A Polícia Federal ampliou o alcance da investigação que envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme Dark Horse, produção cinematográfica sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A nova frente de apuração pretende cruzar os R$ 61 milhões transferidos por Vorcaro para o projeto com as emendas parlamentares apresentadas pelo senador.
O objetivo dos investigadores é verificar se os repasses milionários destinados à produção cinematográfica tiveram apenas finalidade empresarial e cultural ou se também podem ter sido acompanhados de alguma contrapartida política. A apuração passou a analisar, de forma conjunta, movimentações financeiras, contratos, mensagens, áudios e possíveis relações entre os recursos do filme e interesses ligados ao Banco Master.
A investigação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal e ganhou novo alcance após manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República. Com a abertura formal do inquérito, a Polícia Federal deverá aprofundar o rastreamento do dinheiro e analisar não apenas para onde os recursos foram enviados, mas também as relações políticas e empresariais que podem ter envolvido os participantes do negócio.
O caso, que inicialmente poderia ser tratado apenas como uma investigação sobre o financiamento de uma produção cinematográfica, passou a envolver uma rede mais ampla de relações financeiras e políticas. No centro da apuração estão os recursos repassados por Daniel Vorcaro, a participação de integrantes da família Bolsonaro no projeto, a atuação de intermediários e a possibilidade de que decisões políticas tenham favorecido interesses relacionados ao grupo empresarial ligado ao Banco Master.
A investigação também deverá reunir informações de outros procedimentos que envolvem o banco e pessoas próximas ao ex-banqueiro. A intenção é identificar possíveis conexões entre movimentações financeiras, contratos, empresas, emendas parlamentares e transferências internacionais.
A principal linha de investigação envolvendo as emendas parlamentares busca descobrir se houve algum tipo de favorecimento ao Banco Master ou a empresas ligadas ao grupo de Vorcaro. Para isso, os investigadores deverão analisar as emendas apresentadas por Flávio Bolsonaro e verificar os destinos dos recursos, os beneficiários e eventuais relações com empresas, instituições ou pessoas ligadas ao banco.
A apuração não parte da confirmação de que houve irregularidade. O trabalho da Polícia Federal será justamente verificar se existe alguma relação concreta entre os recursos destinados ao filme e decisões políticas tomadas no exercício do mandato parlamentar.
O cruzamento de dados deverá permitir que os investigadores acompanhem o caminho dos recursos e comparem datas, contratos, transferências e atos políticos. A partir dessa análise, a PF pretende verificar se houve coincidência entre os repasses milionários para o projeto cinematográfico e decisões que possam ter beneficiado interesses empresariais.
A rota internacional do dinheiro também está entre os principais pontos da investigação. Parte dos recursos teria passado por estruturas empresariais ligadas à Entre Investimentos e Participações antes de seguir para uma estrutura financeira localizada no Texas, nos Estados Unidos.
Segundo a linha investigada, o Banco Master teria enfrentado dificuldades para realizar determinadas operações de câmbio por causa de problemas cadastrais. A partir daí, os recursos teriam sido direcionados para a Havengate Development Fund LP, estrutura registrada em território norte-americano.
O rastreamento completo dessas movimentações poderá depender da cooperação das autoridades dos Estados Unidos. A PF deverá buscar informações sobre a origem, o destino e a finalidade dos valores transferidos para o exterior, além de verificar quem tinha controle ou participação nas estruturas utilizadas para movimentar os recursos.
A investigação também analisa conexões societárias e jurídicas relacionadas à estrutura montada no Texas. Um escritório que teria atuado como agente legal da estrutura internacional possui conexões societárias que, segundo os documentos analisados, são associadas a Eduardo Bolsonaro.
A PF pretende verificar se a movimentação financeira teve finalidade exclusivamente relacionada à produção do filme ou se os recursos também podem ter se conectado a atividades políticas e empresariais desenvolvidas no exterior.
Eduardo Bolsonaro rejeita as suspeitas e considera a hipótese levantada contra ele sem fundamento. O deputado afirma que a origem de seus recursos foi declarada às autoridades competentes e que não existe irregularidade na estrutura utilizada para o projeto.
A relação entre os envolvidos começou a deixar registros formais antes mesmo da atual fase da investigação. Em janeiro de 2024, um contrato assinado digitalmente colocou Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias como produtores-executivos do projeto, ao lado da empresa GoUp Entertainment.
O documento previa a participação dos envolvidos na estrutura de produção e na gestão do orçamento do filme. A produção teria sido planejada com orçamento elevado, dentro de uma estrutura que poderia chegar a até US$ 24 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões.
Em dezembro de 2024, Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro teriam se encontrado na residência do ex-banqueiro, em Brasília. Na mesma ocasião, Mario Frias enviou um áudio agradecendo o apoio recebido para o projeto cinematográfico e afirmando que a produção poderia provocar forte reação emocional no público.
A investigação também analisa mensagens e áudios que teriam sido trocados posteriormente. Em setembro de 2025, registros obtidos durante a apuração apontariam que Flávio Bolsonaro teria cobrado a liberação de novos recursos para o filme.
Em novembro do mesmo ano, outra mensagem atribuída ao senador teria demonstrado proximidade com Daniel Vorcaro. Em uma das comunicações, Flávio teria chamado o ex-banqueiro de “irmão” e declarado apoio ao empresário.
A sequência de contatos e transferências passou a ser analisada pelos investigadores em conjunto. A PF pretende verificar se a relação entre os envolvidos foi apenas comercial ou se existiam outros interesses por trás dos aportes financeiros.
A formalização do novo inquérito ocorreu após a Polícia Federal solicitar a abertura da investigação. A Procuradoria-Geral da República avaliou que havia elementos suficientes para o aprofundamento das apurações, e o Supremo Tribunal Federal autorizou a investigação sobre as possíveis conexões entre Vorcaro, Flávio Bolsonaro, as emendas parlamentares e os recursos destinados ao filme.
Outro ponto que deverá ser incorporado ao inquérito envolve notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Os documentos somariam R$ 1,5 milhão e teriam relação com estruturas empresariais ligadas ao grupo de Daniel Vorcaro.
De acordo com os registros analisados, duas notas fiscais no valor de R$ 500 mil cada teriam sido emitidas e posteriormente canceladas em relação a uma empresa que teria recebido recursos ligados ao Banco Master. Uma terceira nota, também no valor de R$ 500 mil, teria sido efetivamente paga por outra empresa relacionada ao grupo empresarial.
A Polícia Federal deverá analisar a natureza dos serviços prestados, os contratos firmados, as empresas envolvidas e as datas dos pagamentos. A investigação busca saber se as operações correspondem a serviços efetivamente realizados ou se podem ter sido utilizadas para movimentar recursos entre pessoas e empresas ligadas ao caso.
O publicitário Thiago Miranda aparece como uma das pessoas que conectam diferentes núcleos da investigação. Ele é apontado como intermediário nas conversas envolvendo Flávio Bolsonaro, Mario Frias e Daniel Vorcaro durante as negociações relacionadas ao filme.
Thiago Miranda também já havia sido alvo de medidas de busca e apreensão em uma investigação que apura ações contra a reputação do Banco Central. O caso está relacionado a suspeitas de ataques destinados a pressionar ou retaliar a instituição após medidas que atingiram interesses ligados ao Banco Master.
A presença do publicitário em diferentes frentes de investigação levou a Polícia Federal a analisar suas relações, comunicações e movimentações financeiras. O objetivo é verificar se ele atuou apenas como intermediário na produção cinematográfica ou se também teve participação em outras articulações envolvendo o banco e pessoas ligadas ao grupo empresarial.
A apuração envolvendo o filme Dark Horse também deverá analisar o planejamento financeiro da produção. Os valores envolvidos chamaram a atenção dos investigadores devido ao tamanho do orçamento e à origem de parte dos recursos.
O filme foi planejado para contar a história de Jair Bolsonaro e teria recebido aportes milionários de Daniel Vorcaro. A investigação busca esclarecer como o dinheiro entrou na estrutura do projeto, quais empresas participaram da operação e quais pessoas tinham poder de decisão sobre os recursos.
O cruzamento com as emendas parlamentares de Flávio Bolsonaro representa uma nova etapa da apuração porque pretende comparar dois campos diferentes: de um lado, os investimentos privados no filme; de outro, a atuação política do senador no Congresso Nacional.
Os investigadores deverão examinar se houve alguma relação temporal ou financeira entre os aportes realizados por Vorcaro e a apresentação, destinação ou execução de emendas parlamentares. Também será analisado se empresas ou instituições ligadas ao Banco Master foram beneficiadas direta ou indiretamente por recursos públicos.
Caso sejam encontradas conexões concretas, a investigação poderá avançar para novas diligências. Se não forem identificados vínculos entre os recursos privados e as decisões políticas, essa linha de apuração poderá ser descartada.
Flávio Bolsonaro afirma que é vítima de perseguição política e nega qualquer irregularidade. O senador sustenta que os recursos destinados ao projeto seguiram procedimentos legais e foram encaminhados para uma estrutura privada no exterior.
A defesa também afirma que o filme possui estrutura jurídica própria e que as operações financeiras relacionadas à produção não têm ligação ilegal com sua atividade parlamentar.
A abertura do inquérito, por si só, não significa que os investigados tenham sido considerados culpados. A investigação ainda deverá reunir documentos, analisar dados financeiros, ouvir pessoas envolvidas e verificar se as suspeitas apresentadas possuem elementos suficientes para justificar novas medidas.
O principal desafio da Polícia Federal será reconstruir todo o caminho dos R$ 61 milhões destinados ao filme, identificar as empresas que participaram das operações e comparar essas informações com a atuação política de Flávio Bolsonaro.
A apuração também deverá avaliar se as transferências internacionais tiveram finalidade exclusivamente relacionada à produção cinematográfica ou se fizeram parte de uma estrutura financeira mais ampla.
Com a autorização do Supremo Tribunal Federal, os investigadores terão agora uma frente de trabalho que envolve documentos bancários, contratos, notas fiscais, mensagens, áudios, movimentações internacionais e emendas parlamentares.
O caso passou a reunir, em uma mesma investigação, o financiamento de uma produção cinematográfica, relações políticas, movimentações financeiras de grande valor, estruturas empresariais no exterior e interesses ligados ao Banco Master.
A partir das novas diligências, a Polícia Federal deverá tentar esclarecer se todos esses elementos fazem parte de relações comerciais independentes ou se existe uma ligação financeira e política entre eles.
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