundo empréstimo consignado, aproximadamente 29% passaram a pagar taxas de juros superiores às cobradas na primeira operação. Isso demonstra que nem sempre a nova contratação representa condições mais vantajosas, principalmente quando o consumidor busca recursos de forma urgente.

A pesquisa analisou quase 192 mil contratos de empréstimos consignados privados firmados em dezenas de empresas e instituições financeiras, oferecendo um retrato detalhado da evolução da modalidade desde sua criação.

O estudo também mostra que muitos trabalhadores passaram a diversificar os bancos utilizados para contratar crédito.

Mais da metade dos consumidores que possuem vários empréstimos ativos realizou operações em instituições financeiras diferentes, indicando que a busca por novos recursos ocorreu em diversos bancos ao mesmo tempo.

Especialistas explicam que essa prática pode dificultar ainda mais o controle financeiro, já que diferentes contratos possuem prazos, taxas, datas de vencimento e condições específicas.

O levantamento revela ainda que a maior parte das operações ocorreu em valores considerados baixos.

Quase metade dos contratos assinados ficou na faixa de até R$ 1.500, indicando que muitos trabalhadores recorreram ao consignado para resolver necessidades financeiras imediatas, quitar pequenas dívidas ou enfrentar despesas emergenciais.

Apesar dos valores menores, essas operações apresentaram taxas médias de juros superiores às verificadas em financiamentos de maior valor e com prazos mais longos.

Enquanto isso, empréstimos superiores a R$ 20 mil representaram menos de 2% das operações realizadas durante o primeiro ano do programa. Essas operações, em geral, apresentaram juros mais baixos e prazos maiores para pagamento.

Outro ponto observado pelos pesquisadores foi o aumento da procura por crédito entre os trabalhadores que aderiram ao consignado.

Grande parte dos consumidores realizou diversas consultas ao CPF nos últimos meses, indicando maior movimentação financeira e busca constante por novas linhas de financiamento.

Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que uma parcela expressiva dos contratantes já possuía algum tipo de restrição financeira, demonstrando que muitos recorreram ao consignado justamente em meio a dificuldades econômicas.

O comportamento dos consumidores também acendeu um sinal de alerta entre especialistas em educação financeira.

Pesquisas mostram que uma parcela significativa dos trabalhadores desconhece completamente quanto está pagando de juros nas operações contratadas.

Muitos afirmaram que decidiram contratar o empréstimo observando apenas o valor da parcela mensal, sem calcular quanto pagarão ao final do contrato.

Outro aspecto considerado preocupante é que boa parte dos trabalhadores não realizou qualquer planejamento financeiro antes da contratação.

Milhares de consumidores admitiram não avaliar como o desconto mensal afetaria o orçamento doméstico ao longo dos meses seguintes.

Também há um número elevado de pessoas que utilizaram o consignado para quitar dívidas anteriores, como cartão de crédito, cheque especial ou outros empréstimos com juros elevados.

Embora essa estratégia possa reduzir temporariamente o valor das parcelas, especialistas alertam que ela não resolve o problema quando não existe reorganização das despesas da família.

Sem mudanças no comportamento financeiro, o trabalhador pode voltar a contrair novas dívidas e iniciar um ciclo contínuo de endividamento.

Os especialistas defendem que o crédito consignado deve ser utilizado como instrumento de planejamento financeiro e não como solução automática para dificuldades recorrentes.

Segundo eles, antes de contratar qualquer financiamento, o trabalhador deve comparar taxas de juros, analisar o prazo de pagamento, verificar o impacto das parcelas no orçamento familiar e calcular o custo total da operação.

Outro ponto importante é evitar utilizar todo o limite disponível apenas porque ele está liberado.

Mesmo com a possibilidade de comprometer até 35% do salário, economistas recomendam que o consumidor preserve parte da renda para despesas inesperadas, evitando dificuldades futuras.

O Crédito do Trabalhador foi criado justamente para ampliar o acesso ao crédito aos empregados com carteira assinada, eliminando a necessidade de convênios específicos entre empresas e bancos.

Nesse modelo, as parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento, reduzindo o risco de inadimplência para as instituições financeiras e permitindo a oferta de juros inferiores aos praticados em modalidades tradicionais de empréstimo pessoal.

O programa contempla trabalhadores com carteira assinada, empregados domésticos, trabalhadores rurais, assalariados e também microempreendedores individuais.

Como garantia adicional, as instituições financeiras podem utilizar parte do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e o valor correspondente à multa rescisória em caso de demissão sem justa causa.

Mesmo os trabalhadores que optaram pelo saque-aniversário do FGTS podem permanecer nessa modalidade e, ao mesmo tempo, contratar o consignado.

Especialistas avaliam que o programa continuará crescendo nos próximos anos, mas destacam que o sucesso da modalidade dependerá não apenas da ampliação do acesso ao crédito, mas principalmente da capacidade dos trabalhadores de utilizar esse recurso com responsabilidade, planejamento e conhecimento sobre as condições financeiras assumidas.

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